quinta-feira, 8 de junho de 2017

Entrevistas e empregos abusivos



De fato, parece que não estamos preparados para as primeiras experiências. Depois, quando as analisamos, nos damos conta de muitas coisas, entre elas de abusos que sofremos ou de reações que gostaríamos de ter tido e, por nos tornarmos reféns do inusitado, simplesmente fomos incapazes de tê-las. Creio que essa ideia se aplica a milhares de situações, mas gostaria de relatar especificamente algumas experiências que tive no campo de trabalho. Se forem úteis a alguém, fico feliz, mas confesso que para mim pesa menos a utilidade pública do que a catarse de escrever sobre elas.

A primeira delas, digna de nota, deu-se em meu primeiro emprego como professor. O diretor da escola me abordou no final do ano e disse que gostaria que eu fosse à formatura da 3ª série do ensino médio. Naquela época, eu não dava aulas oficialmente para essa turma nem para nenhuma outra que estivesse se formando. Disse a ele que não iria, pois além de não gostar de festas solenes, não acreditava que minha presença tivesse algum valor real no contexto. Sinceridade é um defeito?

Ele não disse mais nada.

No dia seguinte me comunicou que se eu não fosse a tal formatura, a mantenedora da escola iria me demitir.

O que eu fiz, senhoras e senhores?

Fui.

Pouco tempo depois, saí dessa escola e me tornei bancário concursado, aparentemente livre de despotismos. Essa parecia uma posição mais cômoda, mas nem sempre e nem tanto.

Trabalhava em uma agência na região central de São Paulo, onde havia milhares de contas de servidores públicos.

Pouco tempo depois de tomar posse no concurso, uma outra colega também veio trabalhar na mesma agência. Foi então que ela recebeu uma incumbência: sentar-se diante de um terminal e cometer um crime. Ela deveria mudar a condição das contas comuns dos clientes da agência para contas com cheque especial. Esse tipo de mudança só pode ser feito com consentimento do cliente e mediante a assinatura de contrato. Isso porque o cliente passa a pagar mais por esse tipo de conta e pode contrair dívidas com o banco caso utilize o cheque especial. Quando não se sabe que se dispõe de um cheque especial, é fácil estourar a conta e ter depois de pagar juros ao banco.

Minha colega deu acesso a cheque especial pelo menos para algumas centenas de clientes. Eu a alertei que não poderia fazer aquilo, pois, além de ser crime, todos os comandos ficariam registrados no nome dela. Ela simplesmente disse que eram ordens do gerente geral.

Um mês depois, os problemas começaram a surgir no atendimento. Eram clientes indignados por ter de pagar nove reais mensais pelo benefício e terem um cheque especial que não pediram nem desejavam. Parecia até uma coisa boba essa indignação, mas não é nem era.
 
Cheguei então ao meu gerente geral e lhe disse que suas ordens de um mês antes estavam dando um resultado muito ruim no atendimento. Ele então me confrontou com a ética da matemática: "Quantas reclamações vocês atenderam hoje?"

"Seis." - respondi.

"Então, multiplique 9 reais por 3000 (clientes que receberiam o 'benefício') e extraia 6 clientes: esse é o lucro mensal - todo mês - da agência só com essa operação." 

Sinto que ele se deliciou com essa astúcia da matemática básica.

No mesmo banco, vi pessoas exploradas de todos os jeitos, principalmente idosos. Como se posicionar contra esse sistema? 

Depois de um ano e meio como bancário, voltei à sala de aula.

Dessa vez, o período foi de calmaria.

Contudo, poucos anos depois, mudei de cidade e tive algumas experiências inéditas para mim, trabalhar em colégios confessionais. 

Em um deles, estava acertando a quantidade de aulas que daria durante a semana, quando o coordenador que me contratava fez o seguinte comentário:

"Você não é cristão, é?"

Respondi que não e comentei que não sabia em que aquilo seria relevante, uma vez que não lecionaria religião e sim Literatura.

Então ele me alertou de que deveria tomar cuidado com certos assuntos durante as aulas. Em todo caso, deveria consultá-lo sobre um tema ou outro que fosse tratar.

Assim que pude, pedi demissão, pois, pior do que a censura política, são os atos da inquisição, que fazem um balaio de gato com vários assuntos de natureza distinta - como pude perceber ao longo de um ano naquela instituição.

Em outra escola, enquanto a coordenadora me mostrava o colégio, ela me perguntou qual era a minha religião. Respondi simplificadamente: "Espírita" (embora para mim religião seja algo mais profundo, que não convém explicar aqui). Estava crédulo de que é melhor falar a verdade do que dissimulá-la ou omiti-la.

Ela parou, sem reação. A desaprovação foi evidente. E tudo ficou muito claro e cada vez mais obscuro, pois não consigo ver relação entre aulas de redação e literatura com minha religiosidade ou concepção de mundo.

Felizmente, nossa conversa não foi além daí, não peguei aulas nessa escola.

Em outra, a situação foi mais intrigante. Não se tratava de uma escola confessional, mas a coordenadora conseguiu transcender as expectativas: perguntou se eu era casado, o que minha mulher fazia, se tínhamos filhos.
Respondi que minha mulher queria ter filhos, eu não.
 
"Se ela quer, dê filhos a ela" - respondeu-me a boa mulher. E naquele momento tudo me pareceu claro a respeito das expectativas depositadas nos funcionários do colégio, nos alunos e na própria sociedade. Percebi que aquele não era meu lugar e dei graças aos deuses por não ser obrigado, como no início de minha carreira, a aceitar aquele emprego.

Outro caso interessante foi quando, também no processo de contratação, me perguntaram se eu tinha residência e carro próprios. Quando respondi afirmativamente, ouvi que então eu deveria me dar por satisfeito, uma vez que estava acima da média do brasileiro. (Gostaria muito de saber se isso me faz um melhor professor...)

Bom, caros leitores, para não terminarmos assim, num beco sem saída no qual o abuso - mesmo que inconsciente - parece ser regra, gostaria de pontuar duas entrevistas felizes de emprego. Uma de um amigo, outra minha.

Meu amigo tem inúmeras tatuagens e ensina filosofia. Já acostumado ao preconceito, foi a uma entrevista de emprego com uma blusa comprida. Depois que parecia tudo acertado, mostrou ao diretor uma de suas tatuagens que apareceria se usasse camiseta e perguntou se haveria problema para a escola. O bom homem, conhecedor do mundo, respondeu com uma pergunta: "Você é sensato e sabe ensinar bem sua matéria?"

Sim, há sempre uma luz! De fato, parece que não é necessário mais do que isso.

No meu caso, uma entrevista dificílima e memorável - das mais honestas que tive - foi com uma diretora que me perguntou quais eram os últimos livros que havia lido, o que achava de tal personagem de tal obra clássica da literatura brasileira, qual era o meu autor brasileiro preferido, o que achava do uso de obras adaptadas em sala de aula, qual era o conteúdo que eu preferia ensinar e por quê. Estava ela junto com mais três coordenadoras de Língua Portuguesa diante de mim que também intercalaram perguntas de estilo semelhante. 

Caros leitores, nunca me senti tão desafiado a dar o meu melhor por uma instituição e por minha equipe, mesmo antes de trabalhar naquela escola. Ali ficara bem claro o que realmente importa em uma sala de aula; aquele foi meu batismo de fogo como profissional. Foi uma experiência que moldou minha percepção sobre o que e como deve ser uma entrevista de emprego; qualquer pergunta que fuja objetivamente do que é essencial à sala de aula me parece fora de propósito. Se eu sou casado com alguém do mesmo sexo, se não creio em Deus, se acredito no liberalismo, penso que nada disso deve ser tabu, ou deve?

Se você tem alguma história de abuso em entrevista de emprego ou no emprego em si para contar, convido a deixá-la registrada nos comentários.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Bolsonaro: combater o mito?


Na verdade, este texto não é sobre o Bolsonaro, mas, se uma referência a ele consta no título, é porque este artigo nasce inspirado em algumas reflexões que partem de dois elementos que considero dignos de estudo: o discurso do "mito" e a abordagem que frequentemente seus antagonistas utilizam para combatê-lo.
Vou começar pelo segundo elemento, pois há um bom tempo a expressão "primeiramente" foi monopolizada pelo complemento "Fora Temer". Diga-se de passagem, algo a que eu não me oponho.

Enfim, voltando à questão.

Costumo dizer que os detratores do nobre deputado, principalmente os jovens de espírito revolucionário, aparentemente têm se tornado os mais eficientes cabos eleitorais de Bolsonaro. Suas intervenções com enfrentamentos e perguntas parecem mais coisa daqueles times adversários no vôlei em que a estratégia equivocada de um dos oponentes resulta desastradamente em acabar levantando a bola para o adversário cortar com fúria e de modo indefensável. E podem ter certeza, meus amigos, o Bolsonaro corta sem dó - esse tipo de jogada não é novidade para ele. No fim, ele ainda aumenta mais sua popularidade, convencendo seus adeptos de que ele é de fato um mito. 

"Um estuprador e um assassino não merecem uma segunda chance?"
"A vítima terá uma segunda chance?" - rebate ele acertadamente quando o tema é pena de morte.

"Um criminoso apodrecerá em uma cadeia em péssimas condições?"
"Pensasse antes de cometer o crime." - lucidamente se ancora na responsabilidade que cada indivíduo deve ter sobre os próprios atos.

"Cada um deve ter o direito de portar sua própria arma e defender-se." - lógica irrefutável do princípio da legítima defesa.

Não adianta se indignar, essas respostas tocam em pontos sensíveis a qualquer um que se sente na iminência de sofrer ou que já sofreu algum tipo de violência.

Estudo argumentação já faz um bom tempo e um pouco de experiência que tenho de vida me leva a considerar que, mesmo bombástico, há um sentido na fala do mito. E aqui acho mito uma palavra bem adequada: os mitos com os quais trabalha o Bolsonaro.

Não vou negar, e sei que posso ser muito criticado por isso, acho o nobre deputado uma pessoa que tem carisma - não do tipo que me cativa. Fala firme, com convicção, diz na lata, como um tiro, tem uma lógica clara, sem academicismos e reticências, uma fala que mexe sobretudo com quem se sente vivendo em uma sociedade caótica, em que falta segurança e regras claras de conduta, e na qual valores tradicionais vão se desconstruindo. É a fala da ordem num contexto de valores meio débeis e inconstantes. É, portanto, a fala de um líder - não do líder que eu gostaria de ter, mas do líder do qual muitos sentem falta - e por isso alguns o amam e outros o odeiam. O julgamento morno não costuma acompanhar esse tipo de pessoa. Para alguns, ele é um mítico herói, para mim: não exatamente um mito, mas um personagem folclórico, cujo tempo há de passar e espero sem muitos estragos.

Feitas essas considerações, agora vamos à questão real deste texto. A partir daqui, procurarei respeitar meu leitor mais do que fazem os políticos e - acredito - trabalharei as ideias que combateriam de fato o fenômeno Bolsonaro, não em enfrentamentos públicos, mas nas discussões sérias que contribuem para tirar o ibope de discursos fast-food.

Para isso, gostaria de iniciar com uma questão central de muito interesse do deputado e da população: polícia e segurança pública.

Quem é o policial hoje?

É alguém que entra para a corporação por diferentes motivos. O melhor deles talvez seja o senso de dever e justiça, a vontade de servir e combater o crime. Uma pessoa como essa - não que todos sejam assim - deve ser uma reserva moral não só da polícia, mas da própria sociedade - que infelizmente tem aprendido a temê-lo ou odiá-lo.

De que ele precisa?

Basicamente, ele precisa de dois tipos de formação. Uma é a formação sobre os direitos constitucionais. Ele precisa ter a percepção de que em uma sociedade democrática o valor está no diálogo, no consenso, no bom senso. Isso é essencial no trato com o cidadão comum. A questão da subordinação irrestrita e da obediência cega, sem espaço para o contraditório, tem seu lugar nos quartéis, não com o cidadão honesto, independente de sua cor, idade e classe social.

Contudo, a linguagem no trato com o criminoso comum é de outra natureza. É a linguagem da autoridade, da contenção, da subordinação sim. É a linguagem com a qual o cidadão comum não está acostumado, mas é essencial para o policial. Ele precisa saber utilizá-la, não simplesmente para constranger o bandido, mas para tornar o trabalho policial menos penoso, menos desgastante do ponto de vista psicológico e até físico.

Outro aspecto importante é que esse policial tenha preparo para distinguir o cidadão comum do bandido, de modo a adequar sua linguagem, sua abordagem. Essa formação, antes de tudo, só tende a favorecer esse profissional, tanto em seu status diante da sociedade quanto em sua prática cotidiana. O exercício do uso dessas duas linguagens deve ser revisitado continuamente e considerado elemento de valor à profissão.

É também de extrema relevância que o policial tenha aparato adequado para lidar com o crime. Armas obsoletas ou pouco confiáveis colocam a vida desse profissional na mão de bandidos que, diga-se de passagem, têm muitas vezes prazer em alvejar policiais e o fazem sem pena ou remorso.

E nesse ponto creio que seja válido chamar a atenção sobretudo dos chamados cidadãos de bem: a maior parte do tempo é com bandidos que o policial está lidando para que você e eu estejamos em segurança. Ele faz por um salário relativamente baixo aquilo que nem eu nem a média das pessoas faria por dinheiro algum: arrisca a própria integridade física, a vida e até a segurança e conforto dos familiares.

Creio que seja válido também lembrar que muitos acreditam que liberdade de expressão seja algo irrestrito, ou seja, vale xingar, esconder o rosto em uma manifestação, pichar e fazer birra contra autoridades policiais a exemplo de crianças mimadas. Bom leitor, na verdade, pela Constituição, não é bem assim. Aliás, todos deveríamos ao menos conhecer um pouco esse documento antes de fazer uso de nossa liberdade de expressão, seja em uma conversa, em redes sociais ou em manifestações. Todo manifestante deveria também considerar o direito à liberdade de ir e vir, antes de decidir arbitrariamente tomar uma rua ou avenida, de modo a constranger motoristas - cidadãos - a não chegarem às próprias casas, irem a hospitais, delegacias ou aonde quer que desejem e precisem ir. E se pareço fazer o papel de advogado do diabo, gostaria de lembrar que essas leis nos servem como coletividade, não foram feitas simplesmente para servir ao contexto que particularmente nos interesse. Outro ponto importante: não temos o direito ao anonimato ao nos expressarmos na maioria dos casos, por isso, vamos tirando o lenço do rosto - a não ser é claro naqueles momentos críticos de exacerbação da outra parte - uma vez que o tema deste artigo não são as vidas e práticas dos santos.

Pichadores de protesto também precisam saber que os muros, embora estejam por todas as partes sem ninguém que os olhe, têm donos, nenhum protesto que deprede um bem público (de todos) ou privado (de alguém) por mera conveniência deve ser tolerado socialmente e validado dentro de um relativismo. E se a ideia não parece muito clara ao leitor pichador de protesto, imagine alguém entrando em seu quarto quando você não está lá e pichando "Fica, Temer!". 

O muro de quem mora em uma casa é o muro que esse morador tem de ver todos os dias e no qual ele não escreveu nada para o próprio deleite ou para protestar. 

Voltando à questão da segurança pública, outro ponto sensível que toca a sociedade, mas sobretudo o policial, diz respeito à fragilidade e leniência das leis e ao sentimento de impunidade diante de quem utiliza as brechas e falhas da legislação para se proteger da punição de seu delito ou crime. Imagine quão frustrante é arriscar a vida para impedir que alguém faça mal a outra pessoa direta ou indiretamente para depois ver esse indivíduo completamente livre de qualquer reparação ou responsabilidade. Embora eu apresente a ideia de modo abstrato, essa é uma realidade muito comum no universo policial. Resultado: indignação, somada ao ímpeto para o justiçamento - ou seja, uma extrapolação do direito de autoridade. Óbvio que essa prática não é correta, mas o fenômeno é compreensível se experimentarmos minimamente nos colocarmos do lado do policial (Repare, não disse que é certo!).

Agora, vamos ao ponto que creio ser o mais relevante: matar bandidos. 

Matar pessoas é algo a cuja imagem, de modo geral, já nos acostumamos. Os filmes fizeram isso com a gente. O mocinho mata o bandido. O processo de catarse criado no cinema nos faz desejar o homicídio da representação do mal. O mocinho concretiza nosso desejo. Ficamos todos aliviados com o final marcado pela morte do bandido fake.

Contudo, quem mata uma pessoa dificilmente volta a ser psicologicamente o mesmo de antes, ainda que tenha justificativas irrefutáveis e legítimas para ter agido do modo como o fez. Não é difícil que esse policial entre em um estado de conflito de valores, que envolvem moral, senso de dever e até religião. O ideal é incentivá-lo a continuar na profissão com lemas do tipo "bandido bom é bandido morto", "antes ele do que eu e alguém da minha família", ou proporcionar a ele atendimento psicológico periodicamente, reforçando a importância de sua função de proteger a sociedade - algo bastante diferente de justiçar bandidos?

Chegamos, então, ao ponto que desejava. Se a sociedade não consegue reconhecer o policial como um ser humano acima de tudo e delega a ele a função heroica do protetor a quem tudo é permitido, ou, pelo contrário, veste-o com a fantasia de vilão, para o qual cada ação é expressão de abuso, não é possível melhorar verdadeiramente a questão da segurança pública no país. 

O que sinto é que somente o Bolsonaro e poucos do estilo dele olham e falam pela classe policial, enxergam esse profissional e o valorizam - infelizmente com um discurso em que a solução vem por meio de respostas fáceis e simplificadoras. A oposição ao mito, em contrapartida, parece nunca ter algo consistente a oferecer como alternativa às questões de segurança. 

Assim, nossas leis continuam sem ser discutidas com seriedade na mídia, as penas para crimes graves frequentemente são relativizadas, há indultos para bandidos e, onde o Estado não está presente, criminaliza-se o cidadão que procura por recursos próprios - geralmente inadequados - proteger-se.

É bom considerar que uma coisa é não portar armas em lugares em que há policiamento ostensivo e práticas de civilidade, outra coisa é estar em áreas rurais e urbanas desassistidas pelo poder público à mercê de pessoas que se valem dessa deficiência do Estado para protagonizar desde os crimes mais simples até os mais cruéis.

Então é que proponho as seguintes reflexões:

- Defender um país no estilo velho oeste ou considerar a possibilidade do aprimoramento da segurança pública - até por meio da tecnologia - a áreas a que o Estado não chegou de modo eficiente ainda?

- Defender o uso da violência como recurso policial ou o uso racional da força e da autoridade como forma de contenção ao contraventor ou criminoso?

- Defender a pena de morte - que será basicamente recurso aplicado a criminosos ou bodes expiatórios de baixa renda - ou a reforma do código penal, considerando, por exemplo, crime hediondo o "desvio" de dinheiro da saúde para fins particulares de políticos e empresários?
(Será que podemos falar em prisão perpétua e trabalho forçado em vez de cadeias que são verdadeiros escritórios do crime organizado em que há mais números de celulares operando do que em algumas empresas?)

Enfim, o papo vai longe... Mas o que espero é que, mais do que ataques a Bolsonaro, encontremos alternativas a ele, representantes políticos que se posicionem de maneira clara sobre a questão da segurança e da cidadania, pois se eu estivesse em lugar perigoso, como são tantos no Brasil, e se eu fosse um policial ou tivesse um familiar na corporação, entre Bolsonaro e ninguém, em quem poderia votar?
Combater o mito, tudo bem, mas quem colocar no lugar dele?

P.s.: quanto a questões como racismo e homofobia, fica para outro texto.







segunda-feira, 22 de maio de 2017

Bastardo


Bastardo. Reiteradas vezes o avô paterno o chamara assim.

Com cinco anos, ele não sabia o significado do termo, mas a agressividade com que o homem calvo e branco o pronunciava fazia-o adivinhar que não era boa coisa ser bastardo.

O pai, se ouvia, não fazia nada para desdizer o dito. Talvez fora dele mesmo que partira a acusação: o menino seria filho de outro homem que não ele. Assim teria justificado a separação precoce. 

Se esse era o fato, no entanto, por que passara a buscar o garoto aos domingos?

Se a criança era sabidamente bastarda, por que levá-la à casa dos avós que não eram dela?

A ideia era fazê-la refém para vingar-se da suposta traição da ex-mulher?

O velho era rude não só com o garoto, era um demônio a expelir ranço pela boca. Sua esposa, pequenina, era calada, possivelmente cativa do tirano da casa. A criança via no olhar da avó uma dor maior do que sentira ao ser chamada de bastarda. A dor da mais velha acolhia a do mais novo.

O menino amuou-se. 

Ao que se sabe, pai, madrasta e menino não ficaram mais do que meia hora na casa dos velhos. Lá estava também a irmã do pai, talvez indiferente ao que passava - quem se acostuma com violência desde a infância deixa de reconhecê-la em algumas de suas formas mais corriqueiras.

Por fim, no início da noite, o menino foi devolvido à mãe com a palavra que ganhara.

- Mãe, o que é bastardo?

Se a expressão "laços do passado" tem um sentido, pessoas separadas com filhos conhecem-no muito bem. É difícil resignar-se diante de um cativeiro simbólico que, frequentemente, assume a forma de uma criança. Quando o filho ou a filha possui traços físicos ou até o tom de voz do ex, a sensação de ser visitado pelas sombras dos enganos - geralmente da juventude - pode gerar aversão e, por esse motivo, culpa em quem é pai ou mãe.

A mãe exasperou-se. Onde o menino ouvira a palavra?

Já não bastava a ideia insuportável de encontrar o ex-marido - domingo sim domingo não -, de entregar o filho a ele, deixar que o filho se contaminasse com a fala e os modos dele, com os valores dele, com os trejeitos dele, agora tinha de ouvir uma palavra que vinha como acusação que, se não era familiar a ela, levantava suspeita de que a outra família a considerava adúltera?

Como explicar a palavra e o que ela pressupunha? 

No contexto, ela indicaria a traição da mãe, ao menos uma relação sexual fora do casamento, uma vilania materna. A mãe amada não seria mais perfeita aos olhos do menino?

Soube que fora o avô a ofender seu filho. Irritou-se, odiou o velho. Vociferou. E o garoto sentiu que a questão era ainda pior do que parecia. 

O fato de a mãe não ter sido adúltera e, portanto, de o garoto ser um legítimo filho e neto, tornavam tudo pior para a mulher. Contudo, o menino passou a ter dúvidas...

Seu pai era, aos domingos, um homem atencioso, simpático, criativo e bom. Não era pai? Era pai?

A mulher dele, ex-amante, era visivelmente contrariada com a presença da criança, um laço de um passado que não era o dela, mas que se enrolava em seus pés causando tropeços. De qualquer forma, se  o garoto não era bastardo de sangue, estava sendo na criação. Ela parecia odiá-lo até nas pequenas sutilezas. O sacrifício de aturar, com disfarce, era para ela um ofício custoso. Não convencia.

O homem era submisso a ela. E os domingos eram assim: melhores longe dela, quando o pai era pleno. Porém, o pai era sempre triste, quase sempre dela.

O menino passou a desconfiar que o pai não era pai. A ideia se inculcara em sua cabeça. A mãe dizia que sim. Tudo era muito confuso. Quem era aquele homem afinal?

Domingo sim, domingo não. Essa passou a ser a contagem do tempo. Angústia na noite do sábado que precedia a visita. Angústia na noite do domingo após voltar da casa do pai.

Casas tão diferentes, regras tão diferentes, tratamento idem.

A mãe legítima não era de brincar, falava pouco com o menino e muito com muitas outras pessoas ao telefone. O pai era de inventar, falava com o garoto sempre ancorado na imaginação. Era a realidade insuportável demais?

Faltava ar ao menino com frequência. Passaram a dizer que era um menino doente.

Por que mãe e pai eram separados? Essa resposta não havia.

Quando a família do pai ou da madrasta tinham contato com o bastardo, o garoto sentia-se deslocado. Nada precisava ser dito. 

Ele sabia exatamente que não estava em seu lugar.

Era doloroso para ele, certamente também o era para o pai. Mas será que não fora o próprio pai que dissera à família que o garoto era filho de sua ex-mulher com outro?

Na época não havia testes de DNA. Legalmente, o filho era dele. Inclusive, registrara-o com o nome que escolhera, contrariando a vontade da mãe legítima.

Os traços eram quase todos da mãe, e isso ajudava a aumentar a suspeita. (Não ver o pai nos traços do filho sempre é motivo de suspeita, o contrário, naturalmente, não.) 

Os domingos de visita eram meio aversão, meio paixão. Deviam ser ao pai também. 

O que ouvia de sua mulher entre os domingos?

O que o menino ouvia sobre seu pai entre os domingos?

Os lados antagonistas certamente se aliavam inconscientes. 

A quem julgar?

O pai não era homem suficiente, o menino também não o era.

A dança de cinco anos entre os dois seguia uma música, e toda música está fadada a acabar. As sinfonias são mais longas, as cantigas não.

Quando o menino contava dez anos, nasceu uma menina.

Se havia empenho do pai em visitá-lo, a partir de então, perdeu o viço, a cor e talvez o sentido.

O garoto também já tinha padrasto.

Talvez o padrasto, que o visitava pelas palavras do menino, lembrava ao pai que ser pai é algo sério. Foi ele então ser pai de uma menina e, depois, de outra também. Certamente um pai maravilhoso - ele tinha o dom.

Do menino, foi só um pai bastardo, ilegítimo e infiel. 

E se todas as mentiras para sustentar coesa uma família se transformam em um bordado na casa paterna, ei-la: é uma toalha grande e colorida - sempre ela - a enfeitar, aos domingos, a mesa de jantar.











quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lugar de palavrão é em sala de aula!


"Chupa!!" - exclamou alto uma aluna de 15 anos para outra de mesma idade logo no início de minha aula. A palavra, que, apesar das poucas sílabas, possui status de palavrão, rompeu a monotonia corriqueira e criou uma expectativa na sala: afinal, o que eu, o professor, faria diante da situação? Seria o momento de reprimir ou refletir?

Fiz uma sugestão:

"Fulana, o ideal seria que, ao utilizar uma expressão como essa, você a complementasse com algo como: chupa essa manga!"

Ela riu. Sua amiga, a que deveria chupar alguma coisa, perguntou-me sobre o porquê de se colocar um complemento vitaminado como aquele. Ela certamente intuía que a expressão perdia a força e, como percebi pouco depois, mesmo consciente de que a palavra indicava uma relação poder - humilhação, não compreendia exatamente o significado mais profundo do que dissera. Fiquei, por esse motivo, surpreso e desapontado.

A primeira garota falara com tanta autoridade o palavrão, e a outra entendera com tamanha propriedade a desforra da amiga, que foi de espantar a inocência de ambas, que ignoravam a vulgaridade do imperativo que a palavra chupar adquirira no contexto.

Foi então que, de súbito, lembrei-me de quando estava na faculdade e pude ir a uma palestra do renomado professor Dino Preti. Seu tema era ao mesmo tempo interessante e polêmico: palavrões.

Amparado pelo conhecimento do mestre e amante do improviso e do inusitado, não precisei ponderar muito para conduzir a aula por um caminho novo.

Antes de prosseguirmos, porém, como não quero ferir a sensibilidade dos leitores, aviso: daqui para diante, o texto mencionará questões ligadas a comportamento sexual e cultura.

Aos que possam me julgar indecoroso por abordar o tema com adolescentes, desculpem-me, mas nada que eu possa falar a eles poderá ser mais escandalizante do que aquilo que veem e ouvem na TV aberta ou em qualquer rápida busca na internet. Então, entre repreensão e esclarecimento, escolhi a segunda alternativa.

Agarrei a oportunidade pelo rabo:

"Fulana, ainda bem que você disse isso. Faz tempo que eu gostaria de conversar com vocês sobre essa importante questão da nossa cultura."

A menina e a sala toda naturalmente estranharam.

Continuei:

"Quando fulana disse 'chupa', é óbvio que ficou subentendida uma prática sexual..."

Uma delas duvidou de minha afirmação, mas logo outras pessoas da sala confirmaram: "mas claro que é, fulana".

Ela ponderou um pouco e concordou: "É verdade..."

Continuei explicando que, infelizmente, em nossa sociedade, existe uma cultura que associa determinadas práticas sexuais a relações de poder, nas quais quem é favorecido adquire um status de superioridade. O outro, no entanto, que beneficiou sexualmente o primeiro,  fica na condição de humilhado. É desse modo que se criam tabus em relação ao sexo, os quais nos acompanham pela vida toda. A ideia de agredir por meio do ato sexual ou de questões envolvendo a sexualidade também se perpetuam, fazendo que a expressão do erotismo de cada um - que poderia ser saudável - ganhe força de perversão.

Portanto, se repararmos com espírito científico, palavrões expressam frequentemente condenações a certos comportamentos e características individuais ou coletivas e reforçam preconceitos que deveriam ser combatidos. Quando, por exemplo, a palavra gordo, anão, puta, cu (parte de trás), viado, babaca (vulva ou cheiro dela característico) e expressões como filho da puta, chupa rola (pomba) e tantas outras - presentes no cotidiano escolar para quem quiser ouvir - são endereçadas a alguém, transmite-se uma herança cultural lamentável e, nesse sentido, o palavreado chulo - como representação de uma ideologia - seria muito mais condenável do que a agressividade a ele associada. 

(Observem que etimologicamente cu, palavra usada corriqueiramente em Portugal, é menos preocupante que babaca, palavra de origem bantu, tabu 50 anos atrás.)

Se ser gay é uma condição da orientação sexual de alguém; ser gordo, uma condição física; ser anão também; aceitar esses adjetivos como material para ofender um indivíduo equivale ao desejo até inconsciente de estigmatizar pessoas e grupos, de modo que o ofensor e testemunhas coniventes da ofensa deleitem-se com uma pretensa superioridade outorgada por condições sobre as quais não se tem controle. Nesse sentido, comentários homofóbicos e gordofóbicos, por exemplo, em nada diferem das chamadas injúrias raciais, muito comuns também na escola, embora atualmente, por causa de uma lei de 1989, ofensas desse tipo, quando públicas, escandalizem os mesmos alunos que chamam outros de viado (talvez de transviado). Ou seja, vivemos um paradoxo na hora de injuriar: crioulo (negro nascido na América) não pode mais, viado pode. Por quê?

Devem valer os dois? Ambos são condenáveis? Ou simplesmente: ”que se foda"? (Foda: mais uma vez o sexo em um contexto de violência)

De fato, creio que seja algo a se pensar e não vou tomar mais o seu tempo, pois entendo que meu ponto já ficou claro.

Portanto, resumindo tudo: a aula foi mais ou menos nesse tom, e até agora não me senti convencido de ter agido errado. Preciso também confessar que uso alguns palavrões. Quando o faço, assim como tantas pessoas, obviamente não me atenho a uma reflexão sociolinguística a respeito de seu uso, eles simplesmente escapam - mas nunca tendo alguém, uma condição física ou o que o valha como alvo. 
De qualquer forma, como disse Freud, o pai da Psicanálise, "às vezes um charuto é só um charuto", porém ele sabia, em essência, que um charuto representava muito mais do que isso, quanto mais um palavrão.



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Crise dos 40: o uivo de um lobo

Crise dos 40: o uivo de um lobo

Um vento gelando a espinha anuncia uma nova estação. Os sinais vão se formando mais claros: a lua cheia começa a minguar, ainda que imperceptível a olhos menos acostumados a vê-la. É viceral, toda a natureza se converte em um irresistível chamado. O lobo deixa o bando e, dirigindo-se ao alto de um desfiladeiro, entoa um uivo longo e choroso.

O som ecoa por todas as redondezas da mata escura de seu habitat. Prenúncio de tragédia?

Talvez.

Algo está em gestação nesse mamífero tão singular, e a gestação sempre é uma transição intensa que protagoniza milagres ou tragédias.

De qualquer forma, que entendo eu de lobos?

Na verdade, nada. A metáfora é roubada de expressão corriqueira, que encontrou no símbolo do Canis lupus um modo de referir-se a momento tão específico por que passa o homem cuja idade ronda, para mais ou para menos, a faixa dos quarenta. Esse que vos escreve, inclusive, está justamente agora a intercalar uivos e fôlegos à beira de um alto penhasco.

Se você também está se transformando nesse nobre e temido animal, creio que é importante que saiba, estamos transitando por uma fase bastante crítica, que pode fazer feridos e ferir-nos também. Contudo, se conseguirmos fazer um esforço para olhar um pouco além das aparências, é possível que, com certa estratégia e sorte, consigamos dar as costas para o penhasco e voltar ao convívio da matilha em melhor estado do que quando a deixamos.

Antes de prosseguir, já deveria ter me adiantado, este texto, acima de tudo, destina-se a homens uivantes, embora acredite que qualquer pessoa possa se beneficiar de alguma maneira com seu conteúdo.

Vamos lá então!

Pois bem, lobos, estamos cada um de nós em seu próprio território, assim manda nossa lei. Sendo machos lupus, aprendemos a curtir nossas dores sozinhos, essa sempre foi uma lei sagrada para nós, é o peso inexorável de nossa condição na espécie. Foi assim com os lobos que vieram antes de nós, parece ser assim conosco agora, espero que não seja assim com as gerações futuras. Leis da selva podem ser modificadas?

Preciso ir direto ao ponto, homens como nós somos assim: sem rodeios.

Atingimos uma idade em que passamos a colocar a vida em nova perspectiva, conquistamos uma bagagem significativa e, conscientes ou não, procuramos chegar à conclusão de um processo que chamarei de grande síntese. Ela deve consistir em um confronto entre os anseios da juventude e as demandas de que demos conta na fase adulta. Procuramos agora o saldo dessa equação, simples ou complexa, conforme nossa história tão singular.

Acredito que quanto mais essas demandas distanciaram-se dos anseios originais, mesmo dos menosprezados ou inconfessáveis, maior e mais intenso tende a ser o uivo dado no desfiladeiro, ou seja, a crise que nos atinge em cheio na derradeira hora de pesar a vida na balança de nossa própria verdade. Os pesos que usaremos nela são oscilantes em massa e dizem respeito a valores, crenças que norteiam o sentido que damos à nossa vida, crenças sobre nós mesmos que superamos ou estamos em via de superar, bem como o peso que atribuímos a determinadas situações pelas quais passamos e não estaríamos mais dispostos a passar.

Começa então o processo de pesagem, são os primeiros sinais de crise. 

Nossas energias praticamente mobilizam-se em função desse evento solene. Desejos e vontades reprimidas virão à tona, às vezes de modo a deixar-nos desconcertados e abismados com sua força inebriante ou avassaladora. Nosso conflito interior eclodirá, inesperada e inconvenientemente, para fora de nós, e pode originar outros conflitos, de modo a envolver esposa, filhos, familiares e colegas de trabalho.

Poderemos finalmente fazer a tatuagem - que adiamos ou que não podíamos fazer - ou comprar a moto ou carro que deixamos de ter para podermos mobiliar a casa de 15 anos atrás.

Se nos sentirmos mais seguros e atraentes com investidas de mulheres mais jovens, a tentação poderá nos deixar febris, e avaliaremos com muita dificuldade que limites devemos respeitar e quais deles não há mal em ultrapassar.

Se tivermos religião, talvez a ela dirijamos certa fúria. Questionaremos as regras invisíveis e sua realidade transcendente. Somos lobos que se perguntarão se o papel de ovelhas ainda serviria para nós.

O casamento passará pelo crivo lupino, alguns de nossos amigos de bando irão se separar - talvez nós mesmos - desejosos de curtir uma vida de solteiro. Quem sabe a ideia de maior liberdade torne-se irresistível, aquela liberdade da qual abdicamos por pressão social ou pela falsa crença - comum na juventude - de que realizar-se na vida era casar-se. Alguns de nós vestiram o terno do casamento como uma farda de soldado e, de repente, no meio da guerra, passaram a questionar-se sobre o sentido dela. É claro que as boas ou más experiências contarão, cada experiência de vida é única. Contudo, os desejos de experiências não vividas que, ao invés de superados, foram suprimidos, cobrarão um alto preço.

O lobo que chegou solteiro a essa idade talvez arrume um casamento relâmpago. As promessas da vida de solteiro talvez tenham se cumprido em parte, porém a ideia de envelhecer sem uma companhia para a qual a amizade seja mais importante do que o sexo pode começar a se tornar um martírio. 

Os filhos, ah, os filhos?

Deveria ter tido filhos? Agora os quero.

Tive filhos sem os querer? Já estão crescidos ou quase lá. Não tenho mais obrigação com eles.

Tenho filhos adolescentes com uma vida melhor do que eu tive? Talvez, sem perceber, eu comece a competir com eles.

Quem pode julgar desejos, experiências e tudo que foge à racionalidade e planejamentos? 

Nos metemos em empregos e profissões aos quais tivemos de sacrificar nossos velhos valores e ideais? Pedir demissão ou mudar de profissão pode ser uma saída, quase uma fuga de algo que, inadvertidamente, sentimo-nos agora incapazes de suportar.

É talvez penoso, mas sábio admitir: Lobos, chegamos a uma fase em que já não podemos negar que muitos de nossos planos não deram certo, algumas experiências demonstraram que certas atitudes do passado estavam equivocadas e sentimos, exatamente agora, uma força acachapante que nos oprime com uma terrível dúvida: que estilo de vida assumir daqui para frente?

Para piorar, dificilmente nesta idade, nossas decisões não afetarão profundamente outras pessoas. 

E se a mulher com quem estivermos também for uma loba a uivar em outro desfiladeiro? 

Momentos de tristeza e introspecção serão inevitáveis...

É, senhores, a crise, seja ela uma brisa ou ventania, de fato, tornou-se incomodamente presente e até dolorosa. A mim, buscar compreendê-la, para enfrentá-la, parece a melhor alternativa.

Penso, portanto, que posso compartilhar um método que tenho aplicado durante meus uivos. Aos lobos interessados, deixo um roteiro. Espero que possa lhes servir como tem servido a mim.

Diante do desfiladeiro, instado pela lua a uivar, parece-me importante:

- Reconhecer sem defesas o momento de crise;

- Ponderar sobre as consequências das ações que, por impulso, desejemos tomar;

- Reconhecer os sentimentos e a importância das pessoas que podem sofrer as consequências de nossas decisões;

- Deixar o uivo um instante para informar aqueles que fazem parte de nossa intimidade que vivemos um momento delicado em que, simplesmente, precisamos uivar e estamos enfrentando uma crise - essa parte costuma ser muito difícil para nós, lobos, principalmente os que se acreditaram superiores a qualquer tipo de demanda emocional desarrazoada.

- Conversar sobre a nossa crise ajuda a aliviá-la; terapia pode ser um ótimo recurso, mas muitos de nós, lobos autossuficientes, não acreditamos nisso. Então, tudo bem, procurar amigos de confiança e conversar sobre as próprias emoções e conflitos consiste em um ato de coragem que pode ter um efeito alentador;

- Confiar que essa é mais uma fase, passamos por outras crises antes. Dependendo de nossas escolhas, sairemos desse desfiladeiro mais fortes e autoconfiantes.

Creio oportuno lembrar que alguns filósofos do passado afirmavam que a maior sabedoria da vida consiste em se preparar durante toda a existência para o derradeiro momento da morte. Toda crise é uma espécie de morte, essa é só mais uma. Cabe a nós a escolha de como morrer para, enfim, renascermos mais fortes, sábios e sensíveis. Sinceramente, espero que tenhamos essa capacidade.

Um longo uivo na noite aos irmãos de matilha!






quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Fábula sobre o ensino público de baixa qualidade




Na fazenda de Trás-dos-Montes, galos eram bons padeiros. Esse era indiscutivelmente seu melhor e mais apreciado dom. Madrugadores, o ofício chamava-os naturalmente para meter-se diante do forno e preparar alimentos para toda granja e chiqueiro. Contudo, se tinham a destreza da alquimia necessária à produção de pães, o mesmo não se podia dizer da sorte ou aptidão para empreender sua própria padaria. Assim, ainda que houvesse demanda diária e desejosa dos pães que poderiam oferecer, não possuindo padaria, os galos viam-se de mãos atadas.

Por outro lado, no chiqueiro havia um porco, mestre na arte demagógica e, apesar dos métodos questionáveis, zeloso administrador. Se estava na natureza dos galos fazer pães, na do porco em questão estava tocar um negócio e explorar galos. Desse modo, o destino - que os colocara na mesma fazenda - inspirou neles a ideia de partilhar o mesmo ramo de atividade. Em verdade, o porco nada tinha com o negócio de padarias, mas, reconhecendo a demanda, viu na atividade uma forma de se fazer famoso e respeitado. Ademais, com tantas pessoas envolvidas entre padeiros e clientes, certamente poderia tirar outras vantagens da rede de padarias que estava disposto a administrar. 

O porco convenceu o fazendeiro que ter padarias seria um bom negócio. Desse modo, surgiu o empreendimento a partir das articulações do astuto porco. Tudo iniciado, foi o porco ter com os galos.

Os padeiros, desejosos de viver de seu ofício natural, aceitaram trabalhar para a fazenda por intermédio do porco. Este ofereceu-lhes salário, condições de trabalho e clientela vasta. Os galos ficaram felizes. Assim, as aves madrugadoras começaram a fazer belos e saborosos pães. Todo o chiqueiro e granja ficaram jubilosos com a novidade e possibilidade de comerem alimento tão essencial à manutenção da vida.

Contudo, com o passar do tempo, os galos sentiram que seu pagamento não era justo, tampouco suas condições de trabalho na padaria. De qualquer modo, as leis de mercado da granja, do chiqueiro e da fazenda eram claras: era possível reclamar com o patrão porco, fazer greve ou demitir-se. Apesar disso, os galos enveredaram por caminho menos eficiente e mais tortuoso. Não reclamavam com o administrador das padarias, mas entre si. Eles, em grande quantidade, desgostosos, não buscaram fazer pacto com a clientela para pressionar o porco explorador, também não fizeram greve. Os galos - senhoras e senhores! - começaram a contentar-se em maldizer a vida, o porco, a padaria e os clientes.

Nesse estado de coisas, obviamente nada melhorou para eles. A insatisfação, no entanto, atingiu índices recordes nas pesquisas.

Não pediram demissão.

Assim, nem salário, nem condições de trabalho melhoraram.

Outro fenômeno, no entanto, aconteceu.

Como o desânimo tornou-se geral, os galos começaram a comprometer a qualidade dos pães. Pães que eram bem assados e consistentes passaram a ser entregues crus.

Ninguém aguenta pão cru.

A granja e o chiqueiro ficaram desgostosos e quiseram uma solução.

A população procurou os padeiros. Os padeiros culparam o porco. O porco, astuto, marcou uma audiência com a população e mostrou os fornos e padarias. Mostrou também que não deixava de pagar o salário dos galos - maior que o da média da clientela.

Todos viram:

- o forno era ruim, mas funcionava.
- as instalações eram precárias, mas úteis, assim como os ingredientes dos pães.
- o salário era baixo, mas o galo não morreria de fome nem corria o risco de ser demitido.
- a única coisa que cabia ao padeiro era fazer pães.

Uma lúcida galinha, então, deduziu e ponderou:

- Bom, minha gente, se o galo está insatisfeito, em parte é culpa do porco, mas, se o pão está cru, a culpa é somente do padeiro!

O porco riu-se; ela tinha razão.

Os galos não gostaram do comentário, mas, ainda assim, a galinha tinha razão.

Calaram a galinha com vaias. Chamaram-na de burguesa. Disseram que estava mancomunada com o porco para dizer uma barbaridade daquelas.

Houve discussão, falatório, acusações.

A reação foi tamanha, que a galinha chorou uma noite inteira e passou a pensar que talvez não estivesse certa; o mundo talvez se dividisse mesmo em porcos do Mal e padeiros do Bem.

O porco continuou a rir-se.

Os galos continuaram a servir pães crus.

A população?

A população acostumou-se a comer só as bordinhas ínfimas dos pães, única parte a esquentar um pouco no forno de modo a tornar suportável o alimento.

MORAL 1: Porcos não temem galos.

MORAL 2: Se há salário, forno, ingredientes, padaria e clientela, o pão cru é culpa do padeiro.

MORAL 3: A população não se compadece de padeiros, devido à MORAL 2.

MORAL 4: A população se acostuma com pães crus.

COMENTÁRIO: Porcos temeriam a população e os padeiros, mas, como existe a MORAL 1, 2, 3 e 4, porcos acham graça em tudo isso.