sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensaio sobre um Pai morto

          Na boca da campa ou Ensaio sobre um Pai morto

  
            Essa história é breve e um tanto interessante.
         João Nascimento, um homem de fibra e fé, nunca logrou êxito em infundir no filho sua mesma inclinação em acreditar na metafísica da alma, na vida espiritual e na continuidade da individualidade do ser após a morte. Para todas as outras coisas, o jovem Murilo tinha ouvidos, mas não para as “superstições” que a ciência haveria, um dia, de aniquilar.
           O pai, contudo, não condenava o filho pelas ideias materialistas já de longo esposadas desde os tempos da escola. Respeitava-lhe sempre, embora lhe doesse a ideia de que Murilo, quando chegasse o fatídico dia da própria morte, talvez não estivesse preparado para fazer o passamento com dignidade e sem largo constrangimento. Ou seja, João Nascimento preocupava-se com a ausência de orientação espiritual do rapaz.
           Vendo chegar a idade avançada, saltou-lhe à mente uma excêntrica ideia. Decidiu escrever o discurso a ser lido diante de seu próprio caixão em ocasião do enterro. Determinou que Murilo, seu único filho, faria a leitura diante de amigos e parentes. O texto de despedida seria um tratado didático sobre a morte e a vida espiritual.
            O rapaz, embora não fosse afeito também a solenidades, certamente em vista da grave ocasião não se furtaria a atender aos últimos desejos do pai. Se seria uma contrariedade ler o discurso, não passaria de uns poucos minutos.
            O fato é que a morte de João, ainda que morosa, um dia chegou. Na ocasião, contava ele com 83 anos, enquanto Murilo, não mais um rapaz, alcançara uns 50.
            Velou-se o corpo.
            Pouco mais tarde, diante da campa, chegara o momento em que Murilo leria as palavras do próprio pai para o próprio pai.
Sua voz iniciou embargada, as mãos um pouco trêmulas seguravam o papel cujo conteúdo manuscrito revelava o desvelo com o qual escrevera o autor.
Murilo iniciou uma leitura pausada e cadente, sem dar-se conta de que seu pai, ainda que morto, fazia-o tomar parte em um ritual de fala direta com um ente morto.
            Analisemos:

            Entras agora tu pelo que nós daqui chamamos 'sombra da morte', porque nos é vedado conhecer teu destino. É esta sombra o nada? Não o sabemos. Assim defini-la categoricamente não nos convém, pois, pelo caminho misterioso para o qual a tumba é a porta, os nossos cinco sentidos grosseiros não nos permitem nada avaliar, a morte definitivamente não lhes diz respeito. Suponhamos, no entanto, que a metáfora 'sombra' corresponda a algo menos promissor que a escuridão, ou seja, de fato, o 'nada'; o que isso significaria para nossa jornada existencial e individual? Filósofos do passado disseram: Sendo o nada o futuro no qual acaba o tudo, que é a vida, a morte torna-se a ausência de todas as dores físicas como também das angústias, dos pesares, dos arrependimentos, das mediocridades ou genialidades do finado. Melhor fim não haveria para o injusto – a partir de seu próprio ponto de vista, é claro. Mais intenso descanso não haveria para o oprimido. Maior decepção não haveria para o curioso, como tu mesmo o foste. Se assim o é, não me ouves agora. Contudo, falo. Isso porque o nada não é uma certeza, mas somente uma possibilidade. Sendo assim, pode ser que, sem o sentido físico da audição, ainda me ouças. Suponho que me ouças...
            Falo, portanto, por acreditar que ou podes estar lúcido, ou porque as palavras em alto som a ti dirigidas podem acordar-te o espírito preso às perturbações do transe da morte. Acordas no mundo do espírito ao qual todos pertencem e ao qual voltam todas as noites, durante o sono emancipador. O véu de Isis agora descerra-se para ti e convida-te para nova jornada. E, por estas palavras, tu mesmo te diriges a ti, tua palavra que ficou escrita neste mundo visita-te no mundo que tu neste momento divisas. Elas te perguntam: “Existe Deus? Ele é bom? Há razão na vida? Há algo que valha nos sofrimentos? Há o Juízo, a roda das encarnações? ou tudo na existência é degredo, separação, tristeza e morte?”
            Fizeste da vida o que podias, deste a tua esposa tua fidelidade, lealdade e a chave de teu íntimo universo – melhor não poderias ter feito. Recebeste dela valor igual, em melhor moeda, porque sentir-se amado por quem se ama é tesouro raro no mundo em que habitaste – melhor não poderias ter recebido. Ela atravessou essa porta antes de ti. Estão juntos agora? Ela te busca? Ouve ela também estas palavras? Tu gostarias de acreditar no sim para as três recentes perguntas. E agora tu sabes...
            Teu filho único certamente tem queixas contra ti; qual filho compreende completamente o próprio pai? Foste bom para ele. Foste provedor, disciplinador. Deste-lhe também o amor e o afeto de pai. Consentiste que ele fosse o autor da própria via, sem negar-lhe o amparo necessário. A modéstia não te impedes, contudo, de confessar-te como bom pai. Entretanto, não conseguiste soprar-lhe pelas narinas a grande crença que te animou desde os primevos tempos da juventude; ele, qual Tomé, pediu provas. Tu não foste capaz de dá-las. Fizeste de ti mesmo, desse modo, o pai excêntrico, crédulo, paradoxalmente culto nas letras e infantil na crença. Isto aos olhos de teu filho. Mas tu o amaste e o amas de todo o teu coração. Não deixaste que o tempo de dizer-lhe se perdesse. Dá-te agora por feliz em tê-lo feito. Se tudo é como crês, nesta hora tu o comtemplas, olha-o a segurar teu testamento de fé, escrito outrora na solidão de teu quarto, e daí acenas-lhe e sorri, com o maior amor do mundo, afirmando, no inaudível invisível: “Estou certo, filho.  A morte não existe!”
            Ouve-lhe a voz a repetir as palavras que escreveste para esta ocasião. Logo ele, tão avesso a solenidades e à segunda pessoa do discurso.
            Sobre tua lápide será escrito: “Creio na felicidade, no Amor. Vivo. A cova é pequena demais para meus sonhos...”
           O epitáfio acompanhará as duas datas que marcam tua jornada terrena. Dois pontos perdidos no espaço infinito do tempo. De que te importa, tu não habitarás esse lúgubre cômodo!
           O melhor de tuas obras foi o que construíste no coração dos teus.
        Deus foi bom contigo, permitiu que escreveste estas linhas com tudo o que tanto acreditas. Descansa agora. Os teus do passado estão contigo. Descansa... Adeus!
            Tu olhas teu filho e sabes que tens dele tanto amor. Descansa...

            Não há dúvida de que Murilo ficou profundamente tocado. Comoveu-se, verteu lágrimas ao longo e ao fim da leitura. Desejou de todo o coração que tudo que ali estava fosse verdade, mas não se acreditava capaz de crer, não havia sido talhado para aquilo. Por fim, quando todos se foram e só  restou ele diante do recém-fechado túmulo, sentiu ouvir no silêncio do cemitério o mais eloquente discurso que a natureza sempre faz sobre a morte. Portanto, ele não ouviu absolutamente nada – porque o silêncio é nada para quem busca respostas precisas.
Foi assim que sentiu a dor da mais profunda ausência, da mais terrível saudade. Prostrado, sem força que o consolasse, viu-se em desamparo: Como seu pai poderia com tamanho otimismo atravessar umbral tão misterioso?

Pobre Murilo, que não se agarrava a superstições... 




Os três espíritos do Natal versão rock and roll


"Life is not rock and roll" - essa é uma ideia síntese de um daqueles poemas muito loucos do Paulo Leminski. O pensamento se complementa quando ele afirma que apesar de a vida ser o que é, ele gosta dela. Penso que, certamente, é porque, entre tantas coisas, a vida pode oferecer também o rock and roll.

Nesta última semana, foi isso que a vida me fez. Ela me ofereceu três harmonias distintas - no sentido musical da palavra -  cheias de improvisação e melancolia, parece que nascidas de uma mesma fonte, apesar de terem autores diferentes. Foram três solos de guitarra daqueles arrebatadores, dignos de uma Woodstock.

A primeira foi assim. Bem aquela situação de finalzinho de ano. Senhorita B., aluna de uns 16 anos, me apareceu com um livro do Leminski. Ela me disse que se trata de um autor curitibano de quem ela gosta muito. Uma fita azul prendia a capa com um lacinho, o que conferia ao objeto um ar solene de presente. Entre a capa e a folha de rosto, uma dedicatória. E a dedicatória valia mais que todos os presentes que ela pudesse me dar. Ela falou sobre algumas aulas de quase dois anos antes em que estudamos textos poéticos e afins. Escreveu sobre como isso fora importante para ela. Escreveu sobre a importância da palavra. Ora, isso não se faz com um professor que vive de palavras; isso é botar um professor comovido até as tampas. E foi isso que ela fez.

Abri o livro aleatoriamente, lá estava o poema "it´s only life / but i like it". Esse foi o primeiro solo de rock tirando a monotonia da vida e dos automatismos de final de ano.

A segunda teve algo de semelhante. Um aluno de uns 18 anos, Sr. A., me apareceu com uma maleta de utensílios de churrasco, coisa belíssima de se ver. Sem dúvida um belo presente. Junto, uma carta. Nela ele me agradeceu por ter fé nele. Esqueça a maleta. Uma carta de um aluno de 18 com esse conteúdo? Isso bota uma pessoa comovida como os diabos; isso faz a gente ter vergonha de reclamar da profissão; isso dá uma esperança para seguir por um caminho bem árduo que é lidar com gente...

Ele saiu da sala, eu li a carta, e as lágrimas vieram. Não sei se é a idade, se é a terapia, se são os sinos de natal - ou a combinação disso tudo -, mas agora mesmo elas voltaram só de lembrar.

Por fim, a última foi praticamente uma opera-rock, triste, arrebatadora e que eu sei exatamente como é. A protagonista foi a Senhorita H., ela tem uns 17. Disse que gostaria de manter contato comigo, pois eu a ouvia mais que seu pai. Abre aspas: podem ter certeza, se eu conversei mais do que uma hora com ela durante o ano foi muito - fecha aspas. 

Isso calou fundo na alma. Como não se comover? 

O pior de tudo - ou melhor -, não sei ao certo, é que relatar esses fatos me fez lembrar de episódios de meu passado nos quais quem estava do outro lado era eu. E isso é bem rock and roll mesmo, porque os temas de rock variam pouquíssimo, mas é possível, por exemplo, se empolgar com cinco a dez músicas que falam de amor, como se cada uma fosse profundamente original.

Pois é... 

Então aí vão dois relatos breves do passado:

Quando eu estava na 5ª série, atual 6º ano, e era um daqueles caras invisíveis, um professor de redação corrigiu e comentou publicamente um dos meus textos. Aquilo foi tão importante para mim que, no final daquele ano, eu levei um presente para ele, um livro de poemas. O Sr. A. não fazia ideia de como aquilo me fez acreditar que eu podia ser bom em alguma coisa.

Anos depois, após eu largar o segundo curso de faculdade e ter praticamente desistido de estudar, encontrei um antigo professor de matemática - que parecia gostar mais de música e de teatro. Ele fez elogios a mim e disse que eu poderia fazer faculdade de Letras, porque meus textos eram bons e eu precisava escrever. O Sr. F. demonstrou ter fé em mim, e a opinião dele tinha um peso imenso para aquele cara de uns 19 - 20 anos que eu era. Certamente conversei com ele muito mais do que o fiz com meu próprio pai.

A vida tem uns refrões loucos mesmo. Em época de natal, em meio a tantas melodias clichê, ela vem com o mais puro rock and roll e abala cada fibra da alma, sem dó!
It´s only life, but I like it.




sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre Psicólogos e Escafandristas


A vida tem que ser suave naquilo dela que só depende de nós. Isso porque, acredito, ela desde o início é marcada por perturbações, que vão da gestação até seus derradeiros momentos. São situações que surgem à nossa revelia, de modo doloroso até, que vão deixando marcas e, frequentemente, cicatrizes. Esses contratempos inevitáveis acabam por refletir em nosso modo de ser, pensar e reagir diante das demandas do mundo, e raras vezes percebemos o quão profundamente afetam nossas decisões.

Recentemente descobri que é importante olhar mais detidamente as marcas e cicatrizes que me foram moldando, sobretudo na infância e em meus primeiros 20 anos de vida. Esse processo é como mergulhar com um escafandro em si mesmo, indo às regiões mais profundas da alma. Creio que seja uma expedição possível de se fazer sozinho, contudo não muito recomendável. A minha, eu mesmo não conseguiria.

É nesse momento que entra em cena uma pessoa especial, que lá de cima do barco está apta tanto a manter em segurança a embarcação quanto a controlar o oxigênio. É alguém mais afeito a expedições, embora não possa fazer por ninguém a viagem que só cabe a cada um fazer. Conhece especialmente aquilo que as profundezas humanas podem ter em comum e, por esse motivo,  pelo rádio vai nos auxiliando a reconhecer as ocultas paisagens marinhas. "O que você está vendo? Como é isso? O que você está sentindo?"

Quando se trata de um bom profissional, um verdadeiro orientador de escafandristas, por mais que entenda sobre o fundo do mar, o indivíduo do leme do barco não antecipa as descobertas ao explorador, pois sabe que a descoberta, a epifania, é o que confere o verdadeiro significado à expedição. Ele possui plena ciência de que a viagem a si mesmo só permite um protagonista.

O orientador também respeita os limites do mergulhador. Sabe que as paisagens marinhas não raramente são inóspitas, embaraçosas, turvas e confusas, e que só o exercício do escafandrista nas contínuas expedições é que pode prepará-lo para as verdadeiras revelações do fundo do mar.

Às vezes, até com certa frequência, após um mergulho voltamos sem fôlego, esgotados, mortificados com a visão de algo inusitado, que nos inspira medo ou insegurança. Ora, o fundo dos oceanos esconde abismos onde reina a escuridão, onde há predadores camuflados e onde o pequeno alcance da visão nos obriga a nos aproximarmos a todo instante do desconhecido, ainda que este nos pareça incrivelmente familiar.

Há alguns meses tenho feito semanalmente certas expedições, das quais dificilmente não volto estupefato. Frequentemente volto sem ar, meio aturdido. Por causa das profundezas que lentamente tenho alcançado, geralmente preciso de um tempo para fazer a descompressão. Devo, no entanto, ressaltar que o mal-estar em nada tem a ver com a imperícia de meu orientador. Inclusive, ele me alertou que esses sintomas são parte do processo. Seria masoquismo então?

Aparentemente sim, não fosse o fato de que quando volto a terra firme e para os afazeres até banais e demandas da vida na superfície, posso contar com ganhos como melhor capacidade pulmonar, habilidade para distinguir perigos reais de imaginários e entendimento sobre os limites que, por prudência, devem ser respeitados. Além disso, contemplar a beleza do oceano nos sensibiliza para encantarmo-nos também com o que se mostra de mais simples no universo das faces superiores, ou seja, da superfície.

Outro ganho diz respeito à relação com os habitantes das ilhas e do continente. Em alguns casos, ao interagirmos com eles, conseguimos, ainda que de modo muito breve, perceber aquilo de mais simples, porém de extrema relevância, que lhes caberia explorar em uma viagem com escafandro. Esse fato nos torna mais empáticos, mais solidários até, e conseguimos nos perceber como uma grande família humana.

Assim, quando nos tornamos escafandristas, vamos sentindo, aos poucos, que a vida pode ser vivida de modo mais suave, vamos pegando gosto por caminhar pela orla e sentir a areia tocando a planta dos pés. Deixamos sem medo a brisa tocar nosso corpo, o sol iluminar e aquecer nosso rosto, e passamos a ouvir com mais clareza a cadente melodia do mar.

Contudo, um alerta precisa ser feito: quando se decide fazer o mergulho, nem todo orientador escafandrista está apto a conduzir a embarcação e regular o oxigênio, tampouco a orientar pelo rádio. Às vezes é preciso procurar, até mesmo experimentar alguns mergulhos até acharmos a pessoa certa. Mas quando esse momento chega, pode ter certeza, vale a pena.

Se posso dizer algo sobre a minha experiência, talvez entre as viagens próprias à vida, essa, apesar de voluntária, é sem dúvida a maior aventura de todas e a mais necessária. Molhar-se nas águas do oceano interior é como deixar-se batizar pelo que há de mais sagrado na existência humana, é contemplar-se aos poucos, desfazendo as ilusões sobre si, sobre os outros e sobre a vida; mas, é também, por outro lado, tornar-se apto para encantar-se consigo mesmo, com os outros e com a vida.

No entanto, não quero iludir ninguém, para cada mergulho que se quer verdadeiro, é preciso coragem. Sem ela não procuramos o orientador de escafandristas, não subimos ao barco, não nos afastamos da segurança das margens nem tampouco nos lançamos no grande mergulho que tocará sensivelmente a nossa realidade, de um modo para o qual certamente não haverá volta.



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Crônica sobre crônica

Crônica sobre crônica


         A escrita possui várias funções ou talvez apenas uma, variando conforme o autor. Sua finalidade única é registrar; já o que muda é a finalidade do registro. Este pode ser tanto burocrático quanto de outras naturezas, passando pelos livros de receita, pelos romances, pelos bilhetes, até chegar às graves obras de filosofia.
         Trabalho com textos. Ensino pessoas a enredar frases, a tramá-las, enfim, a fazer redação. Gosto do que faço. Costumo dizer que pago minhas contas com palavras. Por isso, aprendi a respeitá-las. O que construo e destruo com elas não há matéria capaz de fazer nem fenômeno da natureza que possa derrubar.
         Graças a esse ofício, recentemente uma aluna me procurou para me pedir um favor. Ela queria saber a diferença entre um relato e uma crônica. Tentei explicar-lhe usando a teoria. Em teoria somos capazes de entender tantas coisas...
      Porém, a grande questão para Livia é que ela está prestes a fazer um vestibular de medicina, e a teoria não vai ajudá-la. Então resolvi sair da abstração e dar a ela algo mais concreto para observar. Assim foi surgindo esta crônica.
      Mas gostaria que Livia soubesse, sem se preocupar, que existem vários tipos de crônica.
       De modo geral, nelas está presente o intimismo, o prosaico, o cotidiano, um certo lirismo e uma ou outra digressão. 
      Gosto de pensar que a crônica é uma espécie de retrato despretensioso de algum momento fugidio, ao qual decidimos olhar com um pouco de poesia. Já o relato, ah... o relato é uma outra história...

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Sobre o Escola sem Partido

Posso falar?

            Não deve ser segredo ao caro leitor que existe proselitismo partidário, ideológico e religioso em algumas escolas, muitas vezes protagonizado por professores que exacerbam seu papel de ensinar ao apresentar de modo apaixonado seus pontos de vista. Contudo, recentemente, causou-me certa surpresa a divulgação do projeto de lei Escola sem Partido que, a pretexto de combater essa prática em nome da neutralidade, parece piorar a situação. Caso aprovado, a Educação estará na berlinda, uma vez que dará aos pais o poder de arbitrar sobre o conteúdo ministrado a seus filhos, bem como a possibilidade de denunciar à Secretaria da Educação professores que contrariem a suposta imparcialidade esperada no processo de ensino.
            Desse modo, ao se criar um canal direto com o poder público, ignora-se a habilidade de mediação de coordenadores e diretores, e instaura-se uma espécie de patrulha ideológica nas escolas, pautada pela livre interpretação de alunos e pais que, a despeito de certa ignorância acerca de assuntos acadêmicos, promoverão um estado de tensão entre os professores. Assim, muitos educadores serão tolhidos tanto em seu direito de se expressar como até de lecionar temas como evolucionismo, reprodução, educação sexual, socialismo, anarquismo, neoliberalismo, questões de gênero, cultura afro-brasileira – só para citar alguns exemplos. Certamente, como alegam alguns, o proselitismo partidário será inibido - mas a que custo?
      Em contrapartida, é importante lembrar que não existe imparcialidade ideológica em nenhuma escola ou instituição do Brasil. Aliás, a ideologia de Estado que se impõe a todas as outras está expressa na Constituição. Nela se lê, desde 1988, o valor ideológico máximo e moral que deve reger as relações em nosso país: “Todos nascemos livres e iguais em dignidade e direitos”. Dessa máxima desdobram-se todas as outras, como as liberdades de consciência, crença, pensamento, opinião, expressão e tantas mais. Sendo assim, em vez de instaurar o espírito de delação, medo e contenda entre pais, mestres e alunos, por que não aprovar logo o projeto de lei engavetado atualmente no Congresso que institui o estudo da Constituição no ensino médio? Tenho certeza de que seria muito mais útil tanto aos alunos como à própria democracia.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Aika e Gigi

Aika – A canção do amor de uma ilustre desconhecida

A história a seguir deveria ser diferente, contudo os fatos impuseram a realidade com tal força que negá-la aqui, embora seja um tanto dolorosa, seria mais do que simplesmente faltar com a verdade, seria ferir ainda mais um amigo.
Aqueles que já tiveram bichinhos estimados sabem e até preveem a dor da perda de seus amados amigos e “filhos”. Isso porque cães e gatos vivem poucos anos se comparados aos homens. Gigi, por exemplo, segundo nossas últimas contas, apesar de seu eterno flerte com a infância, tendo quase seis anos, conta biologicamente com aproximadamente 27. É sensato, portanto, pensar que um dia sofreremos com sua “grande ausência”, pois esse talvez seja um dos aspectos mais cruéis da morte. Por esse motivo, nunca revelamos a ela a lógica canina de progressão do tempo, deixando que o instinto sábio que a natureza inspira em seus seres um dia lhe apresente placidamente suas intenções para com nossa filha. Que sua velhice – precoce, se comparada a nossa – vá lhe roubando pouco a pouco o viço e as vontades, ao mesmo tempo que infundi-lhe a sabedoria e dignidade próprios da experiência - que conta, por meio do silêncio, os segredos da vida, intuindo sobre os planos do destino e a razão de ser da dor. Mas, para que seja assim, nenhuma doença ou incidente poderia apressar esse processo da vida que a faz desaguar no seu contrário. 
Meses atrás, o pai da Ciça – que é pai também de Diva, cadelinha linda e lépida – sofria com um desses azares, pois sua pobre “filha”, vitimada por um vil carrapato, sofria envenenada por uma doença que lhe exigira as úlimas forças sanguíneas, bem como a de outros cães - devido às transfusões pelas quais passou. O abatimento do amigo e sua prostração diante da situação marcavam-lhe a postura e o olhar acentuadamente, preparando-o para o fim, ao seu ver, inevitável: o corpo inerte de Diva, que não mais lhe receberia aos latidos, nem o lamberia na face, tampouco disputaria entre ele e a esposa o espaço da cama na hora de dormir de cada dia.
Em casa, Gigi, minha esposa e eu acompanhávamos os tristes capítulos de seu drama, porém sem perder a fé numa possível reação positiva do organismo de Diva. Cada um, a seu modo, orava pelo reestabelecimento da pobrezinha, até que, unidas as duas famílias, num fim de tarde, oramos fervorosamente em seu favor. Diva, coitadinha, estava internada, portanto longe de nosso olhar e do carinho de seus “pais”, que pareciam buscar já na resignação diante do pior o seu consolo. Mas qual foi o resultado de toda essa mobilização?
Não houve milagres, mas uma feliz ideia. A “mãe” de Diva teve uma benéfica inspiração, a qual os levou, num último fôlego de esperança, a trocar Diva de veterinário. Hoje, a cadelinha é exatamente a mesma e fazemos votos que assim continue ainda por longos anos. Ou seja, final mais que feliz.
Contudo, diante dessa nossa narrativa, que em verdade mal começou, precisamos fazer algumas observações. Alguns que tiveram paciência de nos ler até este ponto podem olhar com desdém nossa reação diante da doença de um “simples cão”, bem como considerar uma extravagância as ações e fervor de intenções em favor da cadelinha Diva, acusando-nos de “sentimentalóides” e de haver deturpado o nobre significado do amor. Porém, em nossa defesa, fazemos duas colocações. A primeira é que devotar amor aos animais não significa devotar menos amor aos seres humanos, às crianças, aos pobres e desvalidos; a segunda é, antes de julgar, procure escolher um animal que o inspire, por sua aparência, comportamento, olhar – não importa -, adote-o. De então, dê-lhe um nome, acompanhe-o de perto, alimente-o, cumprimente-o todos os dias, faça-lhe afagos, brinque com ele e perceba que ele não guarda mágoas, não faz acusações e retribui todo afeto que recebe. Compartilhe sua existência com ele durante alguns anos e, por fim, volte a reler estas linhas, pois certamente haverá de fazer pelo menos algumas concessões a algumas das ideias aqui contidas e poderá não só entender o teor do que foi escrito, mas se comover com o que vem a seguir.
Pois bem, chegamos então ao ponto em que a história deveria ser outra...
Aqui entram mais dois personagens: Aika e seu “pai”. 
O pai da cadelinha Aika trabalhava comigo e com o pai de Diva. Durante alguns dias, tornara-se visível seu abatimento, o que viemos a saber era motivado pelo adoecimento da pequenina. Talvez quem no serviço ouvisse sobre a causa do sofrimento dele, de imediato o entendesse exagerado, não sei... Contudo, as afinidades de gostos, interesses e experiências, reúnem naturalmente sujeitos e coadjuvantes de uma mesma história. Tanto eu quanto o pai de Diva começamos a acompanhar o caso. Aika contraíra perigosa doença, mas não necessariamente fatal – algo até certo ponto confortador. Nós, espectadores, portanto menos nos comovíamos, esperaçosos por ouvir, nas semanas seguintes, boas e auspiciosas novas.
De minha parte, trazia para Gigi a notícia de que mais um amigo de seu pai tinha também uma “filha”, assim como ela, chamada também por ele de “filha” – algo que muito a encheu de júbilo e interesse por essa tal de Aika. Como eu vira uma foto dela, descrevia-lhe como uma cadelinha de feição simpática, coberta faustosamente de pelos claros e lisos, sendo bem menor do que Gigi, notícia que para minha filha era sempre agradável – fato que atribuo ao instinto canino. Eu mesmo planejava escrever-lhe um nova história contando com o protagonismo de Aika, seria uma crônica descontraída e de ânimo suave, prosaico.
Minha filha fazia mais perguntas sobre ela entre um ossinho e outro, contudo pouco podia responder-lhe, apesar de prometer-lhe trazer mais informações. Entretando, os dias que se seguiram não foram dos mais promissores para a cadelinha e, por esse motivo, poupava o amigo de ouvir as perguntas cujas respostas interessariam a Gigi, só vindo a saber que Aika estava na flor da idade. Uma sombra de angústia e infortúnio acompanhavam seu pai, que inclusive faltara algumas vezes ao serviço a fim de dedicar-lhe tempo, carinho e todos os esforços para sua recuperação. Em vão? Não sei ao certo dizer.
O fato é que, em uma manhã de novembro, Aika mostrou-se para mim toda em essência pouco tempo depois de eu chegar ao serviço. Ela não latia, não abanava o rabo, não era o que costumeiramente se espera de um cãozinho. Seu pai, sentado na grande sala, de olhar alheio, talvez a visse na tela da memória – com toda certeza portava notícias nada boas. Aika não passeava pela sala, não estava aos seus pés ou sobre o seu colo a receber carinhos. Aika era uma suave canção de melancolia e saudade. O amigo mostrava-me o braço com uma recente cicatriz de tatuagem, fazendo-me saber que o nome da pequena eram na verdade duas palavras japonesas Ai – Ka, lidas para nós como Canção de Amor. Ela estava bem ali, presa ao braço como sinal e bem atada a toda a alma dele como a canção em que se transformara. Como aquela canção profunda que se ouve no silêncio da saudade, que não pode ser reproduzida, nem cantada, nem traduzida, nem sonhada, mas que nas palpitações do coração surge senhora e, vez ou outra, à revelia de seu dono, volta a tocar. Aika estava todinha ali, não havia dúvidas.



Final de novembro de 2012.

Revelação a Gigi

A Revelação

Ontem estava aflito, como contar a ela, será que entenderia? Depois de muitos volteios, entendi que a verdade pode ser um remédio amargo, e a omissão, um doce veneno; e, neste caso, mais importante do que os adjetivos são as substâncias: optei pela verdade.
Aguardei então momento propício, quando estivéssemos somente nós, seus familiares mais próximos. Depois dos gestos prosaicos, próprios de quem retorna a casa após um dia de trabalho, quando, enfim, na sala, éramos os três: minha esposa, eu e Gigi -, elegi aquele como o instante definitivo, que certamente transformaria a realidade do cotidiano familiar.
Enquanto minha esposa, sentada, observava-nos, ajoelhei-me diante de Gigi, olhei bem dentro de seus olhos cor de caramelo e a chamei para que se aproximasse de mim. Pressentindo o ar grave e solene que passou a pairar no ambiente, resignou o movimento de abano do rabo, que outrora conferia-lhe um aspecto despreocupado e alegre e, quase submissa, depois de bem uns dois passos à frente, inclinando a cabeça em minha direção, mais detidamente passou a olhar-me atenta, completamente receptiva ao que eu tinha a lhe dizer.
Rompendo o silêncio, comecei: __ Filha, você bem sabe como nós a amamos e nos esforçamos todo o tempo para lhe proporcionar desde o conforto material até o aconchego de nossos carinhos e palavras...
E assim, inexperiente na arte de conferir corpo a notícias delicadas, dei curso a uma explicação que chegou a beirar o tédio e a pieguice, até que, enfim, arrematei com a revelação:  __ Filhota, você, além de vira-lata, é adotada - fora lançada a bomba!
Examinei-lhe as reações, supondo que talvez o choque da notícia houvesse colocado momentaneamente em suspenso o turbilhão de sentimentos que certamente tomaria conta de sua natureza instintiva e, na tentativa de amenizar-lhe a dor, dei-lhe um abraço.
Confesso que esperava ouvir alguns uivos, latidos talvez, mas ela, surpreendentemente, respeitando sua dignidade e simplicidade caninas, ao perceber que o gesto afetuoso punha termo à conversa, voltou a abanar o rabinho, colocando ligeira suas duas patas sobre meu colo, como a pedir um biscoitinho. Não lhe neguei o agrado... Olhei para Juliana - a mãe - sim, porque não existe "madrastidade" – ela sorria aliviada.
Você, meu caro confessor, deve estar imaginando que obviamente Gigi não entendeu palavra sequer do que lhe foi revelado. Mas o fato é que esta história não acaba aqui.
Hoje, pela manhã, enquanto ainda estava entorpecido pelo lusco-fusco do clarão que entrava pela janela do quarto roubando-me algumas horas de sono, eis que flagro Gigi bem ao meu lado, de olhos bem abertos, como a fitar-me, ansiosa para dizer-me algo. E disse!
Examinemo-lhe as palavras, pois creio que nos servirão de grande instrução quanto ao entendimento da psique canina.
_ Papai, apesar de agirmos de forma muito parecida, faz tempo que reparei que o seu focinho e o da mamãe não têm nada a ver com o meu.
Percebi que ela não queria conversar; para ela, o importante era somente fazer-me saber que, a despeito de qualquer coisa que lhe falassem, ela nunca deixaria de confiar primeiro em sua capacidade de observação; e, em nosso caso específico, ela já tinha percebido que o amor era o mais importante, afinal mostrara-se segura disso.
Retomei o sono, mas com a sensação de que algo havia se transformado em mim - e havia. 



Um dia de junho, 2012.