segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A cruz cristã em um centro de umbanda?


    Quando nascemos - dizem os sábios - recebemos sobre as costas a primeira de nossas cruzes, composta por dois eixos: o vertical - do tempo -, e o horizontal - do espaço. Será ela mais ou menos leve conforme nosso sexo, condições físicas, posição social e circunstâncias familiares e sociais.
    Assim, nascer pobre no Brasil em 2017, em um grande centro urbano como São Paulo, pode ser bem mais promissor do que nascer na realeza de Portugal, em Lisboa de 1755. Isso porque hoje contamos com uma medicina muito mais avançada, saneamento básico, acesso à informação e uma série de comodidades que em 1755 um nobre jamais sonharia. Outra questão importante é que naquele ano o terremoto de Lisboa matou milhares de pessoas, deixando outras tantas em situação de orfandade, carência e penúria extrema, independente de classe social. 
    Só para citar um exemplo mais palpável, a cruz do tempo - espaço é mais leve para casais homoafetivos que estão atualmente na Holanda em comparação aos que vivem hoje no Brasil, sendo que ambos estão praticamente no paraíso se comparados a homossexuais que vivem na Arábia Saudita. Não é preciso muito para perceber que, ao modificarmos o eixo espaço - sem movermos minimamente o eixo tempo -, o peso da cruz aumentou substancialmente, talvez ao nível do quase insuportável.
    A cruz tempo - espaço também se junta e interfere em outras cruzes. Uma delas é a cruz cujo eixo vertical é o desejo e o horizontal é a ação. É possível possuir um desejo e não poder concretizá-lo por causa do tempo ou do espaço. Em alguns casos, esses elementos são negociáveis, o que não se pode realizar agora, realiza-se mais adiante. Já em outras situações, o tempo ou o espaço literalmente jogam contra. Muitos gênios devem ter sofrido com isso, e, guardadas as proporções, todos nós sofremos com os complicados elementos dessa engrenagem.
    Outra cruz que se relaciona intrinsecamente com as duas anteriores é aquela que tem como eixo vertical o conhecimento e como eixo horizontal nosso raio de aplicação desse conhecimento. É comum que o pouco conhecer resulte em agir com pouca eficiência, ou o pouco autoconhecimento resulte na ação autodestrutiva. De acordo com essa metáfora, quanto menor o eixo vertical da cruz tanto mais pesada ela costuma ser.
    Contudo, creio que se o leitor chegou até este ponto da leitura, sua boa vontade em prosseguir nos meandros deste texto deve-se ao fato de que a cruz do título, uma clara alusão ao símbolo máximo do cristianismo, chamou-lhe maior atenção do que as cruzes que propus até agora.
    Então vamos a ela.
    A cruz infamante, na qual Jesus, o Cristo, foi crucificado, era do mesmo tipo em que foram ao mesmo tempo torturados e mortos dois ladrões. É da tradição que ambos os bandidos não recebam piedade nem comovam uma décima parte do que comove a imolação de Jesus. Isso por motivos óbvios, o último era, além de inocente, o próprio Filho de Deus - se podemos nos expressar assim. Observem que ele foi crucificado pelas cruzes tempo - espaço, desejo - ação, conhecimento - aplicação do conhecimento e algumas outras cruzes que com um pequeno esforço poderíamos inferir. É oportuno lembrar que a crucificação de Jesus também não teve grande repercussão a não ser entre poucas pessoas de seu tempo.
    Apesar disso, sua cruz ressignificou um instrumento de tortura e morte, transformando-o em um estandarte de fé a indicar concomitantemente as agruras da vida material e a vitória da vida espiritual para além dos véus da morte. Tornou-se símbolo do messias esperado na tradição judaica, embora muitos judeus, por diferentes razões, não o tenham aceito como tal, nem tenham a obrigação de fazê-lo.
    Nesse sentido, penso que seja importante que os cristãos, não importando sua denominação, compreendam que Jesus Cristo, apesar de sua relevância óbvia no cristianismo e na repercussão dessa fé no mundo, é entendido por alguns como um mito, por outros como uma figura histórica e por outros é completamente ignorado, sem que essas pessoas sofram nenhum tipo de abalo de consciência ou sintam desejo de serem tocadas em seu senso de transcendência por aquilo que Jesus possa representar. Assim, os únicos que têm realmente algum tipo de compromisso com Jesus Cristo são aqueles que por algum motivo acreditam nele, pois todos os demais estão completamente desobrigados a crer nele, a seguir seus ensinamentos e a praticar os ritos inspirados em sua mensagem.
    Se alguém que se define como cristão não consegue compreender isso é porque está preso à cruz tempo - espaço medieval ou à cruz contemporânea da ignorância - intolerância.
    E por que estou escrevendo sobre isso?
    Explico.
    Este texto nasceu em uma encruzilhada, ainda que metafórica. Foi em uma semana em que notícias sobre intolerância religiosa ganharam a mídia. Mais uma vez, religiões de matriz africana foram atacadas na figura de seus ícones e representantes.
    Talvez esse fato tenha se encruzilhado com um evento ao acaso, pois no mesmo período em que as tristes notícias se propagavam pelas redes sociais, eu ia pela quinta ou sexta vez a um terreiro de umbanda relativamente grande de minha cidade. 
    Preciso esclarecer, para ser justo com meu leitor, que não sou umbandista, pois não compreendo bem essa religião nem suas práticas, embora acredite em mediunidade, na boa vontade de pessoas que entregam seu tempo e empenho de modo desinteressado à própria fé, além de não colocar em dúvida a veracidade dos fenômenos que posso testemunhar sempre que vou a esse centro de nome muito despretensioso.
    Em nenhuma das vezes que ali fui, vi qualquer manifestação de intolerância ou crítica à qualquer outra religião. Pelo contrário, os trabalhos abrem com uma saudação de respeito a todas elas. Ignoro qual seja o conceito que lá fazem de Jesus, se ele se trata do Filho na trindade, se ele é um espírito evoluído ou representação de um orixá - somente sei que ali o respeitam e, inclusive, há uma imagem dele entre a de outros santos. Recebe ele ali outro nome? De fato não sei.
    Os trabalhos também iniciam com um Pai Nosso, prece praticamente judaica ensinada por Jesus a seus discípulos e imortalizada nos evangelhos. 
    Apesar, no entanto, da prece cristã e da imagem de Jesus fazerem parte do contexto que testemunhei, certamente, do ponto de vista tradicional, a umbanda não é cristã, pois não se trata de mais uma entre as inúmeras ramificações de igrejas com diferentes interpretações das escrituras. Creio também que os umbandistas nem se preocupem em se definir como cristãos, no sentido strictu da palavra e talvez nem no sentido lato. E aí você deve estar se perguntando: "como fomos chegar a esse ponto de ideias tendo iniciado a falar de cruzes?".
     Bom, o fato é que em minha última visita ao lugar mencionado, percebi que no símbolo dessa casa de umbanda em específico há uma cruz. Confesso que nunca havia reparado nisso e também que fiquei surpreso ao vê-la. Imediatamente, me ocorreu que se tratava de um símbolo de caminhos que se cruzam ou de caminhos que chegam todos a um mesmo ponto, ou ainda de mensagens que saem todas de um mesmo ponto. E dessas reflexões últimas cheguei às primeiras que expus logo no início do texto, as quais, em verdade, nem são originalmente minhas. De qualquer modo, a cruz, como todos sabem - ou deveriam -, é um símbolo muito anterior ao cristianismo.
    No entanto, não descartei também que o símbolo do centro pudesse ter uma referência cristã, embora a casa de umbanda em questão não desenvolva em discurso retórico doutrina de nenhum tipo nem faça proselitismo. 
    O que posso dizer com certeza é que o trabalho a que fui dessa vez e das outras trata-se de uma atividade de atendimento, de aconselhamento, de consolação e orientação em que nada é pedido em troca, nem mesmo a crença na umbanda ou em seus ícones. Basicamente, é um momento aberto para que pessoas tragam suas inúmeras cruzes de modo a encontrarem ali uma forma de se aliviar o peso da experiência da cruz humana e de prosseguirem mais leves no próprio caminho, sem nenhum tipo de julgamento ou livres de qualquer imposição que gere conflitos de consciência. Ali também se deixam cruzes que outros colocam sobre nós e que não são obrigatoriamente de nossa responsabilidade carregar. 
    Contudo, ironicamente, o próprio lugar, seus adeptos e frequentadores têm sobre si ainda uma cruz tempo - espaço da qual não conseguem se livrar, uma vez que esta última diz respeito a um país no qual os maiores perseguidores das religiões de matriz africana são forjados dentro de cultos que escolheram a cruz como símbolo máximo de sua ideologia e dentro das quais é possível ouvir - até sem nenhuma dissimulação - o uso leviano de referenciais importantes e cultuados na umbanda e no candomblé, além da repreensão explícita aos praticantes dessas religiões, juntamente com apologia ao temor e ódio a tudo que a elas se refira.
    Preciso mais uma vez admitir que não sei o que a cruz representa no símbolo daquele verdadeiro templo de religiosidade, mas tenho profunda certeza de que a umbanda e algumas outras religiões têm carregado cruzes muito cruéis impostas pelo próprio cristianismo - no sentido histórico e social - que já poderiam ter sido superadas há um bom tempo, principalmente no Brasil. Por esse motivo, a cruz cristã - e o bom entendedor compreende perfeitamente o que eu digo - certamente tem pesado muito sobre indivíduos que têm todo o direito de pensarem, acreditarem e cultuarem de modo diferente do que muitos outros consideram adequado, correto e ortodoxamente verdadeiro.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Corpos da mulher


Antes de escrevê-lo, já sei que este texto é polêmico. Ele é assim, pois, quando respeitamos nossa subjetividade, não precisamos fazer concessões - fazê-las, muitas vezes, é se trair. Aqui você lerá reflexões de um homem hetero sobre um dos temas que mais atraem pessoas desse tipo: a mulher e seu corpo. Vou fugir às generalizações, porém prefiro substituir o termo "eu" por homem. Sei que muitos de nós - homens - não concordarão com o que vou escrever - isso também não me preocupa -, pois acredito que outros tantos devem sentir da mesma forma que eu e encontrarão talvez certo consolo nestas linhas.
Certamente, a relação de todo homem com o corpo feminino começa no contato com o corpo da mãe. Sobre isso, no entanto, não posso escrever, pois é assunto cujo entendimento me falta. Contudo, por experiência, sei que muito do que o homem aprende sobre o corpo feminino ele o faz ao perceber como a mãe ou outras mulheres ao seu redor tratam o próprio corpo. O excesso de pudicícia ou a naturalidade com a qual as mulheres da casa lidam com a carne que lhes reveste a alma determinará, na criança do sexo oposto, certas curiosidades ou modo de tomar contato com o corpo do outro sexo. O que essa ou essas mulheres descreverem como belo no corpo feminino também afetará a percepção estética da criança sobre o próprio corpo e o corpo alheio.
Lembro-me de que, quando criança, até meus onze anos, o único recurso de que dispunha para avaliar a beleza feminina eram referenciais da face. Uma menina ou mulher eram bonitas para mim pelo rosto. O melhor de tudo é que não existia exatamente um padrão e, por esse motivo, as meninas de minhas primeiras paixões tiveram rostos muito diferentes: rechonchudos, esguios, morenos, orientais, rosados. Na face também, além dos sinais físicos, transpareciam os sinais do mundo interior, como a simpatia, que podia tornar a menina muito mais atraente.
Por sorte, nos idos de 1980, eu não era refém da mídia e de seus close-ups, dos padrões de roupas e penteados. Era só um menino interagindo com outras pessoas de minha idade.
Nessa época, aos 11, dei meu primeiro beijo. Era C., uma menina de mesma idade. Apaixonei-me pelo sorriso, pelo rosto, pelos cabelos. C. era boliviana, fenotipicamente uma índia inca. Fora dos padrões das revistas, das propagandas, da TV e do cinema. Na época, eu era feliz por não reconhecer padrões.
Infelizmente não namoramos, isso devido à minha incapacidade emocional e intelectual de levar uma conversa adiante ou mesmo ser realmente carinhoso e agradável. 
Na mesma época tive contato com a revista Playboy. Um vizinho meu jogara algumas no lixo. Tendo-as encontrado, tinha a impressão de que tê-las me tornaria mais homem. Peguei-as. As imagens das mulheres eram ao meu ver lindas, sendo suas protagonistas completamente diferentes das mulheres que conhecia. Não eram eroticamente interessantes para mim, mas didáticas, uma vez que aprendia como seriam os ambientes com apelo erótico e como as mulheres deveriam supostamente agir para se tornarem sexualmente desejáveis.
Nesse momento, o imaginário acerca da mulher dividiu-se em dois: a mulher real e a mulher da revista.
Felizmente, naquela época, a mulher real continuou, para mim, mais interessante. 
Com uns doze anos mais ou menos, aprendi a olhar a bunda feminina. E por isso sei que esse hábito tão característico do brasileiro resulta de um aprendizado. Alguns amigos de escola haviam aprendido antes de mim, e - por causa deles - aprendi, observando os comentários, qual era o mais belo e o ideal. Aprendi também sobre a estética dos seios, das pernas, da barriga, da face, dos cabelos, dos olhos. Fiquei diplomado na beleza da mulher brasileira. A partir daí, um pouquinho de televisão e cinema contribuíram para o refinamento de minha educação nessa área apaixonante do conhecimento.
Resultado, tornei-me um adolescente crítico, adotando um verdadeiro padrão de qualidade, um padrão de tão alto nível que certamente barrou a possibilidade de eu me relacionar de maneira mais espontânea e interessante com o sexo oposto.
Talvez eu estivesse indo por um caminho perigoso não fosse uma situação providencial: um encontro com o passado.
Pois é, lembram-se da garota boliviana? 
Então, contava eu 19 anos quando encontrei-a por acaso na rua. Ela estava linda, tinha a mesma idade que eu. Seus cabelos tinham ainda o mesmo brilho e efeito hipnótico, sua boca continuava linda, assim como os olhos e todo o resto. Embora minha personalidade houvesse mudado - eu certamente me acreditava mais sério, mais adulto - a dela parecia ainda a mesma de oito anos antes. Uma pessoa leve, simpática, doce.
Conversamos um pouco e foi o bastante para reacender um suave gosto do primeiro amor. Aproveitei para insinuar a possibilidade de um novo encontro; ela acenou-me um adeus: havia alguém em sua vida.
Nos despedimos, e segui meu caminho para casa. 
"Como ela estava linda!" - pensei.
Comecei a analisar como ela se transformara da pré-adolescência até a juventude. Pouca coisa mudara, e tudo para melhor.
Então, uma surpresa: pensei nos traços dela, na estatura, no corpo fora dos padrões consagrados, completamente fora de qualquer referência exaltada na mídia. 
"Afinal de contas, ela era feia?"
Pareceu-me que ela era feia. Minha razão o disse e reafirmou.
Foi estranho digerir o fato de que ela era linda e feia ao mesmo tempo.
Tentei refletir sobre o que dava forma ao absurdo de eu me sentir atraído por uma menina feia, que a mim parecia bonita.
Então, fazendo algumas desconstruções, finalmente entendi: 
Ela era de fato linda! - meu coração me ajudara a organizar os pensamentos.
E foi isso que me fez entender que a minha infância e pré-adolescência haviam me ensinado a ver a beleza feminina, enquanto o mundo dos homens, ao me condicionar a ver um padrão de formas idealizadas, tornara-me cego para enxergar a mulher que vive infinitamente mais bela dentro de toda mulher.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Crime, Amor e Verdade

Crime, Amor e Verdade

         Tenho de confessar, estou muito feliz com o título desta crônica. Penso que ele cabe como uma luva e é bem fiel ao que estou prestes a narrar. Isso pelo fato de eu acreditar que, embora o caso em si não dê um romance ou filme, ele possui combinados três ingredientes que costumam mexer com as multidões de leitores e espetadores que procuram uma ótima história; a saber: crime, amor e verdade. Trata-se, portanto, de uma história real e, ao meu ver, comovente.
         Foi em 1989 – cem anos após a proclamação da república e duzentos após a Revolução Francesa. Dois marcos históricos nada importantes para meu amigo João Carlos, o Alcapone. Para ele, nenhum acontecimento com capítulo especial nos livros de História seria mais relevante do que ocorreu naquele fim de tarde de uma quarta-feira de agosto. Na verdade, nunca mais o vi ou tive notícias dele após aquele dia.
         Aparecera ele na escola de paletó. Um paletó cinza, maior que seu tronco magro. Provavelmente fora emprestado de alguém ou pego no armário do pai. Estava também com uma camisa social, uma calça de sarja preta com cinto de couro e um mocassim. Enfim, tudo que poderia ajudá-lo a ser desmoralizado dentro da comunidade escolar. Porém, João era simplesmente Alcapone, e nada poderia ser maior do que ele mesmo e que sua vontade.
         - Você viu o Alcapone? Nossa, que louco! – não se falou em outra coisa durante a tarde. Eu mesmo não o vira. Infelizmente só pude testemunhar parte de sua derrocada.
         Alcapone foi para mim um daqueles amigos relâmpago. Conheci-o na biblioteca do colégio. Eu era da sexta série, ele, novato da quinta. Sua chegada era sempre comemorada, pois lá vinha ele com ideias de crimes, de grandes assaltos e de coisas de gângster. Sempre uma fixação por Alcapone, por armas, metralhadoras e fugas triunfais. Não precisamos então explicar a origem do apelido.
         Certo dia, Alcapone chegou à biblioteca da escola com sua mais recente invenção, um livro-simulacro. Ao que parece, na verdade, essa não era uma invenção dele, mas foi a primeira vez que vi algo do tipo. Era um livro de capa dura com as páginas todas coladas, com exceção da primeira capa e algumas folhas da frente. Porém, havia um grande pedaço recortado no meio, transformando-o em uma verdadeira caixa. Era um livro oco.
         Ao vê-lo, lembro de ter pensado, em minha inocência, que aquele sim era um estojo legal e útil, bem espaçoso e diferente. Mas logo Alcapone explicou: sua intenção com o livro-simulacro era roubar fitas-cassete. No interior do livro, era possível ajeitar duas camadas com quatro fitas cada, ou seja, dava para roubar oito fitas de uma vez.
         A ideia era interessante e original - pelo menos assim me parecia.
         - Mas para que ter tanto trabalho? Por que não usar uma mochila de uma vez? – alguém de nós perguntou.
         - O crime é uma arte! O verdadeiro crime se comete diante das pessoas sem que elas percebam. Devemos nos parecer inocentes de tal modo que qualquer acusação contra nós pareça injusta. É preciso se vestir bem, se portar bem, estar acima das suspeitas. – Alcapone mostrava sua genialidade precoce.
         Hoje me pergunto se essa era uma fala dele mesmo ou de algum filme?
         Ele continuou:
         - Se você entrar em uma loja de discos e fitas do shopping com uma mochila, o vendedor vem logo atrás de você. Em algumas lojas, eles dizem para deixar a mochila no guarda-volumes. Mas com um livro na mão apenas, com a camisa para dentro da calça e com a carteira na mão, ninguém desconfia. Nada de usar boné também.
         Eu nunca havia reparado nisso, mas parece que era verdade. Na época, as lojas não possuíam câmeras e geralmente nas seções de discos e fitas importados ficava um vendedor sempre de olho em tudo.
         Fiquei curioso sobre a “arte do crime”.
         Alcapone nos convidou para demonstrar seu método no shopping ali próximo à escola. Eu fui o único que aceitei ir com ele.
         Como pude perceber na manhã seguinte, quando marcamos de nos encontrarmos na escola, a estratégia era mais elaborada. O shopping abria às 10h.  Nossa aula era à tarde. Da escola seguimos para o alvo.
         O shopping estava praticamente vazio quando chegamos. Nele, uma loja de discos e fitas que era um verdadeiro sonho. Na parte de cima, a seção dos importados.
         Alcapone estava com o livro-simulacro, mochila e um casaco. Eu estava com um casaco e minha mochila.
         Paramos em frente à loja. Ele, confiante, disse-me apenas para segui-lo e imitá-lo. Foi o que fiz, mesmo sentindo aquela adrenalina que dá uma vontade de sair correndo.
         Entramos.
         Alcapone foi direto ao vendedor.
         - Tem um lugar que a gente possa deixar a mochila?
         O rapaz indicou um canto da loja em que havia um balcão estreito.
         - Posso deixar o casaco também?
         - Claro! – respondeu o vendedor.
         Eu também deixei o casaco e a mochila.
         Antes de sairmos daquele canto para subirmos para seção de importados, Alcapone ainda disse:
         - Nossa, estava me esquecendo de minha carteira.
         Voltou até a mochila, abriu o zíper de um pequeno bolso lateral, pegou a carteira, abriu-a e contou por cima o dinheiro que estava lá.
         Alcapone era um gênio!
         Olhou no relógio.
         Perguntou ao vendedor onde estavam as fitas importadas dos Beatles.
         O vendedor indicou a escada: - Lá em cima, podem subir!
         Alcapone mostrou-lhe o livro: - Ah, preciso deixar lá com a mochila?
         O rapaz fez um joia: - Não, tranquilo, podem subir...
         Fomos.
         Ele não veio atrás.
- Sabe por quê? – perguntou Alcapone lá em cima.
         - Ele confia em nós. – respondeu satisfeito.
         Pediu que eu escolhesse uma fita. “Let it be” foi a minha escolha. Junto dela entraram mais quatro fitas no livro.
         - Ah, que pena, meu pai já tem todas essas daqui. – exclamou como se fosse verdade, sem forçar o tom de voz.
          Descemos.
         - Você sabe se chegarão mais fitas dos Beatles?
         O vendedor não sabia responder à indagação de Alcapone.
         - É uma pena, meu pai tem já todas que eu vi aqui.
         Recolhemos nossas coisas e fomos embora, sem deixar suspeitas.
         Depois percebi que Alcapone não se interessava por nenhuma fita que pegara. O importante para ele era o método e o aprimoramento de sua estratégia. Me deu de presente a fita, que eu levei para casa e nunca tive coragem de ouvir - não sei se por pudor ou porque me fazia lembrar de Alcapone e uma das cenas mais desoladoras que vi pouco tempo depois.
         O grande furto virou lenda entre os meninos da quinta e da sexta. Eu mesmo fiz questão de narrar a desenvoltura de meu amigo, embora tenha começado a achar perigoso andar em sua companhia.
         João Carlos tinha uma conversa excêntrica. Desenhava arsenais de armas que ele compraria quando grande e fazia planos para ser o líder de sua própria máfia. As conversas, engraçadas no começo, foram ficando repetitivas e sem gosto. Mas Alcapone tinha um novo plano. Na verdade, um novo amor. E quem segura um mafioso apaixonado?
         Alcapone se apaixonara pela professora de matemática da quinta série. Ela namorava o professor de português, também da quinta. Todos sabiam. O que era isso para Alcapone senão mais um desafio a ser vencido com estratégia?
         E é a partir daqui que voltamos lá para o início.
         - Você viu o Alcapone? Ele tá de paletó e sapato? – não foram poucos a comentar a ousadia de João.
         Eu o procurei no intervalo, mas não consegui achá-lo de jeito nenhum.
         Na saída, alguém comentou:
         - O Alcapone é louco, ele foi se declarar para a professora Fabiana.
         Meu Deus, ele era louco mesmo. O que ele achou que aconteceria? Será que ele pensou que ela se mudaria para Chicago com ele?
         E então a triste cena. Eu já estava do outro lado da rua a caminho de casa e me demorando para ver se via o Alcapone sair do colégio, quando vi um imenso buquê de rosas vermelhas quase maior do que o garoto que o carregava. João Carlos foi subindo a rua desolado, com as flores voltadas para o chão. Uma situação que só de escrever faz as lágrimas virem aos olhos.
         No filme Os Intocáveis, lançado em 1987, havia a musa Catherine Ness, uma loira, mulher do grande rival do mafioso Alcapone.
         A professora Fabiana era praticamente a única mulher jovem e loira da escola.
         Naquele dia, sinto que foi a primeira e última vez que vi João de verdade. Infelizmente, que eu saiba, ele nunca mais voltou ao colégio.
          Este parágrafo então escrevo para ele:

João, só queria que soubesse que, apesar das chacotas dos colegas, sua trágica história me comove mais do que a de Alcapone. Certamente, uma dose de um bom uísque daquele carregamento clandestino que você conseguiu salvar dos federais agora não cairia mal. Se cuida, meu amigo... A fita, ainda a tenho comigo...



quinta-feira, 8 de junho de 2017

Entrevistas e empregos abusivos



De fato, parece que não estamos preparados para as primeiras experiências. Depois, quando as analisamos, nos damos conta de muitas coisas, entre elas de abusos que sofremos ou de reações que gostaríamos de ter tido e, por nos tornarmos reféns do inusitado, simplesmente fomos incapazes de tê-las. Creio que essa ideia se aplica a milhares de situações, mas gostaria de relatar especificamente algumas experiências que tive no campo de trabalho. Se forem úteis a alguém, fico feliz, mas confesso que para mim pesa menos a utilidade pública do que a catarse de escrever sobre elas.

A primeira delas, digna de nota, deu-se em meu primeiro emprego como professor. O diretor da escola me abordou no final do ano e disse que gostaria que eu fosse à formatura da 3ª série do ensino médio. Naquela época, eu não dava aulas oficialmente para essa turma nem para nenhuma outra que estivesse se formando. Disse a ele que não iria, pois além de não gostar de festas solenes, não acreditava que minha presença tivesse algum valor real no contexto. Sinceridade é um defeito?

Ele não disse mais nada.

No dia seguinte me comunicou que se eu não fosse a tal formatura, a mantenedora da escola iria me demitir.

O que eu fiz, senhoras e senhores?

Fui.

Pouco tempo depois, saí dessa escola e me tornei bancário concursado, aparentemente livre de despotismos. Essa parecia uma posição mais cômoda, mas nem sempre e nem tanto.

Trabalhava em uma agência na região central de São Paulo, onde havia milhares de contas de servidores públicos.

Pouco tempo depois de tomar posse no concurso, uma outra colega também veio trabalhar na mesma agência. Foi então que ela recebeu uma incumbência: sentar-se diante de um terminal e cometer um crime. Ela deveria mudar a condição das contas comuns dos clientes da agência para contas com cheque especial. Esse tipo de mudança só pode ser feito com consentimento do cliente e mediante a assinatura de contrato. Isso porque o cliente passa a pagar mais por esse tipo de conta e pode contrair dívidas com o banco caso utilize o cheque especial. Quando não se sabe que se dispõe de um cheque especial, é fácil estourar a conta e ter depois de pagar juros ao banco.

Minha colega deu acesso a cheque especial pelo menos para algumas centenas de clientes. Eu a alertei que não poderia fazer aquilo, pois, além de ser crime, todos os comandos ficariam registrados no nome dela. Ela simplesmente disse que eram ordens do gerente geral.

Um mês depois, os problemas começaram a surgir no atendimento. Eram clientes indignados por ter de pagar nove reais mensais pelo benefício e terem um cheque especial que não pediram nem desejavam. Parecia até uma coisa boba essa indignação, mas não é nem era.
 
Cheguei então ao meu gerente geral e lhe disse que suas ordens de um mês antes estavam dando um resultado muito ruim no atendimento. Ele então me confrontou com a ética da matemática: "Quantas reclamações vocês atenderam hoje?"

"Seis." - respondi.

"Então, multiplique 9 reais por 3000 (clientes que receberiam o 'benefício') e extraia 6 clientes: esse é o lucro mensal - todo mês - da agência só com essa operação." 

Sinto que ele se deliciou com essa astúcia da matemática básica.

No mesmo banco, vi pessoas exploradas de todos os jeitos, principalmente idosos. Como se posicionar contra esse sistema? 

Depois de um ano e meio como bancário, voltei à sala de aula.

Dessa vez, o período foi de calmaria.

Contudo, poucos anos depois, mudei de cidade e tive algumas experiências inéditas para mim, trabalhar em colégios confessionais. 

Em um deles, estava acertando a quantidade de aulas que daria durante a semana, quando o coordenador que me contratava fez o seguinte comentário:

"Você não é cristão, é?"

Respondi que não e comentei que não sabia em que aquilo seria relevante, uma vez que não lecionaria religião e sim Literatura.

Então ele me alertou de que deveria tomar cuidado com certos assuntos durante as aulas. Em todo caso, deveria consultá-lo sobre um tema ou outro que fosse tratar.

Assim que pude, pedi demissão, pois, pior do que a censura política, são os atos da inquisição, que fazem um balaio de gato com vários assuntos de natureza distinta - como pude perceber ao longo de um ano naquela instituição.

Em outra escola, enquanto a coordenadora me mostrava o colégio, ela me perguntou qual era a minha religião. Respondi simplificadamente: "Espírita" (embora para mim religião seja algo mais profundo, que não convém explicar aqui). Estava crédulo de que é melhor falar a verdade do que dissimulá-la ou omiti-la.

Ela parou, sem reação. A desaprovação foi evidente. E tudo ficou muito claro e cada vez mais obscuro, pois não consigo ver relação entre aulas de redação e literatura com minha religiosidade ou concepção de mundo.

Felizmente, nossa conversa não foi além daí, não peguei aulas nessa escola.

Em outra, a situação foi mais intrigante. Não se tratava de uma escola confessional, mas a coordenadora conseguiu transcender as expectativas: perguntou se eu era casado, o que minha mulher fazia, se tínhamos filhos.
Respondi que minha mulher queria ter filhos, eu não.
 
"Se ela quer, dê filhos a ela" - respondeu-me a boa mulher. E naquele momento tudo me pareceu claro a respeito das expectativas depositadas nos funcionários do colégio, nos alunos e na própria sociedade. Percebi que aquele não era meu lugar e dei graças aos deuses por não ser obrigado, como no início de minha carreira, a aceitar aquele emprego.

Outro caso interessante foi quando, também no processo de contratação, me perguntaram se eu tinha residência e carro próprios. Quando respondi afirmativamente, ouvi que então eu deveria me dar por satisfeito, uma vez que estava acima da média do brasileiro. (Gostaria muito de saber se isso me faz um melhor professor...)

Bom, caros leitores, para não terminarmos assim, num beco sem saída no qual o abuso - mesmo que inconsciente - parece ser regra, gostaria de pontuar duas entrevistas felizes de emprego. Uma de um amigo, outra minha.

Meu amigo tem inúmeras tatuagens e ensina filosofia. Já acostumado ao preconceito, foi a uma entrevista de emprego com uma blusa comprida. Depois que parecia tudo acertado, mostrou ao diretor uma de suas tatuagens que apareceria se usasse camiseta e perguntou se haveria problema para a escola. O bom homem, conhecedor do mundo, respondeu com uma pergunta: "Você é sensato e sabe ensinar bem sua matéria?"

Sim, há sempre uma luz! De fato, parece que não é necessário mais do que isso.

No meu caso, uma entrevista dificílima e memorável - das mais honestas que tive - foi com uma diretora que me perguntou quais eram os últimos livros que havia lido, o que achava de tal personagem de tal obra clássica da literatura brasileira, qual era o meu autor brasileiro preferido, o que achava do uso de obras adaptadas em sala de aula, qual era o conteúdo que eu preferia ensinar e por quê. Estava ela junto com mais três coordenadoras de Língua Portuguesa diante de mim que também intercalaram perguntas de estilo semelhante. 

Caros leitores, nunca me senti tão desafiado a dar o meu melhor por uma instituição e por minha equipe, mesmo antes de trabalhar naquela escola. Ali ficara bem claro o que realmente importa em uma sala de aula; aquele foi meu batismo de fogo como profissional. Foi uma experiência que moldou minha percepção sobre o que e como deve ser uma entrevista de emprego; qualquer pergunta que fuja objetivamente do que é essencial à sala de aula me parece fora de propósito. Se eu sou casado com alguém do mesmo sexo, se não creio em Deus, se acredito no liberalismo, penso que nada disso deve ser tabu, ou deve?

Se você tem alguma história de abuso em entrevista de emprego ou no emprego em si para contar, convido a deixá-la registrada nos comentários.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Bolsonaro: combater o mito?


Na verdade, este texto não é sobre o Bolsonaro, mas, se uma referência a ele consta no título, é porque este artigo nasce inspirado em algumas reflexões que partem de dois elementos que considero dignos de estudo: o discurso do "mito" e a abordagem que frequentemente seus antagonistas utilizam para combatê-lo.
Vou começar pelo segundo elemento, pois há um bom tempo a expressão "primeiramente" foi monopolizada pelo complemento "Fora Temer". Diga-se de passagem, algo a que eu não me oponho.

Enfim, voltando à questão.

Costumo dizer que os detratores do nobre deputado, principalmente os jovens de espírito revolucionário, aparentemente têm se tornado os mais eficientes cabos eleitorais de Bolsonaro. Suas intervenções com enfrentamentos e perguntas parecem mais coisa daqueles times adversários no vôlei em que a estratégia equivocada de um dos oponentes resulta desastradamente em acabar levantando a bola para o adversário cortar com fúria e de modo indefensável. E podem ter certeza, meus amigos, o Bolsonaro corta sem dó - esse tipo de jogada não é novidade para ele. No fim, ele ainda aumenta mais sua popularidade, convencendo seus adeptos de que ele é de fato um mito. 

"Um estuprador e um assassino não merecem uma segunda chance?"
"A vítima terá uma segunda chance?" - rebate ele acertadamente quando o tema é pena de morte.

"Um criminoso apodrecerá em uma cadeia em péssimas condições?"
"Pensasse antes de cometer o crime." - lucidamente se ancora na responsabilidade que cada indivíduo deve ter sobre os próprios atos.

"Cada um deve ter o direito de portar sua própria arma e defender-se." - lógica irrefutável do princípio da legítima defesa.

Não adianta se indignar, essas respostas tocam em pontos sensíveis a qualquer um que se sente na iminência de sofrer ou que já sofreu algum tipo de violência.

Estudo argumentação já faz um bom tempo e um pouco de experiência que tenho de vida me leva a considerar que, mesmo bombástico, há um sentido na fala do mito. E aqui acho mito uma palavra bem adequada: os mitos com os quais trabalha o Bolsonaro.

Não vou negar, e sei que posso ser muito criticado por isso, acho o nobre deputado uma pessoa que tem carisma - não do tipo que me cativa. Fala firme, com convicção, diz na lata, como um tiro, tem uma lógica clara, sem academicismos e reticências, uma fala que mexe sobretudo com quem se sente vivendo em uma sociedade caótica, em que falta segurança e regras claras de conduta, e na qual valores tradicionais vão se desconstruindo. É a fala da ordem num contexto de valores meio débeis e inconstantes. É, portanto, a fala de um líder - não do líder que eu gostaria de ter, mas do líder do qual muitos sentem falta - e por isso alguns o amam e outros o odeiam. O julgamento morno não costuma acompanhar esse tipo de pessoa. Para alguns, ele é um mítico herói, para mim: não exatamente um mito, mas um personagem folclórico, cujo tempo há de passar e espero sem muitos estragos.

Feitas essas considerações, agora vamos à questão real deste texto. A partir daqui, procurarei respeitar meu leitor mais do que fazem os políticos e - acredito - trabalharei as ideias que combateriam de fato o fenômeno Bolsonaro, não em enfrentamentos públicos, mas nas discussões sérias que contribuem para tirar o ibope de discursos fast-food.

Para isso, gostaria de iniciar com uma questão central de muito interesse do deputado e da população: polícia e segurança pública.

Quem é o policial hoje?

É alguém que entra para a corporação por diferentes motivos. O melhor deles talvez seja o senso de dever e justiça, a vontade de servir e combater o crime. Uma pessoa como essa - não que todos sejam assim - deve ser uma reserva moral não só da polícia, mas da própria sociedade - que infelizmente tem aprendido a temê-lo ou odiá-lo.

De que ele precisa?

Basicamente, ele precisa de dois tipos de formação. Uma é a formação sobre os direitos constitucionais. Ele precisa ter a percepção de que em uma sociedade democrática o valor está no diálogo, no consenso, no bom senso. Isso é essencial no trato com o cidadão comum. A questão da subordinação irrestrita e da obediência cega, sem espaço para o contraditório, tem seu lugar nos quartéis, não com o cidadão honesto, independente de sua cor, idade e classe social.

Contudo, a linguagem no trato com o criminoso comum é de outra natureza. É a linguagem da autoridade, da contenção, da subordinação sim. É a linguagem com a qual o cidadão comum não está acostumado, mas é essencial para o policial. Ele precisa saber utilizá-la, não simplesmente para constranger o bandido, mas para tornar o trabalho policial menos penoso, menos desgastante do ponto de vista psicológico e até físico.

Outro aspecto importante é que esse policial tenha preparo para distinguir o cidadão comum do bandido, de modo a adequar sua linguagem, sua abordagem. Essa formação, antes de tudo, só tende a favorecer esse profissional, tanto em seu status diante da sociedade quanto em sua prática cotidiana. O exercício do uso dessas duas linguagens deve ser revisitado continuamente e considerado elemento de valor à profissão.

É também de extrema relevância que o policial tenha aparato adequado para lidar com o crime. Armas obsoletas ou pouco confiáveis colocam a vida desse profissional na mão de bandidos que, diga-se de passagem, têm muitas vezes prazer em alvejar policiais e o fazem sem pena ou remorso.

E nesse ponto creio que seja válido chamar a atenção sobretudo dos chamados cidadãos de bem: a maior parte do tempo é com bandidos que o policial está lidando para que você e eu estejamos em segurança. Ele faz por um salário relativamente baixo aquilo que nem eu nem a média das pessoas faria por dinheiro algum: arrisca a própria integridade física, a vida e até a segurança e conforto dos familiares.

Creio que seja válido também lembrar que muitos acreditam que liberdade de expressão seja algo irrestrito, ou seja, vale xingar, esconder o rosto em uma manifestação, pichar e fazer birra contra autoridades policiais a exemplo de crianças mimadas. Bom leitor, na verdade, pela Constituição, não é bem assim. Aliás, todos deveríamos ao menos conhecer um pouco esse documento antes de fazer uso de nossa liberdade de expressão, seja em uma conversa, em redes sociais ou em manifestações. Todo manifestante deveria também considerar o direito à liberdade de ir e vir, antes de decidir arbitrariamente tomar uma rua ou avenida, de modo a constranger motoristas - cidadãos - a não chegarem às próprias casas, irem a hospitais, delegacias ou aonde quer que desejem e precisem ir. E se pareço fazer o papel de advogado do diabo, gostaria de lembrar que essas leis nos servem como coletividade, não foram feitas simplesmente para servir ao contexto que particularmente nos interesse. Outro ponto importante: não temos o direito ao anonimato ao nos expressarmos na maioria dos casos, por isso, vamos tirando o lenço do rosto - a não ser é claro naqueles momentos críticos de exacerbação da outra parte - uma vez que o tema deste artigo não são as vidas e práticas dos santos.

Pichadores de protesto também precisam saber que os muros, embora estejam por todas as partes sem ninguém que os olhe, têm donos, nenhum protesto que deprede um bem público (de todos) ou privado (de alguém) por mera conveniência deve ser tolerado socialmente e validado dentro de um relativismo. E se a ideia não parece muito clara ao leitor pichador de protesto, imagine alguém entrando em seu quarto quando você não está lá e pichando "Fica, Temer!". 

O muro de quem mora em uma casa é o muro que esse morador tem de ver todos os dias e no qual ele não escreveu nada para o próprio deleite ou para protestar. 

Voltando à questão da segurança pública, outro ponto sensível que toca a sociedade, mas sobretudo o policial, diz respeito à fragilidade e leniência das leis e ao sentimento de impunidade diante de quem utiliza as brechas e falhas da legislação para se proteger da punição de seu delito ou crime. Imagine quão frustrante é arriscar a vida para impedir que alguém faça mal a outra pessoa direta ou indiretamente para depois ver esse indivíduo completamente livre de qualquer reparação ou responsabilidade. Embora eu apresente a ideia de modo abstrato, essa é uma realidade muito comum no universo policial. Resultado: indignação, somada ao ímpeto para o justiçamento - ou seja, uma extrapolação do direito de autoridade. Óbvio que essa prática não é correta, mas o fenômeno é compreensível se experimentarmos minimamente nos colocarmos do lado do policial (Repare, não disse que é certo!).

Agora, vamos ao ponto que creio ser o mais relevante: matar bandidos. 

Matar pessoas é algo a cuja imagem, de modo geral, já nos acostumamos. Os filmes fizeram isso com a gente. O mocinho mata o bandido. O processo de catarse criado no cinema nos faz desejar o homicídio da representação do mal. O mocinho concretiza nosso desejo. Ficamos todos aliviados com o final marcado pela morte do bandido fake.

Contudo, quem mata uma pessoa dificilmente volta a ser psicologicamente o mesmo de antes, ainda que tenha justificativas irrefutáveis e legítimas para ter agido do modo como o fez. Não é difícil que esse policial entre em um estado de conflito de valores, que envolvem moral, senso de dever e até religião. O ideal é incentivá-lo a continuar na profissão com lemas do tipo "bandido bom é bandido morto", "antes ele do que eu e alguém da minha família", ou proporcionar a ele atendimento psicológico periodicamente, reforçando a importância de sua função de proteger a sociedade - algo bastante diferente de justiçar bandidos?

Chegamos, então, ao ponto que desejava. Se a sociedade não consegue reconhecer o policial como um ser humano acima de tudo e delega a ele a função heroica do protetor a quem tudo é permitido, ou, pelo contrário, veste-o com a fantasia de vilão, para o qual cada ação é expressão de abuso, não é possível melhorar verdadeiramente a questão da segurança pública no país. 

O que sinto é que somente o Bolsonaro e poucos do estilo dele olham e falam pela classe policial, enxergam esse profissional e o valorizam - infelizmente com um discurso em que a solução vem por meio de respostas fáceis e simplificadoras. A oposição ao mito, em contrapartida, parece nunca ter algo consistente a oferecer como alternativa às questões de segurança. 

Assim, nossas leis continuam sem ser discutidas com seriedade na mídia, as penas para crimes graves frequentemente são relativizadas, há indultos para bandidos e, onde o Estado não está presente, criminaliza-se o cidadão que procura por recursos próprios - geralmente inadequados - proteger-se.

É bom considerar que uma coisa é não portar armas em lugares em que há policiamento ostensivo e práticas de civilidade, outra coisa é estar em áreas rurais e urbanas desassistidas pelo poder público à mercê de pessoas que se valem dessa deficiência do Estado para protagonizar desde os crimes mais simples até os mais cruéis.

Então é que proponho as seguintes reflexões:

- Defender um país no estilo velho oeste ou considerar a possibilidade do aprimoramento da segurança pública - até por meio da tecnologia - a áreas a que o Estado não chegou de modo eficiente ainda?

- Defender o uso da violência como recurso policial ou o uso racional da força e da autoridade como forma de contenção ao contraventor ou criminoso?

- Defender a pena de morte - que será basicamente recurso aplicado a criminosos ou bodes expiatórios de baixa renda - ou a reforma do código penal, considerando, por exemplo, crime hediondo o "desvio" de dinheiro da saúde para fins particulares de políticos e empresários?
(Será que podemos falar em prisão perpétua e trabalho forçado em vez de cadeias que são verdadeiros escritórios do crime organizado em que há mais números de celulares operando do que em algumas empresas?)

Enfim, o papo vai longe... Mas o que espero é que, mais do que ataques a Bolsonaro, encontremos alternativas a ele, representantes políticos que se posicionem de maneira clara sobre a questão da segurança e da cidadania, pois se eu estivesse em lugar perigoso, como são tantos no Brasil, e se eu fosse um policial ou tivesse um familiar na corporação, entre Bolsonaro e ninguém, em quem poderia votar?
Combater o mito, tudo bem, mas quem colocar no lugar dele?

P.s.: quanto a questões como racismo e homofobia, fica para outro texto.







segunda-feira, 22 de maio de 2017

Bastardo


Bastardo. Reiteradas vezes o avô paterno o chamara assim.

Com cinco anos, ele não sabia o significado do termo, mas a agressividade com que o homem calvo e branco o pronunciava fazia-o adivinhar que não era boa coisa ser bastardo.

O pai, se ouvia, não fazia nada para desdizer o dito. Talvez fora dele mesmo que partira a acusação: o menino seria filho de outro homem que não ele. Assim teria justificado a separação precoce. 

Se esse era o fato, no entanto, por que passara a buscar o garoto aos domingos?

Se a criança era sabidamente bastarda, por que levá-la à casa dos avós que não eram dela?

A ideia era fazê-la refém para vingar-se da suposta traição da ex-mulher?

O velho era rude não só com o garoto, era um demônio a expelir ranço pela boca. Sua esposa, pequenina, era calada, possivelmente cativa do tirano da casa. A criança via no olhar da avó uma dor maior do que sentira ao ser chamada de bastarda. A dor da mais velha acolhia a do mais novo.

O menino amuou-se. 

Ao que se sabe, pai, madrasta e menino não ficaram mais do que meia hora na casa dos velhos. Lá estava também a irmã do pai, talvez indiferente ao que passava - quem se acostuma com violência desde a infância deixa de reconhecê-la em algumas de suas formas mais corriqueiras.

Por fim, no início da noite, o menino foi devolvido à mãe com a palavra que ganhara.

- Mãe, o que é bastardo?

Se a expressão "laços do passado" tem um sentido, pessoas separadas com filhos conhecem-no muito bem. É difícil resignar-se diante de um cativeiro simbólico que, frequentemente, assume a forma de uma criança. Quando o filho ou a filha possui traços físicos ou até o tom de voz do ex, a sensação de ser visitado pelas sombras dos enganos - geralmente da juventude - pode gerar aversão e, por esse motivo, culpa em quem é pai ou mãe.

A mãe exasperou-se. Onde o menino ouvira a palavra?

Já não bastava a ideia insuportável de encontrar o ex-marido - domingo sim domingo não -, de entregar o filho a ele, deixar que o filho se contaminasse com a fala e os modos dele, com os valores dele, com os trejeitos dele, agora tinha de ouvir uma palavra que vinha como acusação que, se não era familiar a ela, levantava suspeita de que a outra família a considerava adúltera?

Como explicar a palavra e o que ela pressupunha? 

No contexto, ela indicaria a traição da mãe, ao menos uma relação sexual fora do casamento, uma vilania materna. A mãe amada não seria mais perfeita aos olhos do menino?

Soube que fora o avô a ofender seu filho. Irritou-se, odiou o velho. Vociferou. E o garoto sentiu que a questão era ainda pior do que parecia. 

O fato de a mãe não ter sido adúltera e, portanto, de o garoto ser um legítimo filho e neto, tornavam tudo pior para a mulher. Contudo, o menino passou a ter dúvidas...

Seu pai era, aos domingos, um homem atencioso, simpático, criativo e bom. Não era pai? Era pai?

A mulher dele, ex-amante, era visivelmente contrariada com a presença da criança, um laço de um passado que não era o dela, mas que se enrolava em seus pés causando tropeços. De qualquer forma, se  o garoto não era bastardo de sangue, estava sendo na criação. Ela parecia odiá-lo até nas pequenas sutilezas. O sacrifício de aturar, com disfarce, era para ela um ofício custoso. Não convencia.

O homem era submisso a ela. E os domingos eram assim: melhores longe dela, quando o pai era pleno. Porém, o pai era sempre triste, quase sempre dela.

O menino passou a desconfiar que o pai não era pai. A ideia se inculcara em sua cabeça. A mãe dizia que sim. Tudo era muito confuso. Quem era aquele homem afinal?

Domingo sim, domingo não. Essa passou a ser a contagem do tempo. Angústia na noite do sábado que precedia a visita. Angústia na noite do domingo após voltar da casa do pai.

Casas tão diferentes, regras tão diferentes, tratamento idem.

A mãe legítima não era de brincar, falava pouco com o menino e muito com muitas outras pessoas ao telefone. O pai era de inventar, falava com o garoto sempre ancorado na imaginação. Era a realidade insuportável demais?

Faltava ar ao menino com frequência. Passaram a dizer que era um menino doente.

Por que mãe e pai eram separados? Essa resposta não havia.

Quando a família do pai ou da madrasta tinham contato com o bastardo, o garoto sentia-se deslocado. Nada precisava ser dito. 

Ele sabia exatamente que não estava em seu lugar.

Era doloroso para ele, certamente também o era para o pai. Mas será que não fora o próprio pai que dissera à família que o garoto era filho de sua ex-mulher com outro?

Na época não havia testes de DNA. Legalmente, o filho era dele. Inclusive, registrara-o com o nome que escolhera, contrariando a vontade da mãe legítima.

Os traços eram quase todos da mãe, e isso ajudava a aumentar a suspeita. (Não ver o pai nos traços do filho sempre é motivo de suspeita, o contrário, naturalmente, não.) 

Os domingos de visita eram meio aversão, meio paixão. Deviam ser ao pai também. 

O que ouvia de sua mulher entre os domingos?

O que o menino ouvia sobre seu pai entre os domingos?

Os lados antagonistas certamente se aliavam inconscientes. 

A quem julgar?

O pai não era homem suficiente, o menino também não o era.

A dança de cinco anos entre os dois seguia uma música, e toda música está fadada a acabar. As sinfonias são mais longas, as cantigas não.

Quando o menino contava dez anos, nasceu uma menina.

Se havia empenho do pai em visitá-lo, a partir de então, perdeu o viço, a cor e talvez o sentido.

O garoto também já tinha padrasto.

Talvez o padrasto, que o visitava pelas palavras do menino, lembrava ao pai que ser pai é algo sério. Foi ele então ser pai de uma menina e, depois, de outra também. Certamente um pai maravilhoso - ele tinha o dom.

Do menino, foi só um pai bastardo, ilegítimo e infiel. 

E se todas as mentiras para sustentar coesa uma família se transformam em um bordado na casa paterna, ei-la: é uma toalha grande e colorida - sempre ela - a enfeitar, aos domingos, a mesa de jantar.