segunda-feira, 6 de março de 2017

Comunidade do Sol - Cap. 8: Raiva e Indignação: aliadas?

Raiva e indignação: aliadas?

Quer agravar um problema?
Adicione algum vício, bebida ou droga.
Quer torná-lo irremediável?
A isso acrescente uma arma.

As meninas seguiram felizes com João Pedro para a comunidade. Dessa vez o garoto estava mais arqueado, caminhando, porém, com um sincero e largo sorriso.
Adivinhava nele uma história trágica. Um dia eu ou as meninas saberíamos o porquê das vindas de João?
Eu, sim; elas, só se, no futuro, viessem a ler estas páginas.
As crianças perderam-se rapidamente entre os seus, prontas para novas descobertas.
A noite, para mim, seria como a anterior?
Cumprimentei com o aceno do Sol meu amigo Marcos. A alegria de revê-lo, mesmo que no silêncio imposto pelo dever, era uma promessa de que talvez nossas amizades da comunidade poderiam ser revividas com maior consciência um dia.
Quando estávamos prestes para deitarmos no barco para inspirar profundo, eis que ao longe vimos o magnífico barco que despontava no horizonte em direção à outra praia da comunidade. Era uma grande embarcação branca com o símbolo do sol pintado em dourado em suas laterais e com enorme bandeira com o mesmo emblema.
No convés, entretanto, em vez de barqueiros, víamos tios anjinhos com seus mantos irradiantes e translúcidos. Somente eles podiam conduzir a embarcação mais importante entre todas as outras: o navio que revela a grande chaga da humanidade, a Fragata do Sol.
Nunca tinha visto uma, tampouco imaginei que algum dia veria. Mas o manual do navegante era preciso em suas descrições.
Apesar da sugestão pacífica da cor, tratava-se de uma embarcação feita para resistir a ataques letais.
E neste ponto, a pequena leitora e o pequeno leitor devem estar confusos: ataques letais?
Bom, antes de desenvolvermos melhor essa ideia, é importante observar alguns fatos.
Além das necessidades essenciais do ponto de vista material – como alimento, abrigo e segurança -, é imprescindível que toda criança receba dos adultos dois estímulos insubstituíveis: a orientação e o afeto. Contudo, como não sou um profundo conhecedor das ciências psicológicas, vou recorrer à metáfora que me foi ensinada na Comunidade do Sol quando eu tinha 12 anos.
A orientação é por si só seca; o afeto, por sua vez, é úmido. Se recebemos só orientação sem afeto, secamos e nos tornamos quebradiços, sem viço, sem alegria, rudes até. Se recebemos só afeto, sem orientação, ficamos muito moles, sem consistência, incapazes de nos firmarmos por nós mesmos. Os dois bem dosados formam a equação ideal, que combina vigor e direção.  Assim crescem as imensas árvores que resistem ao tempo e às intempéries da natureza, tornando-se sombra e fortaleza para os seres que a elas recorrem.
E quando em vez de orientação se recebe a sua contrária, a desorientação?
E, ao mesmo tempo, recebe-se do afeto o seu contrário, o desafeto?
No universo infantil, esse fenômeno corresponde à rega de uma delicada flor feita com um terrível veneno.
Acrescente-se a isso droga, violência e armas...
A fragata estava cheia de meninos do tráfico. Outras aportavam em entradas distintas da comunidade, vinham de vilarejos africanos ou do Oriente Médio, onde crianças eram sequestradas e aliciadas por guerrilhas, tornando-se soldados.
O percurso das fragatas era pelos rios do Sono e da Amnésia. Infelizmente não havia nada melhor que se pudesse fazer por aquelas crianças. Se fosse possível submetê-las a exames de sua natureza interior, as radiografias de suas emoções e pensamentos revelariam almas brutalmente despedaçadas em cacos de todos os tamanhos e cores, misturados caoticamente em um corpinho infantil. Na Terra, essas crianças poderiam até fazer atrocidades, porém todo o temor, aversão e até ódio que podiam despertar, era resultado de sua loucura íntima a explodir no meio de pessoas a quem esses meninos e meninas eram incapazes de compreender e respeitar.
Quase nenhuma delas chega à fase adulta.
Entendi então que as fragatas aportam sempre após a entrada das outras crianças, para que nós, barqueiros, obrigados a responder a perguntas, não constranjamos os pequenos com reflexões mais tristes do que são acostumados a ter.
Deitei-me no barco e inspirei profundamente. Porém, dessa vez, comovido pela história dos passageiros das fragatas, desejei com todo o meu coração e pensamento que aqueles caquinhos pudessem se juntar pouco a pouco, fazendo-os sonhar como uma criança deve sonhar, desejar como uma criança deve desejar e pensar como só as crianças sabem pensar.
Os tios anjinhos devem saber o motivo de nosso mundo ter tanta dor em suas infinitas variedades, certamente eles sabem. O que posso eu, um simples barqueiro compreender sobre as leis que tornam o Cosmos tão contraditoriamente terrível e sublime?
Após alguns minutos, algumas lágrimas me vieram ternas aos olhos. Abri-os e reparei que se formara uma energia luminosa sobre o meu peito. Aquela força irradiante foi se elevando e indo em direção à fragata. Levantei-me no barco para me certificar de seu percurso e - mais um motivo para me espantar – luzes arroxeadas semelhantes saíam dos milhares de barquinhos aportados na costa.
Quando pensei em me envergonhar de minhas próprias dores - com toda certeza bem irrelevantes diante do que passavam aquelas crianças inconscientes – lembrei-me de mais um ensinamento da Comunidade do Sol. Nela, aprendemos que dores não devem ser comparadas, devem ser respeitadas, cuidadas cada uma em sua peculiaridade, recebendo toda a compaixão possível, todo o amor. Tudo o mais, além de não ajudar, prejudica.
Já não conseguiria voltar a deitar no barco. Resolvi contemplar o espetáculo celeste, as nebulosas, os brilhos ininterruptos das estrelas, o caminho solitário dos planetas e a silenciosa sinfonia de uma minúscula parte do universo a qual meus olhos me permitiam divisar.
Quando dei por mim, vinham as meninas animadamente da comunidade cheias de novidades e mais uma história.
Lis foi a primeira a entrar no barco:
- Tio, sabia que a raiva pode ser nossa aliada?
Aurora complementou:
- A indignação também, Lis.
Beatriz tentava explicar à Luísa o significado dessa última palavra.
- Meninas, não estão se esquecendo de nada? – exclamou João Pedro já com Marcos.
- Ahhh, fique Sol, João!!
- Fiquem Sol, meninas!!

Soltamos as amarras. Desceríamos pelos rios da Imaginação, depois pelo da Esperança e, por fim, do Aconchego.

Próximo capítulo: O pequeno Gama

domingo, 5 de março de 2017

Comunidade do Sol - cap. 7: Kleiner Ludwig

Kleiner Ludwig

Na noite seguinte nos encontramos. As meninas vieram chorosas, algo as havia magoado bastante. Do que se tratava, eu não poderia saber a não ser que me contassem. Portanto, não soube.
No entanto, apesar do clima pouco propício à conversa, o efeito da viagem era sempre salutar sobre o ânimo das crianças, com elas não era diferente. Foi então que, passados alguns minutos, Beatriz se lembrou de que me contaria a história de Kleiner Ludwig, uma história inclusive conhecida e documentada na Terra. A versão original, entretanto, era acrescida de detalhes unicamente conhecidos na Comunidade do Sol.
Quem se atentar aos detalhes do que vou relatar – não com a mesma empolgação com que me contou minha tripulação - certamente reconhecerá a figura histórica de kleiner Ludwig, que, em português, convém chamar Luisinho.
A grande questão de Luisinho e o que o salvaria, de fato, era o esforço de não confundir a maldade com o meio pelo qual ele sentira seus efeitos. Ele precisou distinguir as primeiras e intensas impressões negativas - deixadas por um grande mal - do instrumento que, aparentemente cruel, seria literalmente seu barco de salvação para a vida até a idade avançada.
Luisinho nascera numa pequenina cidade alemã em 1770. Seu avô, um músico respeitado, apesar de não aceitar bem o casamento dos pais do menino, amava o neto e se dispôs a iniciá-lo também na carreira musical. Sabia que, naquela época, se o menino tivesse a profissão de músico e fosse tutelado por alguma família nobre, teria uma vida mais tranquila e livre de vicissitudes, ou seja, das dificuldades próprias ao comum das pessoas.
Seu avô, também Ludwig, preocupara-se em garantir o mesmo ao pai de Luisinho, contudo uma dessas ocasiões cuja força pode determinar as tragédias de toda uma vida encontrou Johan, pai de Luís. Ele infelizmente deixou-se arrastar pelo alcoolismo e por todas as perturbações subsequentes. Assim, o avô de Luisinho tornou-se não somente uma espécie de mentor como também protetor do menino.
Contudo, esse estado de coisas não durou mais do que os três primeiros anos de vida de kleiner Ludwig. Até então, o velho homem o colocava no colo e conduzia seus dedinhos sobre o teclado do imenso órgão da igreja da cidade de Bonn. O garoto aprendia com certa velocidade a identificar as notas e os movimentos sobre as teclas. Compreendia também - claro que à sua maneira de criança - que existiam símbolos que poderiam ser decodificados e transformados em elaboradas músicas, capazes de fazer toda a igreja calar e entrar em um estado superior de contemplação: eram as partituras às quais o avô devotava especial carinho. O velho Ludwig com toda certeza era um homem especial na cidade, pois tinha esse poder de manipular os sons e retirar as pessoas mais rudes das preocupações corriqueiras e do senso trágico que a vida às vezes nos impõe. Esse fenômeno costumava ocorrer aos domingos e nas grandes missas da cidade.
Sim, Luisinho não contava mais do que três anos quando o avô faleceu. Porém, a música já era parte de sua vida e de sua própria respiração.
No dia do enterro do avô, quando Luisinho percebeu que esse homem não se levantaria mais para abraçá-lo e beijá-lo nas faces rosadas, nem acariciaria seus cabelos, nem tampouco o faria sentir a vibração sublime que emana de todas as notas quando convocadas a elevar o espírito humano aos céus onde habitam os anjos, o menino foi atraído ao barquinho que o conduziria à Comunidade do Sol. Dali por diante não foram poucas as visitas de kleiner Ludwig à cidade iluminada e cristalina.
A bebida constantemente cobrava de Johan, seu pai, a sensibilidade, o compromisso profissional e familiar, bem como a razão. Para agravar a situação, à época corria a fama de um músico excepcional, o jovem Mozart, que aos 5 anos já tinha suas primeiras composições ao piano reconhecidas na cidade austríaca de Viena. Ter uma criança prodígio na família poderia significar uma relevante ascensão social, uma família real, por exemplo, poderia garantir ótimos benefícios à criança e aos pais dela.
Assim pensando, Johan resolveu submeter o menino a um treinamento intenso que talvez nem mesmo um músico profissional adulto estivesse disposto a impor-se. O garoto ficava trancado com um piano cheio de tarefas, treinando a agilidade das mãos e decodificando escalas em partituras, para que pudesse tocá-las de cor. Primeiro as escalas, depois as músicas religiosas, bem como as canções mais populares na corte.  
Foi um regime que lhe roubou a primeira infância e até a oportunidade de aprender a escrever corretamente e a fazer contas com boa desenvoltura.
Naturalmente, Luisinho começou a desenvolver aversão pelo piano e pela música. Sabia que ambos não eram cruéis, mas como gostar deles uma vez que era por meio do piano e das canções que sua vida parecia transformar-se em um verdadeiro martírio?
Durante as noites, ele chorava amaldiçoando partituras, pianos e violinos. Contudo, sempre o esperava um barqueiro para levá-lo para bem longe daquele sofrimento.
Certa vez, Johan chegou embriagado ao quarto do menino e acordou-o para que treinasse ainda mais. Levado ao piano em lágrimas, kleiner Ludwig dedilhava as teclas com agilidade e jurava a si mesmo que, assim que pudesse, não permitiria mais a seu pai obrigá-lo a coisa alguma.
Naquela madrugada, quando finalmente encostou a pequena cabeça ao travesseiro, começou a devanear: “e se eu desse um jeito de quebrar os meus próprios dedos para que depois ficassem tortos, o que ele faria?”; “e se eu me atirasse no rio, o que ele faria?”.
Seus pensamentos eram de fato muito tristes para qualquer pessoa, quanto mais para uma criança.
Foi exatamente nessa ocasião que, ao ser levado à Comunidade do Sol, ele foi conduzido a uma sala especial em que estavam um tio anjinho e um piano. Ele chegara sem memória do que havia ocorrido há pouco, o Rio da Amnésia tinha feito bem esse trabalho.
Era importante que estivesse ali vivendo intensamente o presente.
Na época, ele contava 6 anos.
O tio anjinho o abraçou e sorriu:
- Kleiner Ludwig, você é um ótimo garoto, uma grande inspiração para todos nós da comunidade.
- Queríamos muito que você soubesse que a maldade não está nas coisas e que, por pior que pareça, às vezes o mal trabalha para o bem.
O tio anjinho então colocou-o deitado sobre a cauda do piano e pediu que fechasse os olhos de modo a sentir em todo o corpo a vibração da música.
- Veja, kleiner Ludwig, um breve instante do futuro.
A criatura angelical começou a dedilhar lentamente o piano, era uma sonata cheia de delicadeza e amor. O peito de Luisinho foi se preenchendo de música e se iluminando como um pequeno sol rosado. A luz foi se espalhando para o resto do corpo suavemente. Seus olhos começaram a lacrimejar.
De repente, a cabeça, o centro entre os olhos, passou a irradiar também, e Luisinho se viu pairando no alto da sala. Esta transformava-se aos poucos em um lindo e iluminado salão de concerto. A música que o menino ouvia agora era completamente diversa da sonata, era uma harmonia grandiosa, protagonizada por um coro de vozes e acompanhada por todos os tipos de instrumento de uma orquestra. A plateia estava absorta, totalmente arrebatada pela genialidade da composição. Não era raro ver pessoas levando as mãos ao peito comovidas. Kleiner Ludwig podia testemunhar o poder de sua arte décadas adiante. Reconheceu-se então em um homem de cabelos já grisalhos que, ao fim da apresentação, era ovacionado com gritos de “bravo”, “bravo”, bravo!!”.
Reconheceu-se também um pouco surdo e, em seu pensamento de menino, refletiu: “como é grande o músico que quase sem ouvir pode compor uma sinfonia tão poderosa, cheia de beleza e alma”. Não percebeu, no entanto, que se espantava consigo mesmo.
Naquele instante, sentiu que a maldade não estava no piano, no violino ou na música. A maldade era uma entidade estranha às coisas, mas que se apoderava às vezes delas.
Naquela semana, quando o músico da igreja teve de faltar à missa devido a um mal-estar súbito, o pequeno Luís foi chamado às pressas para substituí-lo. No momento em que estava prestes a tocar, o silêncio da igreja se tornou profundo e indestrutível. Ninguém tinha autoridade para rompê-lo, exceto Luís. E Luís abraçou o silêncio com o coração, deixando vir pelas pontas dos dedos as notas que levariam as preces dos mortais aos anjos das mais altas hierarquias do céu. Sentiu o poder que um dia fora de seu avô e que a música agora lhe concedia. Tornou-se um barqueiro das súplicas, dos agradecimentos e dos louvores daquela manhã na cidade de Bonn.
Foi a vida de Ludwig marcada por milhares de momentos como esse. Sua infância continuou difícil, perdeu irmãos e, aos dezesseis, teve de assumir as responsabilidades de um adulto na família. Já não tinha nem pai nem mãe. A fase adulta também não lhe garantiu uma existência plena e feliz, contudo a arte, apresentada pelo avô e tornada instrumento torturante pelo pai, foi, segundo o próprio Ludwig, seu bote de salvação para a vida, seu único e grande esteio para se agarrar com força e ímpeto à existência.
Nessa altura da história, as meninas já haviam se esquecido das mazelas do dia. João Pedro sorria do outro barco e acenava para elas. Via-se o portal da comunidade em todo seu esplendor.
- E aí, meninas, tudo Sol!
- Tudo Sol, João, e você? – adiantou-se Lis.

A noite estava só começando.

Próximo capítulo: A raiva e a indignação: aliadas?

Comunidade do Sol - Cap. 6: A maldade não está nas coisas


A maldade não está nas coisas

Maravilhados, aportamos o barquinho na costa. Bem próximo a nós, chegava outra pequenina embarcação. Nela estava um menino de seus 10 anos. Como vim a saber, chamava-se João Pedro.
João estava animado, parecia que vinha ali com certa frequência. Saiu mancando e um pouco encurvado do barco. Sem nenhuma timidez, cumprimentou a mim e as meninas. Ajudou-as a descer sobre as areias fofas do litoral da Comunidade do Sol. Autoproclamou-se o guia e, como tal, conduziu-as em descontraída conversação até o portal de recepção da luminosa cidade. Tão entretidas estavam as meninas de minha tripulação que simplesmente não perceberam que eu não seguia com elas.
Vendo-as se misturar na multidão de crianças, desejei profundamente que gravassem em cada fibra do coração e do pensamento as maravilhosas impressões que certamente teriam em breve.
Depois, sentando-me no barco, olhei para o barqueiro que trouxera o João. Que felicidade! Mais uma surpresa! Era Marcos, o bom e velho Marquinhos, companheiro de comunidade. Quanto tempo se passara desde o momento em que nos vimos pela primeira vez e formamos uma grande amizade.
Marquinhos chegara à comunidade na mesma época que eu. Ele tinha 7 anos. Sua conversa era algo incomum, pois desde pequeno adorava astronomia. Para ele, então, voltar à cidade celeste da Comunidade do Sol deveria ser um duplo prazer. De onde estávamos, o céu se via quase em todos os lados, com um brilho e vigor muito mais intenso do que se pode testemunhar de qualquer outro ponto da Terra.
Ele me viu também.
Trocamos o aceno da comunidade e sorrimos vibrantes.
Infelizmente não éramos autorizados a descer das embarcações nem a conversar. Ser barqueiro também tinha seu ônus. Desse modo, era possível garantir a confidencialidade sobre a nossa tripulação. Restava-nos, portanto, somente o direito de deitar, fechar os olhos e inspirar profundamente. E os leitores podem crer que essa era uma experiência tão revigorante por causa daqueles ares que não seria difícil de acreditar que um moribundo com uma oportunidade semelhante poderia ter prolongada sua vida em alguns anos. Se o universo tinha um coração, inspirar e fechar os olhos naquele lugar era fundir-se no centro de emanação amorosa do Cosmos.
Quantas horas passei naquele estado é difícil dizer. Na verdade, nem é fato importante. O que vale a pena saber foi relatado pelas meninas que, ao balançarem o barco, fizeram-me levantar e me preparar para a viagem de volta.
Chegaram animadas, agora todas vestidas com a camiseta que ostentava em seu centro e mangas o símbolo reluzente do sol. Comentavam suas impressões e despediam-se de João Pedro com o aceno aprendido na comunidade.
- Fique Sol, João! – suas vozes se revezaram.
- Fiquem Sol, meninas! Adiante sempre!! – respondeu o bem humorado João.
 A euforia era geral.
Uma vez desamarrado o barco, elas se sentaram e, em silêncio, voltaram-se para a popa, de um modo que pudessem enxergar plenamente a entrada da Comunidade do Sol que se distanciava pouco a pouco.
Era um silêncio embebido em saudade.
Sinto que suas cabecinhas estavam a toda. Por isso, enquanto entrávamos no Rio da Esperança, seus olhos se fecharam, e elas começaram a se deixar levar pelo perfume das flores que subiam de todo leito das águas.
Mais adiante, no Rio da Paciência, finalmente Beatriz rompeu o silêncio e veio conversar comigo, talvez para afastar um pouco o tédio que o rio inspirava. Na verdade, a calmaria daquelas águas se destinava a exercitar a capacidade de se apaziguarem as emoções de modo a fazer que os pensamentos ficassem mais lúcidos.
- Tio, o João Pedro é muito legal. Pena que boa parte do percurso que ele faz para chegar à comunidade é pelo Rio da Amnésia, então ele não sabe falar muito de si. Apesar disso, ele não se esquece de nada da Comunidade do Sol. Foi um verdadeiro guia para gente.
- É tão lindo lá, eu nem me lembrava. Passado o portal, recebemos nossas novas roupas da comunidade. Até eu ganhei uma nova camiseta. Cada uma recebeu uma bolsinha com o emblema da cidade juntamente com o manual do frequentador. Deram também uma credencial para cada uma de nós, com uma foto, com os nossos nomes e com uma palavra sobre a qual devemos nos concentrar e refletir. A minha foi CONSCIÊNCIA, a da Aurora foi ESPERANÇA, a da Lis foi PRUDÊNCIA e a da Luísa foi RESPONSABILIDADE. Nisso, a menorzinha me mostrou a credencial dela, sendo seguida pelas demais.
- Parece tudo de vidro lá, tio barqueiro. – relatou Aurora.
- É... são várias pirâmides e prédios que parecem raios de sol. – complementou Lis.
- A tia anjinha explicou, Lis, são obeliscos. – esclareceu Beatriz.
Feitas as observações, vieram-me imediatamente imagens de minha primeira visita à comunidade. Certamente a delas não tinha sido muito diferente. É muito provável que primeiro tenham dado uma volta panorâmica pelos céus da Comunidade do Sol para enxergarem todas as construções bem de cima.
O passeio é de fato inesquecível e ocorre por meio de um disco cuja propulsão é silenciosa e sutil; do centro da comunidade, ele sobe em linha reta como um balão até ganhar uma altitude enorme. Lá de cima então se vê toda a cidade, circular, muito semelhante ao centro de um girassol. Os obeliscos e pirâmides parecem, do alto, com as pequenas flores bem unidas como penugens que se veem também no centro da mesma imensa flor. As pétalas grandiosas que circundam a região central são os jardins que levam aos os portos de acesso à comunidade. Na ponta de cada pétala estão as praias onde aportam todas as noites milhares de embarcações como as nossas. Toda a cidade reluz com seus prédios vítreos. Quando o disco desce lentamente, as fontes de água e os jardins entre todos os edifícios enchem os olhos de contentamento.
Uma comparação muito aquém do ideal seria dizer que essa cidade se assemelha a um girassol irradiante, deitado sobre um imenso oceano cujas bordas se dividem em infinitos braços de água que descem suavemente sobre a Terra.
Todo o lugar foi projetado por meio de linhas simples e elegantes que se interagem harmoniosamente a exemplo do que testemunhamos ao observarmos as flores terrestres.
Sem dúvida, a experiência de estar imerso na beleza de um local daqueles é extremamente apaziguadora e transcendente. É realmente uma pena não podermos lembrar da comunidade quando acordamos.
Beatriz então se empolgou em comentar sobre o primeiro curso que fizera no Obelisco das Aparências. Contou-me animadamente que a lição aprendida versou a respeito de uma lei universal: “a maldade não está nas coisas”. Ela ressaltou que apesar disso, é difícil às vezes não associar o mal recebido com o instrumento que o causou. Depois ela me explicou que o instrumento também pode ser uma pessoa, e tudo fica pior, nas palavras dela, “é ainda mais difícil não associar o mal recebido com a pessoa que o causou”.
Enquanto ela começou a me explicar essa complexa ideia, as outras meninas tiraram das bolsinhas os desenhos que haviam feito sobre o tema. A Lis e a Aurora também participaram de brincadeiras que se aproveitavam da gravidade diferente da cidade: ao tomarem um grande impulso para correr, seus corpos saíam levemente do chão por alguns minutos. Assim, participaram de jogos no Ginásio Piramidal, onde havia circuitos suspensos de todos os tipos, simulando perigos e perseguições, sempre superados pelos participantes – não sem muito esforço, é claro.
A Luísa, sendo muito pequena para participar desse tipo de aventura, foi levada para a Pirâmide das Ideias em Suspensão. Lá ela desenhava com a ponta dos dedos no ar. Com o pensamento, escolhia as cores e a espessura dos traços utilizados para desenhar aquilo que desejasse. Suas pequenas obras de arte ficavam ali flutuando em três dimensões, prontas para se apresentarem a ela assim que voltasse para a pirâmide. Ela também podia contemplar os desenhos feitos por outros coleguinhas e pelos tios anjinhos que lhes ensinavam a dar corpo às ideias.
Infelizmente, Beatriz não conseguiu terminar de me explicar a respeito da lei universal sobre a qual aprendera. Ia me contar a história de Kleiner Ludwig para ilustrar esse importante ensinamento, mas quando estava prestes a fazê-lo, o barquinho praticamente tocou o pequeno porto no telhado do sobradinho amarelo de onde havíamos partido.
- Não tem problema, fica para a próxima, tio barqueiro. Eu vou explicar tudo direitinho!
Elas desceram do barco e foram pisando sem medo as telhas. Pararam e olharam para mim sem saber o que fazer.
- E agora – perguntou Lis – como a gente faz para acordar?
- É só pular. – respondi sorrindo. Nada de mal pode acontecer a vocês.
Fiz então o sinal da comunidade juntamente com a despedida.
- Fiquem Sol, meninas! Amanhã estarei aqui para uma nova viagem.
- Fique Sol, tio barqueiro! – falaram com a voz um pouco trêmula, possivelmente por causa do medo de terem de pular.
Deram-se as mãos e, conduzidas por Beatriz, lançaram-se no ar, sumindo num piscar de olhos.
Certamente, como é bastante comum, acordaram com a sensação de que estavam caindo.

Eu mesmo acordei assim, após dar o meu pulo do barco.


Próximo capítulo: Kleiner Ludwig



quinta-feira, 2 de março de 2017

Comunidade do Sol - cap. 5: Tio, o que são aqueles navios?

Tio, o que são aqueles navios?

A breve viagem começou bem. Como tudo era novidade para as meninas, seus olhinhos se voltaram à paisagem, procurando absorver todos os detalhes. Seguíamos pelo Rio do Aconchego cujas emanações garantiam ainda maior tranquilidade ao ânimo das garotas, sobretudo ao de Lis, a mais agitada.
Beatriz veio para perto de mim e sentou-se de modo que pudesse contemplar o percurso dos outros rios a correr - às vezes em paralelo, às vezes por baixo, às vezes por cima do curso em que estávamos - serpenteando em todas as direções. Percebi que, aos poucos, algumas de suas memórias de viagens anteriores estavam voltando.
De repente, a pequena Luísa foi para um canto do barco e apontou para dois rios mais distantes.
- Tio, o que são aqueles navios?
Realmente a cena era espetacular. Embora o manual mencionasse tanto os rios quanto aquelas qualidades de embarcações, era a primeira vez que realmente os via. Todos ficamos absortos com a beleza do imenso barco egípcio e com a inusitada e rústica embarcação viking decorada de escudos.  
Seguiam por rios paralelos. A nau egípcia ia pelo Rio Áureo.
Conforme explicava o manual e relatei às meninas na ocasião, o Rio Dourado, como também é conhecido, tem propriedades muitíssimo especiais. As emanações de suas águas servem para afetar diretamente o corpo das crianças que vêm por elas. São crianças cujo tratamento de saúde deixa seus corpinhos muito doloridos, muito sensíveis, fazendo que fiquem desanimadas e chorosas. Para que consigam chegar à Comunidade do Sol sem acordar com as dores, o rio garante a elas algumas horas de repouso profundo para o corpo e lucidez para a alma, a fim de aproveitarem a estada na Comunidade do Sol. A embarcação egípcia conta com alguns barqueiros vestidos a caráter, como aqueles que percorriam o rio Nilo na Antiguidade. As crianças, quase todas carequinhas, antes de começarem a viagem, são vestidas como faraós ou cleópatras, sendo devidamente maquiadas ao estilo do velho Egito. É sempre uma situação festiva.
Expliquei às minhas queridas tripulantes que são barcos grandes assim que estão presos todas as noites no alto de hospitais infantis aguardando seus passageiros.
- Todo Hospital de Câncer tem um, tio? – indagou Beatriz.
- O manual diz que até mais de um. Mas crianças que passam por cirurgias e outros tratamentos delicados também vão à comunidade por meio desses lindos barcos. – esclareci.
Porém, faltava ainda explicar sobre a embarcação viking. Ela seguia pelas águas superficialmente geladas do Rio da Íntima Força. Todas as crianças, a exemplo do que ocorria no outro imenso barco, estavam a caráter. Iam como verdadeiros guerreiros e guerreiras dos mares gelados do norte.
O Rio da Íntima Força tem um aspecto gelado, inclusive em suas águas veem-se crostas de gelo. Contudo, as crianças ali não passam frio, porque as irradiações do rio são quentes e ternas. Como esclarece o manual, é um rio para crianças que têm um percurso muito difícil pela vida, vivendo anos em instituições sem o carinho de pais ou familiares. Elas navegam por um rio de características contraditórias durante um trecho da viagem, para desenvolverem a esperança de que em meio ao que se testemunha de ruim e doloroso na vida talvez possa haver algo de bom e que vale a pena conhecer e viver. Algumas, quando acordam, conseguem guardar uma sensação de que serão bem-sucedidas na guerra, que estão armadas para isso e que não estão sós.
Há variações dessa embarcação. Às vezes o imenso barco é substituído por canoas polinésias em que as crianças são maquiadas com tatuagens de guerra, outras vezes elas vêm como corsários franceses, ingleses ou holandeses, e ainda em certas circunstâncias têm o corpo todo pintado de preto como os antigos guerreiros zulus.
Passam por outros rios também, principalmente o Rio da Esperança.
Ao fim da explicação, Beatriz me fez uma pergunta que eu mesmo já me fiz inúmeras vezes:
- É justo que seja assim? – ela se referia à vida daquelas crianças.
A lógica da observação tem o poder de responder por si mesma.
- Se o mundo fosse justo, a Comunidade do Sol não precisaria existir. – ponderei.
- A Justiça, ao que parece, não se trata de uma condição abstrata das coisas, mas de uma escolha íntima que diz respeito a cada pessoa. Surge como um sentimento, o que alguns chamam de senso de justiça, e pode ou não se transformar em ato. Assim, só podemos dizer que existe justiça nos grupos humanos em que todos cultivam, ao mesmo tempo, o senso de justiça e os atos justos. A humanidade ainda está muito longe disso.
- Porém, se não existe a Justiça como a desejamos, existem espécies de compensações, que frequentemente nascem com a observação das injustiças. Um bom exemplo é a compaixão, outro é a misericórdia, e há também os nobres ideais - que levam pessoas a agir em favor de causas coletivas. A Comunidade do Sol surgiu a partir da combinação desses três elementos principais. – enquanto refletia sobre o assunto, contemplava os primeiros raios de sol surgidos no horizonte escuro da Terra. Já estávamos numa altura elevada.
Continuei a devanear com o olhar perdido nos confins do espaço:
- Beatriz, a pergunta que sempre me faço desde que cheguei a essa conclusão é: nós conseguimos ser justos o tempo todo, até nas mínimas coisas?
A pergunta era retórica, ou seja, não exigia resposta. No entanto, de qualquer forma, alguma reação era esperada. Como Beatriz não respondeu, voltei-me a ela.
Meu Deus, que besteira eu tinha feito. Logo em minha primeira missão... Aquilo era inadmissível. Tanto Beatriz quanto as outras irmãs estavam deitadas no barco. Eu me descuidara da rota, o barco entrara pelas correntes do Rio do Sono.
O correto era que estivéssemos no Rio Eidos para que se distraíssem com as insólitas imagens de nuvens cantoras, de pássaros-preguiça – que voam dormindo - e de outros seres que se veem ou nas águas do rio ou no percurso dele.
Apanhei o leme com força e tratei de corrigir a rota. Infelizmente, por causa de meu deslize, a tripulação não pôde se maravilhar durante muito tempo com as situações inesperadas propostas pelo Rio da Imaginação. Quando acordaram, já estávamos quase no fim da viagem. Foram poucos minutos até chegar ao grande portal da Comunidade do Sol. Contudo, tenho certeza de que nada que vissem nas águas criativas há pouco navegadas estaria à altura daquela magnífica visão do portal dourado da comunidade.
As meninas ficaram sem ar, completamente estupefatas. Os pequeninos portos estavam quase todos ocupados com barquinhos semelhantes ao nosso. Mais distante da margem a que nos dirigíamos, viam-se também os navios, até mesmo caravelas.
Era tudo muito lindo e intenso. Por mais que chegar àquele lugar pudesse se tornar uma rotina, não havia como pensar na entrada da Comunidade do Sol como algo corriqueiro. Era sempre uma ocasião especial, que enchia o coração dos barqueiros e principalmente das crianças com uma sensação de plenitude e êxtase.
Como era bom ver os rostinhos de minha tripulação completamente absorvidos por sua primeira visão da Comunidade do Sol ou, como gosto de chamar metaforicamente, por uma das faces da Compaixão. Não havia conseguido ir além na conversa com Beatriz, mas queria que ela pensasse sobre isso. A face da Justiça é bela e bem delineada, é altiva e quase orgulhosa. Diferentemente do modo como a retratam no mundo, ela não possui uma venda sobre os olhos, porque ela, sendo justa, sabe exatamente para onde olhar, o que perscrutar e o que deve ser julgado. Ela inspira respeito e veneração.
Porém, a face da Compaixão não se contempla com o pensamento e, sim, com as emoções mais puras. Quem desejar olhá-la com a razão se confunde, se perde em meio a tentativas de explicar o fenômeno descrito analiticamente pelos olhos. A face da Compaixão provoca um movimento intenso no âmago da alma. Aquilo que os olhos não conseguem descrever para a razão é devolvido ao mundo em lágrimas. A Compaixão leva-nos a sacrificar diante de seu templo as ideias mais mesquinhas e as obsessões mais arraigadas. A compensação que ela produz pela ausência da Justiça é algo talvez superior e sublime, que nos fez a todos, no barquinho, chorarmos e nos abraçarmos. Todas as dores ali simplesmente foram esquecidas e sentíamos que existe de fato um propósito, um sentido oculto e grandioso para a vida.
É claro que eu, quando menino, não conseguiria formular as ideias desse modo, mas as potentes impressões que a contemplação e as experiências na Comunidade do Sol firmavam em nossa alma despertavam-nos uma intensa vontade de viver e disposição para superar terríveis dificuldades próprias às circunstâncias dolorosas experimentadas no cotidiano.
Certamente as meninas não saberiam explicar o que sentiam, mas era algo que lhes inundava a alma e poderia ser sentido outras vezes ao longo da vida.
Beatriz exclamou:

- Tio, eu me lembro! Nossa, como é lindo!! É verdade, então!! Faz tanto tempo!!

Próximo capítulo: A maldade não está nas coisas

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Comunidade do Sol - cap. 4: O encontro com a tripulação

O encontro com a tripulação

                Na noite seguinte fui dormir cedo.
É bom que o leitor saiba que, enquanto acordados, não fazemos a menor ideia do que se passa durante o sono. Tanto para os barqueiros quanto para as crianças, de modo geral, não ficam memórias das experiências da viagem à Comunidade do Sol. Restam-nos, no entanto, certas sensações e inspirações, algo que os filósofos da antiguidade chamavam reminiscências. No período do sono, as memórias voltam.
                Então, naturalmente, a leitora e o leitor mais crítico perguntarão: Como você pôde contar uma história da qual não se lembra, já que estava acordado ao escrevê-la?
                Bom, de fato, eles têm toda a razão, o questionamento é válido. Contudo, não me furtarei à resposta: ela está no último capítulo. Os mais ansiosos podem pular boa parte das páginas seguintes e lá encontrar não somente essa como outras revelações importantes, porém eu recomendo paciência. Coloquemos as ideias assim: o gosto de se chegar por lances de escada ao alto de um edifício não é só observar e compreender os desenhos das ruas de uma cidade, mas deixar que a expectativa mais amadurecida e as pernas cansadas tornem a contemplação dos olhos mais intensa e poderosa.
                Entretanto, concedo a você essa liberdade, usufruir dela ou não é a troca de um presente prazeroso por um futuro que poderia ser mais prazeroso ainda – um privilégio que não faz parte das escolhas de quem é conduzido à Comunidade do Sol.
                Voltemos aos fatos.
                Adormeci mais cedo naquela noite. Meu barquinho estava em outro porto, e eu já estava dentro dele com minha indumentária, meu distintivo, meu mapa e bússola. O Plano de Salvamento e o manual do navegante também estavam comigo. Apesar disso, o porto me era desconhecido. Os nós do barco atavam-no ao telhado de um sobradinho amarelo. Aproveitei-me da solidão momentânea para me situar melhor. Usando meus instrumentos, percebi que estava a algumas centenas de quilômetros de meu querido sítio.
                Tão logo cheguei a essa constatação, ouvi um chorinho bem sentido e abafado. Minha primeira tripulante foi aparecendo no barco. Era a pequena Luísa, com seus 5 aninhos de experiência terrestre. Apareceu de pijama, abraçada com um ursinho de pelúcia. Acreditando estar em um entre os muitos sonhos que já tivera, olhou para situação com naturalidade. Interessou-se pelo emblema do sol em minha roupa e pelo fato de o barco estar flutuando acima de sua casa. Acolhi a pequena Luísa com um sorriso. Poucos instantes após sua chegada, o choro já havia sido substituído pela curiosidade.
                De acordo com o manual, o barqueiro não deveria fazer perguntas sobre os motivos das angústias e tristezas das crianças, sua maneira de conversar deveria sempre ser cortês, demonstrando disposição para ouvir e responder a perguntas que pudesse esclarecer.
                Luísa já sorria maravilhada.
                - 62, 63, 64, 65, 66, 67!
                Agora quem chegava era a Aurora. E eu que achava que contar carneirinhos para dormir era um mito. A pequena Aurora, com seus 10 aninhos, entrara plenamente no barco ao contar seu sexagésimo sexto carneiro. Sua feição era um pouquinho sofrida, estava fazendo a contagem concentrada, como quem se empenhasse para dormir como uma forma de se esquecer de alguma coisa que a afligia. O que ela desconhecia era que essa vontade de dormir seria extremamente recompensada.
                Quando se viu no barco, mostrou-se confusa. Mais desconfiada que Luísa, projetou-se em direção à irmã menor, abraçando-a no canto do barco. Percebendo que a pequenina estava calma, acabou se tranquilizando também. Não me endereçou nenhuma palavra.
Como vim a perceber, era a mais tímida entre as irmãs. De qualquer forma, a novidade das circunstâncias contava a meu favor, não precisou muito para que Aurora se acomodasse menos receosa na embarcação.
Obviamente, da parte das duas tripulantes construía-se uma grande expectativa sobre a sucessão e desencadeamentos dos fatos: se estavam em um barco e diante de um barqueiro, a lógica lhes fazia crer que em algum momento a embarcação zarparia por caminhos desconhecidos até algum lugar bem diferente do que já haviam conhecido. Estavam certas.
                A vez da terceira tripulante finalmente chegara de modo inusitado. Lis entrou dando uma estrela. A pequena Lis, de 9 anos, tinha um estranho modo de cair no sono. Dessa vez, seu método literalmente a fez cair dentro do barco, pois entrou de mal jeito na embarcação, felizmente sem se machucar. Lis, para dormir, gostava de se imaginar em enredos olímpicos, realizando saltos e outras peripécias. Era um modo também eficiente de se esquecer de tudo para ter uma noite tranquila.
                Entre as irmãs, foi a que mais demonstrou empolgação. Destemidamente, veio conversar comigo. Já queria saber sobre como um barco pode flutuar, como funcionava o leme e, se eu deixasse, abriria o meu mapa, mexeria na bússola e até soltaria as amarras do barco. Coisa louca a energia dessa menina. Comecei a ficar preocupado; como acalmá-la?
                - E a Beatriz? – perguntou Aurora. Foi a primeira vez que ouvi sua voz.
                Antes que pudesse responder, a mais velha, com seus 14 anos, veio andando pelo telhado de um jeito desenvolto e mostrando-se, para minha surpresa, bem confortável com a situação, embora enxugasse algumas lágrimas.
                - Oi, tio! Dessa vez não é uma tia?
                Sua pergunta me deixou desconcertado. Foi aí que reparei que Beatriz usava uma espécie de camiseta com o símbolo do sol. Ela, diferente de suas irmãs, já fora em algum momento levada até a comunidade, possivelmente por uma barqueira. A camiseta da comunidade nós ganhávamos no primeiro dia de visita e vestíamos automaticamente logo que éramos atraídos pelo barco.
                - Não, Beatriz, hoje sou eu, um novo barqueiro. – Esforcei-me por soar natural.
                - Certo, garotas, antes de tudo e qualquer coisa, peço que se acomodem adequadamente no barco para eu fazer algumas prévias explicações muito, muito, muito importantes mesmo.
                Comecei a seguir o protocolo do manual.
                - Primeiro de tudo, meninas, vocês estão participando de uma missão de salvamento. É uma missão importantíssima e acontece com algumas crianças que realmente têm necessidade, como é o caso de vocês. Eu sou o barqueiro que vai conduzi-las em segurança até o destino de vocês, a Comunidade do Sol. Lá vocês verão, aprenderão e experimentarão situações muito fora do comum, muito diferentes mesmo. Vocês podem me chamar de Barqueiro, Tio barqueiro ou só Tio, como acharem melhor.
- Essa comunidade onde passarão a noite existe porque a vida de uma criança às vezes fica quase completamente insuportável. Porém, até os mais terríveis sofrimentos um dia têm de acabar, e a Comunidade do Sol foi feita como uma espécie de caminho paralelo da vida, para suavizar a dor e lembrar as crianças que lá chegam que o mundo não é só feito de dor e sofrimento. Bom, era isso que eu precisava dizer a vocês.
- Para deixarmos de papo e iniciarmos logo a viagem, é essencial que se acomodem, não coloquem as mãos nas beiras do barco e contemplem o caminho. Vocês são livres para fazer perguntas, que eu tentarei responder se tiver para elas uma resposta aceitável e verdadeira.
Fui em direção às amarras.
- Vamos nessa, meninas!
A animação tornou-se geral. Responderam em coro:
- Vamos!!
O sorriso e a alegria delas iluminaram o barco.
A corrente do Rio do Aconchego começou a puxar mais forte. Soltei finalmente as amarras e partimos!


 Próximo capítulo: Tio, o que são aqueles navios?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Fábula sobre o ensino público de baixa qualidade




Na fazenda de Trás-dos-Montes, galos eram bons padeiros. Esse era indiscutivelmente seu melhor e mais apreciado dom. Madrugadores, o ofício chamava-os naturalmente para meter-se diante do forno e preparar alimentos para toda granja e chiqueiro. Contudo, se tinham a destreza da alquimia necessária à produção de pães, o mesmo não se podia dizer da sorte ou aptidão para empreender sua própria padaria. Assim, ainda que houvesse demanda diária e desejosa dos pães que poderiam oferecer, não possuindo padaria, os galos viam-se de mãos atadas.

Por outro lado, no chiqueiro havia um porco, mestre na arte demagógica e, apesar dos métodos questionáveis, zeloso administrador. Se estava na natureza dos galos fazer pães, na do porco em questão estava tocar um negócio e explorar galos. Desse modo, o destino - que os colocara na mesma fazenda - inspirou neles a ideia de partilhar o mesmo ramo de atividade. Em verdade, o porco nada tinha com o negócio de padarias, mas, reconhecendo a demanda, viu na atividade uma forma de se fazer famoso e respeitado. Ademais, com tantas pessoas envolvidas entre padeiros e clientes, certamente poderia tirar outras vantagens da rede de padarias que estava disposto a administrar. 

O porco convenceu o fazendeiro que ter padarias seria um bom negócio. Desse modo, surgiu o empreendimento a partir das articulações do astuto porco. Tudo iniciado, foi o porco ter com os galos.

Os padeiros, desejosos de viver de seu ofício natural, aceitaram trabalhar para a fazenda por intermédio do porco. Este ofereceu-lhes salário, condições de trabalho e clientela vasta. Os galos ficaram felizes. Assim, as aves madrugadoras começaram a fazer belos e saborosos pães. Todo o chiqueiro e granja ficaram jubilosos com a novidade e possibilidade de comerem alimento tão essencial à manutenção da vida.

Contudo, com o passar do tempo, os galos sentiram que seu pagamento não era justo, tampouco suas condições de trabalho na padaria. De qualquer modo, as leis de mercado da granja, do chiqueiro e da fazenda eram claras: era possível reclamar com o patrão porco, fazer greve ou demitir-se. Apesar disso, os galos enveredaram por caminho menos eficiente e mais tortuoso. Não reclamavam com o administrador das padarias, mas entre si. Eles, em grande quantidade, desgostosos, não buscaram fazer pacto com a clientela para pressionar o porco explorador, também não fizeram greve. Os galos - senhoras e senhores! - começaram a contentar-se em maldizer a vida, o porco, a padaria e os clientes.

Nesse estado de coisas, obviamente nada melhorou para eles. A insatisfação, no entanto, atingiu índices recordes nas pesquisas.

Não pediram demissão.

Assim, nem salário, nem condições de trabalho melhoraram.

Outro fenômeno, no entanto, aconteceu.

Como o desânimo tornou-se geral, os galos começaram a comprometer a qualidade dos pães. Pães que eram bem assados e consistentes passaram a ser entregues crus.

Ninguém aguenta pão cru.

A granja e o chiqueiro ficaram desgostosos e quiseram uma solução.

A população procurou os padeiros. Os padeiros culparam o porco. O porco, astuto, marcou uma audiência com a população e mostrou os fornos e padarias. Mostrou também que não deixava de pagar o salário dos galos - maior que o da média da clientela.

Todos viram:

- o forno era ruim, mas funcionava.
- as instalações eram precárias, mas úteis, assim como os ingredientes dos pães.
- o salário era baixo, mas o galo não morreria de fome nem corria o risco de ser demitido.
- a única coisa que cabia ao padeiro era fazer pães.

Uma lúcida galinha, então, deduziu e ponderou:

- Bom, minha gente, se o galo está insatisfeito, em parte é culpa do porco, mas, se o pão está cru, a culpa é somente do padeiro!

O porco riu-se; ela tinha razão.

Os galos não gostaram do comentário, mas, ainda assim, a galinha tinha razão.

Calaram a galinha com vaias. Chamaram-na de burguesa. Disseram que estava mancomunada com o porco para dizer uma barbaridade daquelas.

Houve discussão, falatório, acusações.

A reação foi tamanha, que a galinha chorou uma noite inteira e passou a pensar que talvez não estivesse certa; o mundo talvez se dividisse mesmo em porcos do Mal e padeiros do Bem.

O porco continuou a rir-se.

Os galos continuaram a servir pães crus.

A população?

A população acostumou-se a comer só as bordinhas ínfimas dos pães, única parte a esquentar um pouco no forno de modo a tornar suportável o alimento.

MORAL 1: Porcos não temem galos.

MORAL 2: Se há salário, forno, ingredientes, padaria e clientela, o pão cru é culpa do padeiro.

MORAL 3: A população não se compadece de padeiros, devido à MORAL 2.

MORAL 4: A população se acostuma com pães crus.

COMENTÁRIO: Porcos temeriam a população e os padeiros, mas, como existe a MORAL 1, 2, 3 e 4, porcos acham graça em tudo isso.




 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Comunidade do Sol - Cap. 3: Plano de Salvamento

 Plano de Salvamento

O Plano de Salvamento, juntamente com o manual do navegante, apresenta dados essenciais ao barqueiro. Nele encontram-se informações sobre as crianças a serem conduzidas à comunidade e sobre o caminho mais adequado, conforme o caso, para se chegar à Comunidade do Sol. Há também informações complementares sobre o funcionamento daquela cidade, seus propósitos e as condições gerais e variadas que envolvem as crianças que são noite após noite resgatadas. Em linhas gerais, as instruções são muito objetivas, assim como os esclarecimentos. Neste capítulo vou me ater ao que considerei mais relevante.

Primeiro: o tipo de salvamento não é convencional. A grande questão para a comunidade não é garantir a integridade física das crianças, pois isso está além de suas capacidades. Como está destacado no manual, essa é uma responsabilidade dos seres humanos em estado de vigília, ou seja, quando estão acordados. A Comunidade do Sol se responsabiliza por amparar-lhes o conjunto das emoções e pensamentos, o que convenientemente chamamos de alma. Assim, o grande propósito, o intuito sagrado dos membros dessa especial comunidade, é zelar pela alma dos pequeninos, fazendo todo o possível para evitar que se despedacem com a pressão das dificuldades e cruezas do mundo. Como dizem, um corpo saudável com uma alma em frangalhos corresponde a uma criança perdida e a um futuro adulto que sofre e faz sofrer; mas, por outro lado, ainda que o corpo esteja doente, com uma alma sã, haverá, no conjunto, uma criança Sol, capaz de irradiar esperança, entendimento, tolerância e paz, de modo a tornar-se um adulto íntegro, amoroso e capaz de inspirar positivamente as pessoas com quem conviver.

 No entanto, não há garantias de que os esforços da comunidade surtirão o resultado desejado. Há muitas, quase infinitas, variáveis no processo. Ocorrem, inclusive, ataques a barqueiros e às crianças quando as embarcações se dirigem à comunidade. Há também crianças que, apesar de toda a terapêutica empregada em seu favor, não encontram em si mesmas os recursos para superar as dificuldades que os adultos lhes impõem. É quando as feridas vão marcando suas almas de tal maneira que elas vão crescendo cheias de traumas, inseguranças, ódio e até com vontade de saltar do barco da vida.

Na Comunidade do Sol não fingimos que as histórias tristes não existem, nós as reconhecemos e as estudamos, pois esse é o único modo de minimizar seus danos e, em alguns casos felizes, prevenir que voltem a acontecer.

Algo curioso que só vim a saber como barqueiro diz respeito aos rios que circundam a Terra. Todos levam não só à Comunidade do Sol como também a outras comunidades, a exemplo da Comunidade da Lua Nova, para idosos, e a Comunidade de Vênus, para pais que perderam seus filhos.

Outro fato relevante é que um barqueiro não pode fazer seu percurso por um rio apenas. As orientações no Plano de Salvamento são para revezar-se entre os rios, pois cada um deles tem uma finalidade específica sobre a tripulação. Somente o barqueiro, graças à veste de que dispõe, é isento das influências das águas fluviais percorridas.

Só para que os leitores tenham um exemplo, existe o Rio dos Sonhos não Vividos. Jamais poderia transitar com crianças por suas águas, elas chegariam à Comunidade do Sol sofrendo de delírios.

Segundo o manual, crianças que passam por traumas de guerra ou violências muito profundas têm um roteiro muito triste, mas necessário. Seus barquinhos são conduzidos por apenas dois rios, o Rio da Amnésia - também chamado Rio do Esquecimento - e o Rio Morfético - popular Rio do Sono. Chegam à Comunidade do Sol completamente inconscientes e são levadas no colo pelos tios anjinhos que as enrolam em mantinhas iluminadas. Até onde sei, essas crianças ficam sendo embaladas durante toda a noite e são visitadas por outras crianças em melhor estado, que as beijam, lhes fazem carinhos e até contam histórias, ainda que, aparentemente, não sejam ouvidas. O retorno é por outro percurso. O barqueiro segue pelo Rio Spes por todo o caminho de volta, é o Rio da Esperança. 

O Rio das Horas é também muito interessante e só pode ser utilizado na volta. Sua função é desenvolver a sensação de que as horas de descanso físico são mais longas. O manual explica que, na época em que a escravidão era mais comum no mundo, as margens desse rio foram alargadas. Porém, atualmente ele ainda é muito usado.

O meu predileto, e que usarei bastante em minha missão, é o Rio Eidos, ou Rio das Ideias. Suas águas cristalinas são muito utilizadas pelos barqueiros que conduzem crianças. Nele se veem a nadar cangurus com asas, sorvetes que falam, golfinhos que fazem crochê, sapos samurais e toda sorte de coisas insólitas. Singrar suas águas ainda proporciona outra alegria, o rio é musical.

A finalidade do Rio Eidos é inspirar as crianças para, quando acordadas, uma vez que se vejam diante de situações muito inconvenientes das quais não tenham como fugir, possam recorrer à imaginação. Em outros casos, como na solidão e na tristeza, esse recurso também é de grande auxílio.

Como pude perceber, a hidrografia metaterrestre é vasta e com toda certeza deve haver tratados interessantíssimos sobre o tema, entretanto não nos percamos de nosso assunto principal, a minha missão. O Plano de Salvamento indicava os nomes de minha mais nova tripulação. Em uma escadinha crescente, eram elas três meninas e uma mocinha: Luísa, Lis, Aurora e Beatriz. Obviamente o caso delas é confidencial. Se eu não conseguisse guardar esse segredo, nem poderia me tornar barqueiro. O que posso revelar é que fiquei aliviado de meu percurso incluir rios muito variados, o que indicava que elas não precisariam ficar inconscientes nem tampouco tinham traumas físicos de violência. Acredito que um barqueiro inexperiente como eu nem poderia assumir uma responsabilidade como essa.

Na noite seguinte as encontraria pela primeira vez. Já imaginava a surpresa delas ao se virem lançadas em nosso barquinho de viagem. Queria muito conhecê-las e sabia que, certamente, me divertiria muito com elas. Faria o meu melhor para conduzi-las até a Comunidade do Sol em segurança.

Próximo capítulo: Encontro com a tripulação