terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Fábrica-Escola e o Mestre de Máquinas






Desde a Revolução Industrial, instaurou-se nos meios de produção a era da eficiência, uma mentalidade pragmática marcada pela ideia de que cada ser, inanimado ou não, deve possuir uma finalidade, um determinado desempenho e uma durabilidade a serem explorados ao máximo. Assim, operários tornaram-se peças de engrenagem, ou seja, pessoas foram reduzidas à sua capacidade de produção.

Mas quem nos interessa, caríssimos leitores, é uma outra peça, a que chamaremos "mestre de máquinas" e analisaremos em versão mais contemporânea.

O mestre de máquinas tem função estratégica no sistema. Isso porque ele detém perfeita noção acerca dos intentos do dono da fábrica e ao mesmo tempo compreende a complexidade do funcionamento do maquinário, de modo a fazê-lo desempenhar como esperado. No entanto, para isso, ele precisa ter o controle sobre tudo o que ocorre na fábrica, sobre cada operário, sobre cada máquina, sobre cada produto que sai na última esteira para ser empacotado, sobre cada engrenagem da engrenagem... Trabalho duro, trabalho árduo, trabalho essencial em uma fábrica.

Uma vez que traçamos um fraco esboço de quem seria essa peça-chave do sistema, vamos observar um caso peculiar em uma fábrica que trabalha com um produto muito especial e sensível: resultados no vestibular.

Os produtos, portanto, são aprovações e classificações em exames de ingresso em faculdades concorridas. Os operários são de dois tipos: por um lado, os alunos que devem atingir os resultados esperados, por outro, os professores, que devem elevar o desempenho desses alunos ao máximo.

O processo de produção é basicamente todo intelectual. Os testes são todos monitorados ao longo de pelo menos três anos; os resultados de todos os operários são medidos em tabelas para serem avaliados e reavaliados.

Como os leitores podem constatar, referimo-nos a um sistema realmente prodigioso, que permite averiguar os pontos sensíveis do processo para reformulá-los e superá-los.

Apesar do modelo praticamente infalível, há sim desafios. O perfeito desempenho dos operários conta com alguns entraves, como diferenças de aptidões - nem todo aluno responde igualmente ao processo de aprendizagem e provas -, conflito de interesses - nem todo aluno deseja fazer vestibular em instituições de renome -, além da vida particular do aluno, de seu perfil psicológico, de suas aspirações e de tudo aquilo que só diz respeito a ele.

Outra questão relevante são os professores, mas essa é menos desafiadora, já que boa parte desses operários ou concorda com o sistema e o reproduz com prazer, ou consente com o sistema por uma questão de sobrevivência.

Isso posto, vamos ao caso de um mestre de máquinas cuja prática ilustra tantos outros enredos semelhantes.

Esse mestre em questão, a exemplo de seus comuns, possui também sua sala de máquinas. Lá ele vigia todas as salas onde estão os operários.

Tudo o que desfavorece o desempenho intelectual deve ser suprimido; tudo... definitivamente tudo.

A forma aparentemente mais eficaz para isso é produzir a sensação de que todos os operários, um a um, estão sob ininterrupta vigilância. Nesse sentido, a tecnologia é pródiga em contribuições: câmeras coloridas de ótima definição em todas as salas de aula; o controle de todas as câmeras na sala do mestre de máquinas.

Todos na fábrica-escola se sentem sob o olhar do Grande Irmão ou na mira indefensável do Panóptico de Foucault - escolham a metáfora que melhor lhes aprouver - ou ambas.

No que concerne à primeira etapa do controle, ótimo, tudo se vê... mas onisciência envolve saber o que se diz também. 

Embora não haja microfones junto às câmeras, encontrou-se meio mais eficiente de saber o que se fala durante as aulas. Espionagem é seu nome. Operários que servem ao mestre de máquinas, servem-no com prazer. Sentem-se talvez importantes ao fazê-lo, superiores aos demais. Dizem quem fez e quem deixou de fazer, quem falou ou deixou de falar, quem está namorando quem, quem terminou com quem, quem gosta de morango, quem gosta de chocolate, que professor falou palavrão, qual palavrão e em qual circunstância.

Os informantes com altas chances de desempenhar no vestibular têm ainda um bônus: podem sugerir o que deveria mudar em determinadas aulas - didática, conteúdo, performance...

Assim, mesmo que não haja microfones nas salas, muitos operários creem que  tais mecanismos estejam lá, pois certas vezes são chamados à presença do mestre de máquinas e confrontados com aquilo que disseram ou fizeram em uma ocasião ou outra.

O mestre de máquinas pensa ser saudável à fábrica que os operários sejam perturbados com essa crença.

A pessoa da Sala de Máquinas tem suas crenças também. Para ele, esse sistema é o mais adequado, o menos falível. Pela inegável eficiência disciplinar que esses métodos permitem, ele não vê problemas morais no processo de produção dos resultados dessa fábrica. Os fins justificam, sem a menor dúvida, os meios - quaisquer que sejam eles. Todos agem conforme o dever - agir por dever não é o que importa.

O panóptico do mestre de máquinas ainda tem uma extensão para além dos muros da fábrica. Chama-se rede social. Estalqueiam-se todos os operários - investigar ou monitorar seriam palavras muito pesadas. Aquilo que for relevante para a fábrica certamente não passará em branco. 

Desse modo, na Sala de Máquinas desenvolve-se conhecida paranoia pelo controle, pelo resultado, pela onisciência, pela onipresença, pela onipotência.

O mestre de máquinas brinca de Deus em seu sistema perfeito, mas diferente Deste - que criou todos os seres e os conhece -, o mestre de máquinas não conhece verdadeiramente seus operários. Possivelmente ignora que eles se sentem inseguros, sem autonomia e têm medo de falar algo que possa chegar à temida sala do mestre. Ignora que alguns passam a acreditar que são mensuráveis como pessoa a partir de seu desempenho nas provas, resumindo sua autoimagem em operários nota 6,0, nota 4,5, nota 8,0 nota 9,5. Desconhece que nesse sistema existem operários que acreditam que por serem pouco relevantes em suas notas nem são dignos de serem conhecidos pelos demais operários. Ignora que os operários não estão se tornando seres morais, mas condicionados à moral de um sistema.

O que o mestre de máquinas precisa saber e nenhuma câmera, informante ou perfil de rede social vai lhe revelar é que seus operários estão adoecendo pelo simples fato de que escola não é lugar de operários, escola não é fábrica de resultados e que fábrica-escola é uma crença que se confirma excelente para vestibular, mas tacanha demais para a realidade complexa que é formar de fato seres humanos prontos a questionar e modificar um meio cheio de injustiças engendradas e consolidadas por sistemas, a exemplo desse tão ao gosto do mestre de máquinas.

Entretanto, esses dados não se colocam em gráficos, esses dados são complicadores em sistemas que exigem resultados. E de mais a mais, o que se pode contra uma crença confirmada por estatísticas?

Sim, senhoras e senhores, o mestre de máquinas tem uma crença inabalável, confirmada por estatísticas, confirmada pela ação e palavras de seus operários mais devotos, confirmada pelas expectativas dos pais dos operários. O mestre de máquinas, acima de tudo e contra todos os argumentos, tem Razão...

As emoções e a subjetividade que fazem o ser um ente complexo, verdadeiro e único? Elas que fiquem para outro departamento.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Um mandamento em favor de órfãos com pais vivos


Um mandamento em favor de órfãos com pais vivos


Sonhar com um poder que não temos é praxe na humanidade. Recentemente eu mesmo passei a enamorar-me por certa ideia: "se eu pudesse acrescentar um mandamento aos livros sagrados, que lei pétrea seria?". Pensei em algo refinado. Não num mandamento com promessa como aquele destinado aos filhos e tão caro aos pais (Honra teu pai e tua mãe, a fim de que venhas a ter vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá), mas sim um mandamento com um alerta em negrito, escrito com letras maiúsculas e reiterado inúmeras vezes ao longo dos textos bíblicos. Modéstia à parte, creio que essa iniciativa ajudaria a render ótimos frutos, senão na prática, ao menos para provocar profundas reflexões em muita gente.


Ei-lo em seu esboço: 

"Honra teu filho e tua filha, a fim de que não pereçam na infância nem na adolescência, não se percam na fase adulta nem tampouco te desamparem na velhice."

Antes que me acusem de leviano por macular a obra em questão com minha frase mundana, em minha defesa chamo os filhos e filhas desonrados por pais e mães, com desonras de todas as sortes.

Em meu cotidiano, o tipo que me chama mais a atenção é o do abandono afetivo, psíquico e moral, o abandono que gera os chamados órfãos de pais vivos. Muitos desses pais, embora fisicamente presentes, por um motivo ou outro - que não me cabe julgar -, negligenciam a atenção, o carinho e a orientação que deveriam dar a seus filhos. Assim, crianças vão crescendo à mercê de todos os tipos de influência possíveis, com mais chances de fazerem más escolhas do que boas, ou seja, com mais vocação para experiências infelizes do que o contrário. Alguns, inclusive, inconscientemente, tendem a repetir padrões vividos na infância, fazendo novas vítimas quando se tornam mães ou pais.

Anos atrás, conheci duas irmãs, uma de quinze e outra de dezesseis anos. Ambas estudavam em escola particular e não tinham que se preocupar com aquelas questões básicas da vida: o que comer, o que vestir, onde morar, enfim, situações que afligem muitos adolescentes brasileiros na idade delas.

Alguém, portanto, facilmente diria: "Do que podem reclamar então?"

Creio que também elas, por fazerem semelhante reflexão, diriam que nunca tiveram direito para reclamar de nada. E aí está o ponto dessa história que acredito mais cruel: é quando nós não somos capazes de perceber que sofremos injustiças e, inadvertidamente, passamos a repetir conceitos que só interessam ao alívio da consciência de outros que não nós. Guardadas as proporções, seria o equivalente ao exemplo do escravo que defende seu senhor ao dizer que, afinal de contas, ainda que cativo, a servidão lhe apraz porque "desfruta" de um lugar para dormir e de refeições que lhe sustentam o corpo, enquanto outros nem isso têm.

A desculpa, nesses casos, atribui o mau destino à força irresistível da índole indômita. "A vida de ninguém é mil maravilhas, se fulano foi para tal caminho, é porque ele fez as próprias escolhas. Tanta gente com muito menos não se corrompeu."

Em parte concordo com essa afirmação, mas há casos em que ela pode muito bem ser problematizada.

Voltemos às irmãs.

A mais nova, quando tinha quatorze anos, foi a uma festinha de adolescentes no condomínio onde morava. Lá conheceu o jovem Fernando, outro órfão de pais vivos. Fernando, com dezessete, quis ter uma relação sexual com ela. Ela pensou - se pensou - "Por que não? É bom, estou com vontade, o Fernando é bonito, é um cara legal. Quem se importa?"

Por algum motivo que não sei nem vem ao caso, ela não engravidou. Ela e Fernando podiam ficar pelo condomínio até às duas da manhã. Os pais não se importavam. Fernando podia pegar o carro do pai, que também não se importava com o fato de que esse tipo de liberdade, além de inapropriada, era contra a lei.

A jovem e o rapaz desenvolveram o sentimento de que eram donos da própria vida e poderiam fazer o que bem entendessem. Não faltava dinheiro para isso, nem tempo nem vontade.
A moça passou a faltar à escola. Abandonou o colégio. "Fase difícil, coisas de adolescente" - ponderaram os pais.

Baladinhas, bebidas...

A irmã mais velha me contava uma ou outra aventura da mais nova. Lamentava a situação. Dizia que os pais toleravam os comportamentos da irmã. A mais velha parecia mais madura também. Porém, todos os exemplos mais próximos que ela tinha demonstravam na prática que ser do modo como ela era não fazia sentido. As mensagens explícitas e implícitas que lhe chegavam cotidianamente conduziam a um receituário bem simples: um problema emocional se resolve com uma boa noitada; uma frustração qualquer se resolve com a fuga das responsabilidades; o ideal mesmo seria encontrar outra pessoa com quem se pudesse falar um pouco dos problemas e se pudesse compartilhar afeto - produto tão em falta no mercado.

Foi então que a irmã mais velha - a mais madura - se encantou com um novo rapaz. Ele, com seus 21, provavelmente também órfão, não tinha limites - e era incrivelmente sedutor justamente por inspirar essa confiança e segurança de que ele estava ao lado dela contra tudo e todos, para o que desse e viesse, no velho estilo Bonnie e Clyde.

Bastou pouco para que ela começasse a dormir na cama de casal dele, no quarto dele, dentro da casa dele, que era na verdade dos pais que ali também viviam.

O dia de ir à escola veio, ela não foi. O outro dia a chamou quase numa súplica rouca, ela não ouviu. Assim passaram-se algumas semanas.

O coordenador ligou para a casa dela. Ela não tinha ninguém que a chamasse à razão e a fizesse ir, a não ser a desvanecida memória da menina que ela tinha sido até dois meses antes. Apesar disso, contra todas as expectativas, a voz da outra - que também era ela - se fez ouvir.

Por esse motivo, no dia seguinte à ligação do coordenador, a encontrei na sala de aula. Sua presença ali soava como uma quase despedida, como se ela tivesse aparecido somente para avaliar a troca que estava prestes a fazer. Sua decisão teria uma repercussão decisiva para seu futuro e implicaria  mudar-se para a Terra do Nunca com o namorado ou permanecer na Terra Sem Sentido, que era a escola e sua vida sem perspectivas. 

De minha parte, tenho de confessar que, no lugar dela, já teria sido arrastado para a Terra do Nunca. Ah, como é bom estar num  lugar cheio de sensações e vertigens...

De qualquer modo, ela tinha uma novidade para contar. Falou-me sobre o namorado. Estava feliz, apaixonada. Eu, por outro lado, fui sendo invadido por uma emoção estranha: a sensação profética de que a estávamos perdendo. Ela estava partindo. E era uma partida difícil, porque ela escolhera seguir por um labirinto para o qual não haveria um mapa seguro. 

Senti então que era urgente entregar-lhe uma mensagem. Se eu pudesse tatuá-la em um lugar de seu corpo em que ela pudesse olhar todos os dias, assim o faria resoluto. No entanto, o que dizer, que conselhos dar?

Veio-me a inspiração: 

"Lembre-se de que, não importa com quem você estiver e o quão importante for essa pessoa para você, você é a única dona de suas vontades e a única dona de seu corpo. Essas são as duas coisas mais preciosas de sua vida".

Ela parou um instante, refletiu e me fez um pedido:

"Nossa, professor, como é? Que bonito isso. Você pode repetir, por favor?"

"Claro que sim" - consenti.

Repeti a frase, e ela acompanhou minhas palavras movendo os lábios, como se desejasse decorar o que ouvia.

Parou, inspirou fundo introspectiva e, por uma última vez, renovou o pedido um pouco constrangida.

"Professor, o senhor se importaria de repetir isso mais uma vez?"

Pela terceira vez eu enunciei essa frase tão profundamente verdadeira e às vezes tão esquecida.

"Lembre-se de que, não importa com quem você estiver e o quão importante for essa pessoa para você, você é a única dona de suas vontades e a única dona de seu corpo. Essas são as duas coisas mais preciosas de sua vida".

Senti que, assim, gravara a inscrição sobre o portal pelo qual ela passaria em breve e pelo qual talvez nunca mais voltasse.

Ela sorriu meio sem jeito, me deu um abraço. O sinal tocou. Todos foram embora como ocorre em todos os dias letivos.

Quanto a ela... bom, ela foi embora de um jeito diferente, como vão tantos outros jovens para fora da adolescência.

E é somente por esse motivo, meu caro leitor, que, às vezes, nos meus sonhos de megalomania, se eu pudesse, escreveria esse mandamento salvador em todos os livros considerados sagrados e o picharia sem remorso em todos os muros mundanos da cidade: 

"Pai, Mãe! Honra teu filho e tua filha, a fim de que não pereçam na infância nem na adolescência, não se percam na fase adulta nem tampouco te desamparem na velhice."





quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Falava ele de crushs?



Não é a primeira vez que me perguntam, e como essa dúvida parece recorrente, vou respondê-la aqui por escrito, talvez com um pouco mais de colorido do que de costume.

 A tal da dúvida a que me refiro frequentemente se apresenta assim: "Professor, você consegue perceber a diferença entre a sua geração e a minha?"

Bom, antes de tocar mais propriamente o tema, preciso esclarecer que a minha pré-adolescência e adolescência foram vividas no final dos anos de 1980 até meados da década posterior, portanto antes da internet.

Comecei a lecionar em 1999 e sinto que já dei aula para três gerações de alunos, embora os parâmetros que determinem uma geração sejam relativizáveis do ponto de vista pessoal.

A primeira geração com a qual tive contato como professor foi praticamente a mesma que a minha. Para ela era muito mais fácil dar aula, porque eu a compreendia muito bem.

A segunda, mais próxima da primeira, não possuía ainda smartphones e acesso irrestrito à internet, entretanto já sabia usar bem o google de modo a perceber que talvez ali houvesse algo de mais interessante a ser encontrado para além das relações convencionais entre família, amigos e escola.

 A atual, por outro lado, tem perfil em redes sociais praticamente desde os dez anos e costuma acreditar que todas as soluções possíveis para as demandas da vida estão à disposição em blogs, vídeos e aplicativos.

Antecipo que isso não é uma crítica, é apenas uma constatação. Se eu mesmo tivesse nascido nos anos 2000, provavelmente não seria de todo diferente.

Mas vamos ao ponto. O que gosto de utilizar como referencial para demonstrar a questão de algumas diferenças geracionais é algo sensível a qualquer pessoa e diz respeito aos encantamentos do amor. Sim, bons leitores, vou falar sobre flertes, paqueras ou, de modo mais atual, crushs, como quer a nova geração - ainda que o termo já estivesse consagrado na década de 90 nos EUA.

A primeira grande questão é saber como a coisa se desenrolava no mundo pré-rede social. Devo dizer que para as pessoas tímidas a situação era infinitamente pior, principalmente para os meninos - os únicos a quem cabia tomar a iniciativa de aproximação.

Naturalmente, quando nos interessamos por uma pessoa, desejamos saber sobre ela, seus gostos, suas relações, enfim, queremos saber sobre uma parte de sua vida que ela não sai contando por aí - ou não saía postando por aí. Então, para se obter alguma informação a respeito do crush, éramos obrigados a nos expor, a ouvir atentamente o que se falava sobre o crush, a aproximar-se de alguém mais chegado a ele e fazer perguntas. Era um processo relativamente lento se comparado a hoje, porque a exposição a que estávamos sujeitos era muito maior. Para que nós decidíssemos perguntar sobre o crush para uma amiga dela, precisávamos ter convicção de que de fato estar com a outra pessoa era importante, pois a comunidade - geralmente escolar, assim como parte da família - ia ou poderia ficar sabendo de nossas intenções antes mesmo de termos uma resposta afirmativa do crush. Um "fora" era sempre algo - além de frustrante - muito embaraçoso. Além disso, havia a questão da reputação ou do chamado "filme queimado". Uma pessoa que estivesse afim de outra poderia ter receio de assumir uma relação, por mais breve que fosse, caso houvesse algum problema em jogo, no caso, a reputação. Lembrem-se de que, sem internet, as relações presenciais eram muito mais intensas e limitadas.

Assim, ter um contato direto com o crush era algo muito mais desafiador do que mandar um in-box puxando conversa. Ter contato com o crush, definitivamente, exigia estratégia.

A principal e mais reveladora era conseguir o número de telefone. Pedir o número de telefone - e estou falando de telefone fixo - era anunciar dois fatos: que havia interesse em se relacionar com a pessoa e que em breve uma ligação seria feita. Pedia-se o telefone ou para o crush - no auge de um ímpeto heroico e arrebatador -, ou para uma amiga dela. Ambos, no final, davam na mesma: não somente o crush como outras pessoas saberiam de suas intenções.

Depois era necessário coragem para ligar. Quem atenderia? O pai? A mãe? O irmão? Você seria a conversa do jantar?

Santa privacidade, onde estava ela afinal?

O contato telefônico era somente um meio, não um fim, ou seja, a ideia era marcar para ir ao shopping, ao cinema, ao parque, o que fosse, para somente então consumar o que já estava escancaradamente anunciado. Éramos, portanto, obrigados a nos fazermos verdadeiramente presentes. Isso exigia um desgaste psicológico terrível, porém ao mesmo tempo poderosamente prazeroso, cheio de expectativa e adrenalina.

É claro que todo esse processo apresentava suas variáveis. Foi nessa época que se popularizou o tal do "ficar", isto é, beijar sem compromisso. Mas, de qualquer modo, fazer-se presente, expor-se, era essencial.

Outra estratégia era tentar minimizar os danos. Um bom modo era fazer que um amigo ou amiga auscultasse a situação e descobrisse se a resposta do crush seria afirmativa. Assim, era como ir à guerra com a primeira batalha já vencida. Quando uma menina usava dessa estratégia, o rapaz é quem, no fim das contas, deveria tomar a iniciativa, sabendo, no entanto, de antemão qual seria a resposta.

Hoje, com as redes sociais, a coisa parece ter ganhado outra dinâmica. É aí que entra a força de um nova ação possível que tirou a necessidade dos intermediários e da exposição kamikaze a que estaríamos sujeitos anos atrás. A palavra que descreve essa ação é estalquear. Estalquear trata-se de um termo mais elegante para espionar, porém empregado mais adequadamente para o universo digital.
O estalquear é arrebatador. A minha geração, assim como as anteriores a ela, tem inclusive migrado para esse tipo de relação. Nela, o crush é mais conhecido e investigado sem que talvez ele nunca tenha conhecimento sobre isso. O crush pode então ser abordado por um in-box, sem que ele mesmo tenha fornecido seu contato ou autorizado alguém a fazê-lo. O crush pode ser iludido mais facilmente, porque o que se faz na net costuma ficar na net. O crush é consumível pelas fotos que posta. (Gostaria de lembrar que, não muito antigamente, mostrar as próprias fotos a alguém era um convite para que a outra pessoa participasse de sua intimidade).

O crush pode ser consumido ao mesmo tempo entre outros crushs, sem o menor risco de que ele mesmo saiba, portanto sem que a reputação do "apaixonado" seja colocada em xeque.

O crush é bem mais descartável no grande mercado de crushs, e isso se transforma em uma tentação para que não assumamos compromissos, tampouco sintamos aquela adrenalina da incerteza e do arroubo que nos levava fatalmente à exposição social, pronta a nos tornar o tema passageiro das rodas de conversa entre amigos e familiares.

Parece, portanto, que a relação com os crushs se modificou sensivelmente desde então, e esse é um sintoma de que nossa percepção do mundo também mudou, marcando a diferença entre gerações, valores e comportamentos.

Assim, vale a pena lembrarmo-nos dos versos de Camões nos idos do séc. XVI: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

Falava ele de crushs?







domingo, 4 de dezembro de 2016

O Exorcismo de Satanás

O Exorcismo de Satanás

Há dias em que até as Trevas perdem a paciência com o modo como se pratica o Mal. Nesses momentos, o próprio Satanás sai de seu reino para visitar os mortais, deixando-os estupefatos com sua presença e personalidade. Um detalhe: ele só visita religiosos, ou seja, aqueles que nele creem. Para os demais, existem outros métodos mais simples, porém não menos eficientes.

Antes que você pense que estou de chacota, sugiro que continue a leitura e, ao final, reflita se eu não tenho razão. Se discordar, fique livre para contra-argumentar, desprezar esse conto ou, como é verdadeira moda - tão ao gosto do próprio Satanás -, fique à vontade para me odiar. Somente sugiro que antes leia o texto por completo e não tenha pressa para tirar conclusões.

***

- Boa noite, bonitão... - o Satanás em satanás (para não dizer em pessoa), saudou o pastor Veríssimo que, voltando do culto,  acabara de entrar em casa e acender a luz.

Todo o ambiente cheirava enxofre. Uma sinfonia de moscas dava a impressão de que o santo homem entrara no espaço de um monturo carnicento.

Pastor Veríssimo, tomado de completa perplexidade, levou a mão esquerda ao peito, deu alguns passos para trás e, lembrando-se de sua suposta envergadura moral e do Livro Sagrado na mão direita, muniu-se de coragem e avançou em direção à maligna criatura que estava confortavelmente acomodada em seu sofá. Pensou: "Terei de terminar aqui o que achei ter acabado na igreja." 

- Saaaaaaaaaaaaia, Exu, em O Nome do Senhor! - e foi colocando a Bíblia nas fuças do capeta.

Com a ofensiva já esperada, Satanás deixou de pirotecnia. Fez que sumissem as moscas e o forte odor do recinto e, simplesmente, transfigurou-se. Agora parecia um homem sério, de vestes sérias e elegância irreprimível. Tudo isso num átimo de segundo.

Com certa tranquilidade de quem já conhece o ser humano há milênios, o "homem de negócios" repreendeu Veríssimo:

- Acho que o senhor está confundindo as bolas. Até onde sei, Exu é algo fora de nossas teologias. O senhor estudou essa matéria, não é mesmo? Exu não é palavra que se aplique à minha natureza. Aliás, se o senhor mudar de religião e teologia, eu sumo neste instante. As religiões que cultuam os Exus nem me conhecem, tampouco se preocupam comigo. Inclusive, na verdade, essa é uma das questões que me trazem aqui. 

- Então, demônio, me propões que abandone o Senhor... Aaaaaah, Pai da Mentira!! Estás me tentando? - a verve apostólica se apossava de Veríssimo.

- Sente-se, homem - convidou Satanás, sem intimidar-se, demonstrando certo fastio até.

- Abandonei meus artifícios retóricos e peço que, em solidariedade, o senhor faça o mesmo. Vou logo explicando para que você não se iluda. Palavras santas escritas em papel não santificam o papel; o mesmo acontece ao homem, palavras santas na boca de um homem não o santificam. Veríssimo, ponha uma coisa em sua cabeça: nós dois somos praticamente da mesma natureza.

A satânica observação roubou as palavras do pio pastor, o que foi muito útil para que a conversa não se alongasse desnecessariamente. Foi quando Satanás o pegou pela mão, fazendo-o sentar-se ao seu lado.

A partir de aí, a trevosa criatura adotou tom mais didático:

- Primeira questão que quero bem clara em sua mente, Veríssimo. Estou aqui porque você tem me dedicado toda uma igreja, pensando inclusive em abrir filiais. Então, se a igreja é minha, gostaria eu mesmo de estabelecer as regras e o estilo de culto.

Ainda que seu interlocutor permanecesse calado e estarrecido, o bom Satã adivinhava-lhe os pensamentos.

- Ora, Veríssimo, não me venha com essa que sua igreja é de Deus. Não há nome mais citado lá do que o meu. Não há mais feitos lá relatados do que os meus. Não há mais descrições sobre imagens do que as minhas... Ora, Veríssimo, a sua igreja, a bem da verdade, foi aberta em meu nome.

- E é aí que a coisa tem se complicado. Você tem confundido os nomes, Veríssimo. Está faltando elegância. Me desculpe dizer, mas está faltando coerência teológica. Sejamos francos, Veríssimo, está faltando estudo. Lúcifer é uma coisa, diabo é outra, demônio é outra, Belzebu outra ainda distinta e Satanás é outra. Você não teve aulas de etimologia e interpretação de textos bíblicos?

- Rapaz, além disso, vê se esquece dessa coisa de Exu. Já disse, isso é outra teologia, cara. Precisamos ser coerentes, Veríssimo. Eu sou uma ideia elegante, não posso ir sendo confundido com outros nomes. Repare, eu só sou tirado das pessoas porque eu habito nelas. E às vezes, para ser sincero, até me confundo se, na verdade, não são elas que estão em mim - como tem sido particularmente o nosso caso.

- Sabe, Veríssimo, até no Mal nós precisamos ter ética. O Mal é racional, estratégico, elegante, sedutor. O Mal é perfeito em sua natureza, e eu, como seu infernal representante, não posso deixar que você faça uma caricatura tão tosca de mim. Se for para continuarmos essa empreitada juntos, exijo respeito, disciplina, dedicação e, sobretudo, estudo.

- Pense nisso! Pense com carinho. Amanhã quero uma resposta. Se for para fecharmos verdadeiramente esse trato, chegue à igreja meia hora antes. Eu vou me colocar ao seu lado sem que ninguém me veja e vou soprar ao seu ouvido tudo o que você terá de falar e fazer. Esse será seu treinamento durante seis meses. Depois eu visitarei sua igreja uma vez por mês para que nós não percamos contato. O que acha?

Antes de uma possível resposta, Satanás alertou:

- Você não é obrigado a fazer esse pacto comigo. Mas já aviso de antemão que não vou admitir o que tem feito. Se você continuar com isso, todas as noites depois do culto nos encontraremos aqui em sua sala.

O pastor Veríssimo?

Mudo. O homem ficou completamente mudo. Nenhum A se ouviu daquela boca santa.

Assim foi que, envolto em uma nuvem de fumaça, Satanás retirou-se. Diga-se de passagem: a criatura sempre adorou uns efeitos.

No dia seguinte, na hora do culto, a igreja não abriu. Os fiéis ficaram preocupados. O que teria ocorrido ao pastor Veríssimo?

O fato é que ninguém mais o encontrou. O imóvel da igreja voltou a ser posto para alugar, e o que foi ouvido entre alguns frequentadores da antiga congregação é que Veríssimo deixara de ser pastor e fora trabalhar com a venda de planos odontológicos. 

Certo dia, ouviu-se uma irmã comentar:

- É, tem que se ficar atento com o Satanás, ele tem seus ardis para tirar homens santos da igreja.

O que ela jamais imaginaria é que o próprio Satã - em satanás - concordaria totalmente com ela. 

Quando se encontra o Próprio frente a frente, ninguém mais volta a ser o mesmo.


sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensaio sobre um Pai morto

          Na boca da campa ou Ensaio sobre um Pai morto

  
            Essa história é breve e um tanto interessante.
         João Nascimento, um homem de fibra e fé, nunca logrou êxito em infundir no filho sua mesma inclinação em acreditar na metafísica da alma, na vida espiritual e na continuidade da individualidade do ser após a morte. Para todas as outras coisas, o jovem Murilo tinha ouvidos, mas não para as “superstições” que a ciência haveria, um dia, de aniquilar.
           O pai, contudo, não condenava o filho pelas ideias materialistas já de longo esposadas desde os tempos da escola. Respeitava-lhe sempre, embora lhe doesse a ideia de que Murilo, quando chegasse o fatídico dia da própria morte, talvez não estivesse preparado para fazer o passamento com dignidade e sem largo constrangimento. Ou seja, João Nascimento preocupava-se com a ausência de orientação espiritual do rapaz.
           Vendo chegar a idade avançada, saltou-lhe à mente uma excêntrica ideia. Decidiu escrever o discurso a ser lido diante de seu próprio caixão em ocasião do enterro. Determinou que Murilo, seu único filho, faria a leitura diante de amigos e parentes. O texto de despedida seria um tratado didático sobre a morte e a vida espiritual.
            O rapaz, embora não fosse afeito também a solenidades, certamente em vista da grave ocasião não se furtaria a atender aos últimos desejos do pai. Se seria uma contrariedade ler o discurso, não passaria de uns poucos minutos.
            O fato é que a morte de João, ainda que morosa, um dia chegou. Na ocasião, contava ele com 83 anos, enquanto Murilo, não mais um rapaz, alcançara uns 50.
            Velou-se o corpo.
            Pouco mais tarde, diante da campa, chegara o momento em que Murilo leria as palavras do próprio pai para o próprio pai.
Sua voz iniciou embargada, as mãos um pouco trêmulas seguravam o papel cujo conteúdo manuscrito revelava o desvelo com o qual escrevera o autor.
Murilo iniciou uma leitura pausada e cadente, sem dar-se conta de que seu pai, ainda que morto, fazia-o tomar parte em um ritual de fala direta com um ente morto.
            Analisemos:

            Entras agora tu pelo que nós daqui chamamos 'sombra da morte', porque nos é vedado conhecer teu destino. É esta sombra o nada? Não o sabemos. Assim defini-la categoricamente não nos convém, pois, pelo caminho misterioso para o qual a tumba é a porta, os nossos cinco sentidos grosseiros não nos permitem nada avaliar, a morte definitivamente não lhes diz respeito. Suponhamos, no entanto, que a metáfora 'sombra' corresponda a algo menos promissor que a escuridão, ou seja, de fato, o 'nada'; o que isso significaria para nossa jornada existencial e individual? Filósofos do passado disseram: Sendo o nada o futuro no qual acaba o tudo, que é a vida, a morte torna-se a ausência de todas as dores físicas como também das angústias, dos pesares, dos arrependimentos, das mediocridades ou genialidades do finado. Melhor fim não haveria para o injusto – a partir de seu próprio ponto de vista, é claro. Mais intenso descanso não haveria para o oprimido. Maior decepção não haveria para o curioso, como tu mesmo o foste. Se assim o é, não me ouves agora. Contudo, falo. Isso porque o nada não é uma certeza, mas somente uma possibilidade. Sendo assim, pode ser que, sem o sentido físico da audição, ainda me ouças. Suponho que me ouças...
            Falo, portanto, por acreditar que ou podes estar lúcido, ou porque as palavras em alto som a ti dirigidas podem acordar-te o espírito preso às perturbações do transe da morte. Acordas no mundo do espírito ao qual todos pertencem e ao qual voltam todas as noites, durante o sono emancipador. O véu de Isis agora descerra-se para ti e convida-te para nova jornada. E, por estas palavras, tu mesmo te diriges a ti, tua palavra que ficou escrita neste mundo visita-te no mundo que tu neste momento divisas. Elas te perguntam: “Existe Deus? Ele é bom? Há razão na vida? Há algo que valha nos sofrimentos? Há o Juízo, a roda das encarnações? ou tudo na existência é degredo, separação, tristeza e morte?”
            Fizeste da vida o que podias, deste a tua esposa tua fidelidade, lealdade e a chave de teu íntimo universo – melhor não poderias ter feito. Recebeste dela valor igual, em melhor moeda, porque sentir-se amado por quem se ama é tesouro raro no mundo em que habitaste – melhor não poderias ter recebido. Ela atravessou essa porta antes de ti. Estão juntos agora? Ela te busca? Ouve ela também estas palavras? Tu gostarias de acreditar no sim para as três recentes perguntas. E agora tu sabes...
            Teu filho único certamente tem queixas contra ti; qual filho compreende completamente o próprio pai? Foste bom para ele. Foste provedor, disciplinador. Deste-lhe também o amor e o afeto de pai. Consentiste que ele fosse o autor da própria via, sem negar-lhe o amparo necessário. A modéstia não te impedes, contudo, de confessar-te como bom pai. Entretanto, não conseguiste soprar-lhe pelas narinas a grande crença que te animou desde os primevos tempos da juventude; ele, qual Tomé, pediu provas. Tu não foste capaz de dá-las. Fizeste de ti mesmo, desse modo, o pai excêntrico, crédulo, paradoxalmente culto nas letras e infantil na crença. Isto aos olhos de teu filho. Mas tu o amaste e o amas de todo o teu coração. Não deixaste que o tempo de dizer-lhe se perdesse. Dá-te agora por feliz em tê-lo feito. Se tudo é como crês, nesta hora tu o comtemplas, olha-o a segurar teu testamento de fé, escrito outrora na solidão de teu quarto, e daí acenas-lhe e sorri, com o maior amor do mundo, afirmando, no inaudível invisível: “Estou certo, filho.  A morte não existe!”
            Ouve-lhe a voz a repetir as palavras que escreveste para esta ocasião. Logo ele, tão avesso a solenidades e à segunda pessoa do discurso.
            Sobre tua lápide será escrito: “Creio na felicidade, no Amor. Vivo. A cova é pequena demais para meus sonhos...”
           O epitáfio acompanhará as duas datas que marcam tua jornada terrena. Dois pontos perdidos no espaço infinito do tempo. De que te importa, tu não habitarás esse lúgubre cômodo!
           O melhor de tuas obras foi o que construíste no coração dos teus.
        Deus foi bom contigo, permitiu que escreveste estas linhas com tudo o que tanto acreditas. Descansa agora. Os teus do passado estão contigo. Descansa... Adeus!
            Tu olhas teu filho e sabes que tens dele tanto amor. Descansa...

            Não há dúvida de que Murilo ficou profundamente tocado. Comoveu-se, verteu lágrimas ao longo e ao fim da leitura. Desejou de todo o coração que tudo que ali estava fosse verdade, mas não se acreditava capaz de crer, não havia sido talhado para aquilo. Por fim, quando todos se foram e só  restou ele diante do recém-fechado túmulo, sentiu ouvir no silêncio do cemitério o mais eloquente discurso que a natureza sempre faz sobre a morte. Portanto, ele não ouviu absolutamente nada – porque o silêncio é nada para quem busca respostas precisas.
Foi assim que sentiu a dor da mais profunda ausência, da mais terrível saudade. Prostrado, sem força que o consolasse, viu-se em desamparo: Como seu pai poderia com tamanho otimismo atravessar umbral tão misterioso?

Pobre Murilo, que não se agarrava a superstições... 




Os três espíritos do Natal versão rock and roll


"Life is not rock and roll" - essa é uma ideia síntese de um daqueles poemas muito loucos do Paulo Leminski. O pensamento se complementa quando ele afirma que apesar de a vida ser o que é, ele gosta dela. Penso que, certamente, é porque, entre tantas coisas, a vida pode oferecer também o rock and roll.

Nesta última semana, foi isso que a vida me fez. Ela me ofereceu três harmonias distintas - no sentido musical da palavra -  cheias de improvisação e melancolia, parece que nascidas de uma mesma fonte, apesar de terem autores diferentes. Foram três solos de guitarra daqueles arrebatadores, dignos de uma Woodstock.

A primeira foi assim. Bem aquela situação de finalzinho de ano. Senhorita B., aluna de uns 16 anos, me apareceu com um livro do Leminski. Ela me disse que se trata de um autor curitibano de quem ela gosta muito. Uma fita azul prendia a capa com um lacinho, o que conferia ao objeto um ar solene de presente. Entre a capa e a folha de rosto, uma dedicatória. E a dedicatória valia mais que todos os presentes que ela pudesse me dar. Ela falou sobre algumas aulas de quase dois anos antes em que estudamos textos poéticos e afins. Escreveu sobre como isso fora importante para ela. Escreveu sobre a importância da palavra. Ora, isso não se faz com um professor que vive de palavras; isso é botar um professor comovido até as tampas. E foi isso que ela fez.

Abri o livro aleatoriamente, lá estava o poema "it´s only life / but i like it". Esse foi o primeiro solo de rock tirando a monotonia da vida e dos automatismos de final de ano.

A segunda teve algo de semelhante. Um aluno de uns 18 anos, Sr. A., me apareceu com uma maleta de utensílios de churrasco, coisa belíssima de se ver. Sem dúvida um belo presente. Junto, uma carta. Nela ele me agradeceu por ter fé nele. Esqueça a maleta. Uma carta de um aluno de 18 com esse conteúdo? Isso bota uma pessoa comovida como os diabos; isso faz a gente ter vergonha de reclamar da profissão; isso dá uma esperança para seguir por um caminho bem árduo que é lidar com gente...

Ele saiu da sala, eu li a carta, e as lágrimas vieram. Não sei se é a idade, se é a terapia, se são os sinos de natal - ou a combinação disso tudo -, mas agora mesmo elas voltaram só de lembrar.

Por fim, a última foi praticamente uma opera-rock, triste, arrebatadora e que eu sei exatamente como é. A protagonista foi a Senhorita H., ela tem uns 17. Disse que gostaria de manter contato comigo, pois eu a ouvia mais que seu pai. Abre aspas: podem ter certeza, se eu conversei mais do que uma hora com ela durante o ano foi muito - fecha aspas. 

Isso calou fundo na alma. Como não se comover? 

O pior de tudo - ou melhor -, não sei ao certo, é que relatar esses fatos me fez lembrar de episódios de meu passado nos quais quem estava do outro lado era eu. E isso é bem rock and roll mesmo, porque os temas de rock variam pouquíssimo, mas é possível, por exemplo, se empolgar com cinco a dez músicas que falam de amor, como se cada uma fosse profundamente original.

Pois é... 

Então aí vão dois relatos breves do passado:

Quando eu estava na 5ª série, atual 6º ano, e era um daqueles caras invisíveis, um professor de redação corrigiu e comentou publicamente um dos meus textos. Aquilo foi tão importante para mim que, no final daquele ano, eu levei um presente para ele, um livro de poemas. O Sr. A. não fazia ideia de como aquilo me fez acreditar que eu podia ser bom em alguma coisa.

Anos depois, após eu largar o segundo curso de faculdade e ter praticamente desistido de estudar, encontrei um antigo professor de matemática - que parecia gostar mais de música e de teatro. Ele fez elogios a mim e disse que eu poderia fazer faculdade de Letras, porque meus textos eram bons e eu precisava escrever. O Sr. F. demonstrou ter fé em mim, e a opinião dele tinha um peso imenso para aquele cara de uns 19 - 20 anos que eu era. Certamente conversei com ele muito mais do que o fiz com meu próprio pai.

A vida tem uns refrões loucos mesmo. Em época de natal, em meio a tantas melodias clichê, ela vem com o mais puro rock and roll e abala cada fibra da alma, sem dó!
It´s only life, but I like it.




sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre Psicólogos e Escafandristas


A vida tem que ser suave naquilo dela que só depende de nós. Isso porque, acredito, ela desde o início é marcada por perturbações, que vão da gestação até seus derradeiros momentos. São situações que surgem à nossa revelia, de modo doloroso até, que vão deixando marcas e, frequentemente, cicatrizes. Esses contratempos inevitáveis acabam por refletir em nosso modo de ser, pensar e reagir diante das demandas do mundo, e raras vezes percebemos o quão profundamente afetam nossas decisões.

Recentemente descobri que é importante olhar mais detidamente as marcas e cicatrizes que me foram moldando, sobretudo na infância e em meus primeiros 20 anos de vida. Esse processo é como mergulhar com um escafandro em si mesmo, indo às regiões mais profundas da alma. Creio que seja uma expedição possível de se fazer sozinho, contudo não muito recomendável. A minha, eu mesmo não conseguiria.

É nesse momento que entra em cena uma pessoa especial, que lá de cima do barco está apta tanto a manter em segurança a embarcação quanto a controlar o oxigênio. É alguém mais afeito a expedições, embora não possa fazer por ninguém a viagem que só cabe a cada um fazer. Conhece especialmente aquilo que as profundezas humanas podem ter em comum e, por esse motivo,  pelo rádio vai nos auxiliando a reconhecer as ocultas paisagens marinhas. "O que você está vendo? Como é isso? O que você está sentindo?"

Quando se trata de um bom profissional, um verdadeiro orientador de escafandristas, por mais que entenda sobre o fundo do mar, o indivíduo do leme do barco não antecipa as descobertas ao explorador, pois sabe que a descoberta, a epifania, é o que confere o verdadeiro significado à expedição. Ele possui plena ciência de que a viagem a si mesmo só permite um protagonista.

O orientador também respeita os limites do mergulhador. Sabe que as paisagens marinhas não raramente são inóspitas, embaraçosas, turvas e confusas, e que só o exercício do escafandrista nas contínuas expedições é que pode prepará-lo para as verdadeiras revelações do fundo do mar.

Às vezes, até com certa frequência, após um mergulho voltamos sem fôlego, esgotados, mortificados com a visão de algo inusitado, que nos inspira medo ou insegurança. Ora, o fundo dos oceanos esconde abismos onde reina a escuridão, onde há predadores camuflados e onde o pequeno alcance da visão nos obriga a nos aproximarmos a todo instante do desconhecido, ainda que este nos pareça incrivelmente familiar.

Há alguns meses tenho feito semanalmente certas expedições, das quais dificilmente não volto estupefato. Frequentemente volto sem ar, meio aturdido. Por causa das profundezas que lentamente tenho alcançado, geralmente preciso de um tempo para fazer a descompressão. Devo, no entanto, ressaltar que o mal-estar em nada tem a ver com a imperícia de meu orientador. Inclusive, ele me alertou que esses sintomas são parte do processo. Seria masoquismo então?

Aparentemente sim, não fosse o fato de que quando volto a terra firme e para os afazeres até banais e demandas da vida na superfície, posso contar com ganhos como melhor capacidade pulmonar, habilidade para distinguir perigos reais de imaginários e entendimento sobre os limites que, por prudência, devem ser respeitados. Além disso, contemplar a beleza do oceano nos sensibiliza para encantarmo-nos também com o que se mostra de mais simples no universo das faces superiores, ou seja, da superfície.

Outro ganho diz respeito à relação com os habitantes das ilhas e do continente. Em alguns casos, ao interagirmos com eles, conseguimos, ainda que de modo muito breve, perceber aquilo de mais simples, porém de extrema relevância, que lhes caberia explorar em uma viagem com escafandro. Esse fato nos torna mais empáticos, mais solidários até, e conseguimos nos perceber como uma grande família humana.

Assim, quando nos tornamos escafandristas, vamos sentindo, aos poucos, que a vida pode ser vivida de modo mais suave, vamos pegando gosto por caminhar pela orla e sentir a areia tocando a planta dos pés. Deixamos sem medo a brisa tocar nosso corpo, o sol iluminar e aquecer nosso rosto, e passamos a ouvir com mais clareza a cadente melodia do mar.

Contudo, um alerta precisa ser feito: quando se decide fazer o mergulho, nem todo orientador escafandrista está apto a conduzir a embarcação e regular o oxigênio, tampouco a orientar pelo rádio. Às vezes é preciso procurar, até mesmo experimentar alguns mergulhos até acharmos a pessoa certa. Mas quando esse momento chega, pode ter certeza, vale a pena.

Se posso dizer algo sobre a minha experiência, talvez entre as viagens próprias à vida, essa, apesar de voluntária, é sem dúvida a maior aventura de todas e a mais necessária. Molhar-se nas águas do oceano interior é como deixar-se batizar pelo que há de mais sagrado na existência humana, é contemplar-se aos poucos, desfazendo as ilusões sobre si, sobre os outros e sobre a vida; mas, é também, por outro lado, tornar-se apto para encantar-se consigo mesmo, com os outros e com a vida.

No entanto, não quero iludir ninguém, para cada mergulho que se quer verdadeiro, é preciso coragem. Sem ela não procuramos o orientador de escafandristas, não subimos ao barco, não nos afastamos da segurança das margens nem tampouco nos lançamos no grande mergulho que tocará sensivelmente a nossa realidade, de um modo para o qual certamente não haverá volta.