domingo, 19 de fevereiro de 2017

Zeitgeist, internet e cultura de massa



O conceito de Zeitgeist ou “espírito de uma época” fatalmente dá-nos o que pensar. Sem dúvida, a internet fundou uma nova era e, consequentemente, um novo espírito. Assim, um conceito há muito conhecido das Ciências Sociais deixou de servir para descrever um fenômeno histórico e sociológico para tornar-se expressão de acusação de grupos cuja voz reverbera sobretudo no indômito espaço digital. Refiro-me ao termo apropriação cultural.

É nesse contexto que Coldplay, Beyoncé, Selena Gomez – no âmbito internacional – e a cantora Anitta, no Brasil, por exemplo, receberam duras críticas. Contudo, é interessante observar que tanto a banda inglesa quanto as cantoras representam o universo da música pop, conhecida pela característica de mesclar elementos culturais de diferentes matrizes. Esse mesmo gênero musical também possui íntimas relações com a chamada cultura de massa, responsável por conquistar públicos de milhões de pessoas, dentre as quais internautas de todo o mundo.

Sendo assim, ainda que muitas críticas sejam válidas e dignas de discussão, outras são discutíveis, uma vez que elementos culturais semelhantes surgem em diferentes culturas e com diferentes significados, de modo a invalidar, em muitos casos, a ideia de que existe exatamente um grupo que detenha o monopólio de uma expressão cultural. Só para citar um clássico exemplo motivo de polêmica, o turbante utilizado no Candomblé com um significado específico, é apenas um utensílio para o povo berbere do deserto, para muçulmanos, no oriente médio, e pode ter diferentes significados na Índia.

A essa questão, soma-se outra que não pode ser ignorada. Não somente eu como você, leitor, vivemos em uma sociedade de consumo globalizada, na qual desde objetos até ideias transformam-se em produtos, mercadoria, que selecionamos conforme nossos gostos. Nesse sentido, não costumamos nos perguntar se o uso desse símbolo ou aquele adereço, ou mesmo aquela palavra ou conceito, foi apropriado de uma minoria e esvaziado de sentido. Fazê-lo seria tornar a vida contemporânea quase impraticável. Assim, o único modo de protestar contra a cultura de massa seria deixar de consumi-la. Faço, portanto, o convite, quem estiver disposto fique à vontade para desligar seus televisores e desconectar-se da internet.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O homem mastigado diante do estandarte

O homem mastigado diante do estandarte

Alguns chamam de maldição, outros de loucura ou dom. Tudo depende do medo, do ceticismo ou do desejo que envolve poder ou não poder experimentar essa dupla natureza. Eu aprendi a entender como um presente, que devolve o que com frequência é roubado da vida. Ver e ouvir o que poucos conseguem, certamente, pode tornar-se loucura e maldição ou sentir-se como um dom – aquilo que se recebe sem pedir ou merecer - e ao mesmo tempo um presente – aquilo que proporciona júbilo ao se receber.

Revelo logo aos leitores: meu dom e presente consistem em enxergar aquilo oculto no instante da morte. Entretanto, como são poucas as mortes que já testemunhei, pouco vi de diferente do estado comum da natureza objetiva dos seres. Posso assegurar, contudo, que vi e aprendi, observando, algo quase completamente diverso do que narram as simplificações dos sistemas metafísicos.

Ainda agora enxugava as lágrimas de meus olhos. Vim a meu caderno de anotações para registrar este relato envolto em profunda e sincera comoção. Das mortes que observei, essa talvez tenha sido a mais vertiginosamente doce e inesperada, fabulosamente triste e bela, e, sem dúvidas, deixaria desconcertados muitos que estudam com minúcias esse tema que fascina e faz temer a humanidade.

Seu nome, idade, procedência e intimidade: desconhecidos. Tudo o que foi resumiu-se por mais de 7 anos na vizinhança pela alcunha de o “louco-da-praça”, um louco manso, calado, quase uma figura veneranda. Sua pele sempre se viu escura, bem escura de sol. Seus cabelos, bem espessos e ondulados, quase chegados aos ombros, nunca foram flagrados em desaprumo - um pente pequeno de plástico que saía do bolso logo pela manhã se incumbia de alinhá-los.

As teorias sobre seu passado eram infinitas, mas uma perseverava verossímil. Quem contava era uma senhora que se via semanalmente na praça levando-lhe uma ou outra muda de roupa, um cobertorzinho gasto de vez em quando e algumas frutas.

Sua narrativa dava medo e fazia que ouvidos pouco habituados a escutar atribuíssem a ela o adjetivo também de louca.

Ela uma vez me narrou a saga do louco, sentada ao banco da praça do qual há pouco saí. Naquele dia, eu estava ali doando uns sapatos a ele, sapatos que foram meus e certamente lhe sobrariam nos pés.

Disse-me a mulher com tristeza:

- Vê o louco-da-praça? Sabe por que ele é assim, por que está aí? É porque a mãe o mastigava, o engolia e depois o regurgitava.  Voltava então a trazê-lo à boca para o malfeito mais uma vez e sempre assim por diante. O pai, por sua vez, não o mastigava, mas o via sendo mastigado, portanto o mastigava de um outro jeito, de um jeito doído e infinito. Quando o louco ainda não era louco, aos 14 anos, o pai chutou-o para ser mastigado também pelo mundo. O que resta a quem é mastigado todos os dias?

- O louco-da-praça, se está assim, depois de tanto, ainda está no lucro.

O que lhe sobrara da vida humana era o asseio. Em tudo muito limpo. Usava uma torneira ao lado do bebedouro, perto da lagoa do parque, para higienizar-se. A velha lhe provia sempre um toco de sabão de coco. Ele nunca aceitara sabonete ou xampu.

Fosse na Índia, teria o status de um iogue; ali, era o louco-da-praça – também o louco-do-parque. O ascetismo fora dele uma escolha?

Seu abrigo era de um papelão que vez ou outra se renovava. Cobertor e jornais isolavam-no do frio. Ao que parece, sabia ler, mas não lia; sabia falar, mas não falava; escutava, sim, escutava. Os meneios de cabeça e olhares mostravam sempre lucidez quando, por algum motivo piedoso, lhe dirigiam a palavra. O louco-da-praça era pacífico. Quem o olhasse com atenção encontraria também outros adjetivos. Diriam-no limpo, doce, invulgar, íntegro, resignado. Talvez até dissessem que ele não era da praça nem era louco. Mas nunca ninguém disse, tampouco eu, tampouco a velha que contava dele a história.

Certamente, o louco-da-praça só podia ter sido mastigado, mastigado com voracidade e inclemência, de um jeito que ninguém merece ser.

A pracinha onde morava ficava no caminho para o grande parque do bairro, bem perto mesmo. Tinha um só banco, o banco onde me sentei às seis e meia de hoje para amarrar meu cadarço antes de ir ao parque para caminhar.

Assim, foi exatamente ao erguer a cabeça e me preparar para erguer o resto do corpo para retomar meu percurso que meu triste e consolador presente se apresentou com uns sonzinhos estridentes de pandeiro. Olhei ao redor no intuito de encontrar quem o tocava, mas nada. O som era tão próximo; diria que quem o tocava estaria a meu lado. Olhei então em direção aos papelões do louco-da-praça e entendi.

Seu corpo ali estava completamente estendido, rijo, sem viço.

Tudo que narro agora, leitor, ao que me consta, só eu vi e ouvi.

O som do pandeiro foi se distanciando de mim e indo em direção ao louco. Uma carroça – e agora via com nitidez – aproximou-se do corpo inerte. Desceram músicos, um homem com estandarte e mulheres a dançar e rodar. O som era festivo, envolvente. O pandeirinho cheio de fitas coloridas amarradas se via na mão de um rapaz, quase um menino. Os lenços revezavam-se indo do alto ao nível da cintura das mulheres, levados pelos dedos adornados de anéis dourados. Era uma celebração à vida nos primeiros momentos da manhã, numa pracinha esquecida da cidade indiferente.

Uma mulher matrona, sem acompanhar a dança, saiu então da carroça. Mesmo a distância, era possível ver-lhe o sorriso. Aproximava-se do corpo morto do louco-da-praça.

Nesse momento seu rosto cobriu-se de gravidade. Com um gesto aos músicos, fez que cessassem o clangor dos instrumentos. Três passos à frente, o homem que carregava o estandarte aproximou-se, colocando-se frente aos pés do louco-da-praça. A impressão era de que mostrava a imagem ao morto que, obviamente, nada enxergava. Ficou ali solene.

Todas as atenções eram agora para a mulher que se debruçava sobre o corpo tão só daquele homem que sempre fora tão só, pertencendo à pracinha e, como folclore local, a todos, sem nunca sentir pertencente a nada nem ninguém. A mulher então colou sua testa à dele.

Aqui, caros leitores, preciso admitir: seja lá o que tenha sido, aquilo foge-me completamente à compreensão. Por esse motivo, cederei as próximas linhas a outro narrador, o Universo. Acredito que, somente assim, tudo ganhe o sentido necessário para se compreender o motivo das lágrimas daquela cigana, as quais praticamente lavaram o rosto morto do louco-da-praça.

Daqui, portanto, deixo-os com narrador melhor.

A cigana colou a testa na testa do indigente, inspirou fundo. Foi o que bastou para ver seu passado e senti-lo em sua própria pele. Quem pudesse ver as cenas diria que desde criança aquele homem fora mastigado, engolido e regurgitado por sua mãe. Beliscões não lhe faltaram no berço. Berros para calar-lhe o choro infantil eram um eco frequente em sua cabeça. Empurrões, apupos, xingamentos, puxões vorazes de orelha. Arranhões, surras de fio, pisões nos pés, nas mãos, no corpo contorcido. E o pai a ver-lhe percorrer o calvário, a ver-lhe dependurado na cruz quase todos os dias.

O menino era “feio”, “burro”, “um verdadeiro idiota”, “um maldito estúpido”, “um doente incapaz”, “um peso”, “um boçal”.  A cigana chorava fundo sobre o menino-da-praça.

O pai então um dia trouxe-lhe uma caixa de engraxate. Que o infeliz ao menos valesse algumas moedas por dia.

Valeu muitas moedas, mas nunca o suficiente para amainar o ódio da mãe.

Aos 14 anos cansaram-se dele, e ele ganhou a rua, ganhou o mundo; e somaram-se às próprias dores outras dores do mundo, daquelas que não se poupam nem nas praças diante das catedrais das grandes metrópoles. Algumas ironicamente faziam parecer que as violências dos pais tinham sido corretas e na dose suficiente para prepará-lo para as verdadeiras dores que representavam a vida. A cigana chorava ainda mais e balançava a cabeça em negação.

As passagens que se seguiram foram se atenuando com a visão de esmolas, de algumas ações de irmãs de caridade, além de uma e outra alma boa que, mesmo nas calçadas, diante do comércio fechado do centro urbano, pesaram-lhe as feridas, afagaram-lhe a face e disseram-lhe palavras sobre Deus, com o cuidado de não lhe dizerem que o Criador era justo e bom. Resumiam-se a dizer que aquilo teria fim, que Deus olha pelos aflitos e guarda a eles bom lugar. A cigana concordava.

Com o avanço da idade, jovem, passou a inspirar temor. Foi quando desistiu de falar e passou a acanhar-se num canto e viver de esmolas, fazendo de tudo para que sua aparência inspirasse antes piedade do que receio. Queria também estar limpo e, na medida do possível, bem posto, a exemplo dos transeuntes que iam para o trabalho, pois pior do que causar temor era inspirar repugnância. As noites de febre não se podiam contar. Quando a dor parecia infinita, a piedosa mulher mirou o estandarte.

Enxugando as lágrimas, a cigana começou a passar as mãos sobre os cabelos do menino, que já não era mais da praça, da rua ou deste mundo, e que foi se fazendo menino em forma, diminuindo em tamanho e se acomodando ao colo daquela que o envolvia como uma verdadeira mãe, a mãe que nunca tivera, conhecera e com quem jamais sonhara. Agora ele cabia perfeitamente no colo da cigana. Já não estava morto, dormia. E respirava fundo em sono intenso.
Ela beijou-lhe a face, a testa, acomodando-o ao peito ainda agachada. E nesta parte, quem narra já não é o Universo, porque a dimensão humana cabe a mim contar.

A cigana tinha um menino no colo, ergueu-se diante do estandarte e fez uma reverência à imagem da santa de pele escura que se via nele pintada e bordada. A santa cigana certamente tinha um carinho grande para com aqueles que não têm paradeiro no mundo. A santa cigana com toda certeza abençoava aquele menino que jamais fora, em verdade, o louco-da-praça.

A comoção entre os ciganos era geral. Até que o músico do violino gritou:

- Viva a nossa santa Sara Kali!

- Viva!! – celebraram todos os outros, sob as bênçãos do estandarte.

A dança sagrada de celebração da existência infinita seguiu na simples carroça cigana, enquanto a pracinha, inexpressiva e sem graça - cenário de minha visão mais aterradora e comovente -, tornou-se, para mim, um templo onde o mistério foi colocado para ser adorado em verdade e vida.







sábado, 11 de fevereiro de 2017

Comunidade do Sol - cap. 2: Minha Convocação

Minha Convocação

Moro em um pequeno sítio no interior do continente americano e relativamente próximo ao Trópico de Capricórnio. Aqui, em um verão como esse mais recente, as chuvas intercalam suas intensidades com as intensidades do sol. O lugar onde moro, por características que não sei ao certo explicar, é também marcado nessa época por frequentes tempestades de raios. Embora curtas, devido à sua inconfundível fúria, às vezes danificam telhas e, no auge de sua indomável energia, chegam a arrancar, indiferentes, telhados inteiros.

Quanto a esse desprazer, entretanto, eu estava garantido. Aproveitara-me da calmaria da primavera para, no fim de setembro, chamar um mestre telheiro para fazer alguns reparos nos telhados e rufos de minha pequena habitação. Estava, assim, preparado para enfrentar as ventanias e tempestades. Fosse eu mais corajoso, até as desafiaria.

Por esse motivo, não foi sem surpresa que, no meio da noite, abrigado tranquilo de uma animada e ruidosa chuvarada, sobressaltei-me na cama, despertando com um estrondo no telhado. Levantei-me e, rápido, fui em direção ao barulho: imaginava o pior. O que fazer se as telhas houvessem sido arrancadas?

Fui até a cozinha. Nada! O forro estava completamente intacto e seco. Na sala, meus cães dormiam tranquilos.

Simplesmente não fazia sentido. Por barulhos menores eles estariam agitados latindo pela casa. Será que eu sonhara? Mas era tão real.

Resolvi sair de casa e verificar o telhado. Dois segundos na chuva foram o bastante para que eu ficasse completamente encharcado. Não havia mais raios e sentia-me mais seguro.

Peguei a longa e pesada escada de madeira que guardava na edícula, apoiei-a na calha e subi para ver o estado do telhado.

Nada...

Devia ter sido um sonho mesmo.

Quando olhei para baixo, os cãezinhos estavam ao pé da escada; o gosto por novidade fizera-os enfrentar a chuva. Ensopados, esperavam uma palavra minha. Tiveram uma repreensão: - Para dentro, cachorrada!

Guardei a escada e deixei parte da roupa molhada na área de serviço. O contratempo roubara-me uns trinta minutos de sono. Contudo, um banho quente com certeza restituiria a paz à minha alma.

Já seco e aquecido, sem o barulho da chuva que acabara, adormeci no aconchego de minha cama.

Vi-me então sobre o telhado.

Caros leitores, essa parte carece de esclarecimentos: meu corpo estava adormecido na cama, eu estava sobre o telhado.
  
Agora tudo fazia sentido!

Amarrado à viga do beiral estava um antigo barco que não via há trinta anos. Fora atracado durante a tempestade e flutuava bem ali sobre o quintal. Foi quando me vieram as memórias do momento em que eu, com 5 anos, fizera a minha primeira viagem à Comunidade do Sol. Mas qual seria o sentido daquilo?

Sabia que, sendo adulto, aquela viagem era agora impossível. Além disso, faltava-me a guia de outrora, uma mulher que me conduziu à comunidade todas as vezes em que tive necessidade.

Olhando no simples assento do barco, vi então um distintivo sobre uma roupa dobrada. Ambos possuíam o sagrado emblema do sol. Eram exatamente iguais aos que minha guia usava. Lá estavam também um mapa, com um roteiro traçado, e uma bússola especial.

Entrei na embarcação que começou a se agitar. Entendi que deveria soltar as amarras. Foi o que fiz sem demora. Sentei-me, então, e peguei no simplório leme. Bastava apenas alinhá-lo dentro das correntes que, uma a uma, conforme as coordenadas, conduziriam à maravilhosa Comunidade do Sol.

Minhas expectativas eram grandes. Será que as regras haviam mudado e ex-membros seriam admitidos? Reencontraria eu os velhos amigos da infância?

Fui devaneando, enquanto o barco distanciava-se da crosta terrestre. Meu sítio já não se via. Algumas cidades tingidas com pequeninos pontos de luz também iam sumindo pouco a pouco.

Bem distante da superfície, quando já se enxergava o sol do outro lado da Terra, tendo passado todos os rios suspensos que circundam o globo, avistei os imensos portões da Comunidade do Sol.

De um lado, a Terra em sua metade escura; no horizonte, o sol – em seu aspecto nascente. Suspenso no espaço infinito, a querida cidade aonde vinham os barcos de todas as partes do mundo, sempre com barqueiros e crianças.

Nesse momento, as lembranças ficaram mais intensas. Fora em uma noite, daquelas em que a dor nos visita fundo arrancando-nos quase todo o ar dos pulmões e lágrimas dos olhos... fora em uma noite assim, em que tinha ido dormir chorando, que me vi arrancado de minha cama e lançado de súbito naquele barquinho. À época eu era só um menino, foi a primeira vez em que encontrei minha guia e também a primeira vez que fui levado à Comunidade do Sol. O que haveria lá para mim após tanto tempo?
  
Vi milhares de barcos chegando ao litoral da cidade e seguindo em direção ao portão costeiro. Na verdade, era um portal sobre as águas suspensas. Passando-o, havia uma baía e um porto onde as crianças desciam. Os barqueiros, no entanto, não podiam ir além dali. Ficavam nos barcos à espera dos pequeninos que voltariam depois de passar algumas horas da noite lá.

Porém, não sei exatamente a razão; excetuando-se à regra, alguns barqueiros não ficavam. De qualquer forma, esse era mais um mistério entre tantos outros que envolviam a Comunidade do Sol.

Como meu caso parecia diferente – uma vez que eu de improviso tornara-me barqueiro e não conduzia nenhuma criança -, ao aportar, limitei-me a esperar no barco.

Enquanto isso, fui apreciando a organizada e intensa movimentação. Desembarcavam algumas crianças em incontida alegria, outras semiconscientes, outras ainda inconscientes em macas... meninas e meninos de todas as idades e origens: crianças orientais, africanas, esquimós, do oriente médio, da Escandinávia, indígenas, polinésias – o que se quiser imaginar. Algumas delas desciam dos barcos apoiadas em muletas, outras vinham em cadeiras de roda, umas com tampões nos olhos, mas a grande parte caminhava ou era carregada no colo, no caso das menores.

A maior parte sorria maravilhada, contudo, outras, mesmo tendo sido expostas aos vapores do Rio do Esquecimento – assunto que trataremos melhor mais adiante - , ainda choravam e soluçavam.

Permaneci sentado.

Passaram-se alguns minutos durante os quais me deixei elevar pela profusão de beleza própria daquele lugar tão especial. Tudo me suscitava memórias há muito guardadas em algum lugar do coração. No entanto, ali, diante de tantos estímulos de beleza, esse órgão essencial da alma era escancarado, e um passado esquecido há tanto tempo surgia em suas cores poderosas e indestrutíveis. Foi quando veio andando pela orla em direção a meu barquinho uma mulher de baixa estatura. Usava um simples e longo vestido branco com o símbolo do sol em dourado. Tudo nela brilhava... Mas brilho talvez não seja a palavra adequada. Ela toda irradiava. Não somente o vestido, mas suas mãos, braços e todo o rosto e cabelos.

Quando criança, vi muitos como ela dentro da comunidade. Nós dizíamos que eram os anjos que cuidavam de tudo por lá. Não os considerávamos humanos, apesar de suas formas tão semelhantes aos homens e mulheres da Terra. Chamava-os “tia anjinha” e “tio anjinho”, porque suas presenças transmitiam-nos emoções muito intensas de carinho e segurança, realmente difíceis de encontrar no mundo como o conhecíamos.

Essa tia anjinha aproximou-se e estendeu-me a mão para que saísse do barco. Mal conseguia enxergar-lhe a face. Precisei baixar os olhos.

O toque de sua mão revelou-se familiar: talvez fosse uma tia anjinha que cuidara de mim.

Então me dirigiu a palavra:

- Querido amigo, chegou o momento de servir à comunidade que lhe serviu um dia. Você será um aprendiz de barqueiro. Assim como um dia você foi trazido aqui por alguém, você conduzirá crianças para o interior de nossa comunidade. Serão três meninas e uma mocinha. Nós lhe passaremos as coordenadas em seu plano de salvamento, e bastará trazê-las até aqui. O percurso, entretanto, será diferente do que você acabou de fazer, pois é possível que tenham de atravessar alguns rios suspensos específicos. Tudo será melhor esclarecido no plano de salvamento.

- Devo esclarecer que seu distintivo não é mero adorno. É provável que vez ou outra você tenha de usá-lo. Quando for necessário, você saberá. Bastará mostrá-lo.

A conversa foi bastante amistosa, mas objetiva. Ali mesmo nos despedimos. Fui liberado para partir.
      
A viagem de volta foi tranquila e cheia de pensamentos.

Quando aportei em meu telhado, ainda faltavam duas horas para amanhecer. Aproveitei para sentar-me no barco e ler o plano de salvamento de minhas novas tuteladas. Muitas surpresas estavam por vir.


Próximo capítulo: Plano de Salvamento




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Comunidade do Sol

Comunidade do Sol


Fantasia?

Há quem possa assim pensar...
            
Porém, aqueles que lá estiveram e os tantos outros que a visitam quase todas as noites não compartilham dessa opinião. Eles simplesmente sabem em seu íntimo que, embora seja impossível situá-la em um mapa e indicar sua exata direção, ela, a Comunidade do Sol, existe. Sua fundação remete a tempos imemoriais, desde o surgimento da espécie humana.

Não são todos os que podem conhecê-la ou, depois de visitá-la, têm permissão para voltar a ela. Eu mesmo já estive lá algumas vezes, porém, hoje, adulto, só tenho autorização para ir até seus portões ou conduzir crianças até lá. E antes que haja empolgação de alguns pequeninos, devo ressaltar que, na verdade, nem são todas as crianças que podem conhecer e visitar essa imensa cidade que tem no símbolo do Sol seu grande patrono.

Durante muito tempo estive esquecido de sua existência e dos caminhos que se percorrem pelo espaço terrestre para se chegar à Comunidade do Sol. No entanto, a memória desse especial lugar me assaltou de repente, nítida como uma fotografia de cores vivas, quando chegaram a mim três crianças e uma jovem de seus quase 15 anos. Fora-me confiada uma missão.

Assim como um dia em minha infância uma mulher havia me conduzido à entrada da comunidade para me salvar, eu teria de fazer o mesmo. Era a segunda parte de minha iniciação até então esquecida. A primeira se dá na infância, ao conhecermos o lugar; a segunda, na fase adulta, ao conduzirmos novas crianças a ele.

Como não posso mais lá entrar, a leitora e o leitor saberão em meus relatos aquilo que a jovem Beatriz – a mocinha que mencionamos – me contou após suas visitas. Às descrições e narrativas dela, acrescentarei um pouco de minhas ternas recordações da época em que fui salvo por frequentar essa comunidade, conversando com amigos que fiz e que, algum dia, talvez em um futuro distante, possa reencontrar.

Bom, primeira informação importante: só se chega à Comunidade do Sol após sermos lançados a contragosto em um tosco barco, desajeitados, angustiados ou verdadeiramente feridos, nos instantes iniciais do sono. Somos assim lançados em uma pequena embarcação que flutua num pequenino porto atrelado a todas as casas e locais onde dorme pelo menos uma criança. O barquinho fica ali, geralmente amarrado no telhado, embora existam inúmeras variáveis, como corrimões de viadutos – sob os quais dormem crianças – ou em escombros indescritíveis de guerra. Os barquinhos mais belos que vi estão em florestas, amarrados em altos galhos de árvores, próximos a imensas ocas coletivas.

Apesar disso, não são todas as embarcações que dispõem de autorização para partir. Elas ficam amarradas até que alguém como eu, um iniciado, possa visitar o local e assumir o papel de barqueiro da Comunidade do Sol.

Devo confessar que essa é uma situação bastante emocionante. Isso porque, ao receber a missão, o barqueiro ganha uma veste luminosa, um distintivo em forma de sol, um mapa e uma bússola que aponta, diferentemente das outras, para o Leste.

Contarei, de início, como fui convocado como barqueiro.

Se é de seu interesse saber como tudo acontece, convido-o(a) a me acompanhar nessa jornada. Ela é longa e suave. E tem de ser suave, pois, do contrário, poucos aguentariam. Na verdade, as aventuras dos envolvidos ocorrem em outros momentos e, por isso, somente na Comunidade do Sol eles podem reacender a esperança e o gosto pela vida.

Adianto, portanto, desde já, que a Comunidade do Sol é lugar de sobreviventes, cuja fragilidade esconde um grande poder de resiliência e transformação. Todos eles se reconhecerão, um dia, como heróis de si mesmos. Mas isso é uma outra história.


Próximo capítulo: Minha Convocação


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Oniríadas - A loja de decifração de sonhos, Gigi e outros contos

Pessoal,

Estou participando de um concurso literário do SESC com um livro de contos.
O livro se chama "Oniríadas - A loja de decifração de sonhos, Gigi e outros contos".

Os contos que o compõem são os seguintes:

A loja de decifração de sonhos e a salvação do Egito
A loja de decifração de sonhos e a linda Srta. D.
A loja de decifração de sonhos e a melodia russa
A loja de decifração de sonhos e a visita de Iansã

A loja de decifração de sonhos: epílogo

Aika e Gigi
Revelação a Gigi
Gigi e Ceci: um encontro delicado
Gigi e o latido humano
Gigi, o Esperanto e os sotaques
Gigi e o sonho com o homem pobre

A pornografia de Voltaire
A visita do coordenador
Ensaio sobre um Pai morto
Lições de um espectro
No compasso da reencarnação
O Exorcismo de Satanás
A herança do homem que não conseguia morrer
13 de agosto de 1963

Agradeço a todos a torcida!

Se tudo der certo, depois de junho eles poderão vir a público.



sábado, 21 de janeiro de 2017

A loja de decifração de sonhos e a salvação do Egito





Os sonhos não parecem justos com os sonhadores, talvez por isso nem todos disponham-se a lembrar-se deles ou a levá-los a sério quando se veem, à revelia, confrontados com a lembrança persistente de uma cena carregada de sensações, que encanta ou assombra no meio da noite ou, às vezes, em um breve cochilo. No caso dos sonhos recorrentes, ainda que perturbem como verdadeiros enigmas que exigem ser desvendados, são poucos aqueles que se esforçam para investigar a fundo seu significado, subestimando-os como simples curiosidades e excentricidades da mente. O fato é que não é moda deste tempo aceitar os sonhos como sinais proféticos ou, ao menos, como enredos imagéticos dignos de interpretação. Nesse sentido, um faraó moderno dificilmente aventaria a hipótese de convocar à sua presença um estrangeiro desconhecido e de vida obscura para explicar-lhe o significado de um sonho com vacas gordas e magras. Assim, não é de se estranhar que um Egito qualquer da contemporaneidade venha a perecer por falta de quem sonhe e dê crédito ao enredo sonhado, bem como de outro que interprete com seriedade insólitas esquetes do inconsciente.



Por esse motivo, poucos acreditariam que uma loja dedicada à interpretação do universo onírico teria a mínima chance de  prosperar e fazer sucesso. Porém, a realidade mostrou-se outra.

O estabelecimento em questão foi aberto num pequeno e pacato bairro da metrópole. Perto de um asilo e de uma antiga vila operária, situou-se em uma casinha branca que praticamente não exigiu adaptações relevantes para o tipo de comércio a que lhe deram destino.

Ao que consta, seus idealizadores tiveram a ideia de fundá-lo a partir de um sonho que cada um teve, os quais, colocados em conjunto, formaram um mensagem fractal, poética, bela e verdadeira. Mas isso é uma outra história na qual não nos alongaremos.

A razão disse-lhes que o negócio era inviável; a intuição e os sonhos explicaram-lhes que uma empreitada daquelas era seu propósito e destino. Sabendo estar em um mundo em que a razão anda de mãos dadas com o desarrazoável, ficaram com os conselhos dos sentimentos inatos da inteligência. Ei-la, portanto, a casinha branca com uma pequena placa caprichada: Morpheus - Loja de Interpretação de Sonhos.

Assim, devotados leitores, para o público mais exigente, resumimos o porquê da existência da loja. Agora, conheçamos uma vida que foi afetada profundamente por esse tão incomum labor de destrinchar sonhos.

O caso refere-se a um homem de 43 anos. Tendo uma irmã mais nova, moradora da vila operária, tomou conhecimento da loja ao passar em frente a ela. Cético, como a educação e as experiências o fizeram, ao ler a placa do estabelecimento, riu-se sarcasticamente por dentro. 

"Mistificações aos montes, desde sempre e por toda parte" - pensou, não sem certa razão.

No alto da placa elíptica, contudo, fitou um desenho que lhe pareceu curioso e de bom gosto: a imagem pintada de Morfeu, figura masculina alada a dançar com ninfas.

Foi então que se lembrou de um sonho que o incomodava de vez em vez, principalmente quando relaxava das atividades do escritório de advocacia que herdara do pai.

Por ser digno de nota, aqui registrou-se o sonho.
Senhor F. via-se diante de uma mesa de cartas. Estava ele, a mulher, o filho de 17 anos e alguns funcionários de confiança. Começara um jogo. 

Ele recebera a primeira mão de cartas. Os naipes não lhe pareceram bons, mas o medo de pegar uma mão pior o fez desistir de se livrar das primeiras cartas. 

Na segunda rodada, foi obrigado a comprar uma carta da mesa. Veio-lhe então a carta do coringa. Mas era um coringa diferente. Era O Louco das cartas de tarô.

Ficou surpreso e ao mesmo tempo muito nervoso. Quem havia colocado aquela carta ali?

Não bastasse o incômodo, o desenho do cãozinho que acompanha a figura do Louco se distraiu com uma linda borboleta azul e começou a latir. Em seguida, o Louco olhou para o Senhor F., piscou e começou a assobiar e a fazer momices indo atrás da borboleta.

Entre encantado e contrariado, Senhor F. acordava sempre intrigado e confuso.

O "vagabundo" do tarô parecia saber algo a respeito de Senhor F. que ele mesmo não sabia. Isso definitivamente não era justo!

Perturbado com a lembrança do sonho, o homem acomodou-se embaixo de uma árvore quase em frente da casinha branca. Limpou o suor do rosto - era quase meio-dia. Uma estranha disposição tomou-lhe conta do espírito.

Ora, estando diante da loja de decifração de sonhos, algo ocorreu ao cético Senhor F. Ele bem que poderia pregar uma peça nO Louco. Se o Senhor F. descobrisse o que o debochado personagem sabia a respeito do próprio Senhor F., talvez não se sentisse mais nas mãos desse coringa indesejável, podendo finalmente expulsá-lo de seus sonhos.

Resolveu entrar na loja. Não queria demorar, tampouco ser flagrado pela irmã metendo-se com esoterices. Contudo, derrotar o Louco transformou-se de uma hora para outra em uma indelével obsessão. Enfim, como o Louco faria, num impulso da alma, adentrou pelos umbrais da casa e, passando pelo jardim lateral, surpreendeu-se com a força do próprio ímpeto que o colocara bem diante de uma mocinha de uns 14 anos - era filha de um dos sócios. 

Ela explicou-lhe que era necessário marcar um horário para acostar-se em uma poltrona especial, que havia em um dos cômodos da loja, para em seguida ouvir a interpretação que lhe seria dada a partir de um especialista em sonhos. Aquilo tomaria por volta de duas horas.

Advertiu-o que, após a consulta, era recomendável tirar o restante do dia para si.

Ele achou tudo muitíssimo estranho, porém, para derrotar figuras oníricas insólitas, talvez um pouco de excentricidade não seria um preço tão alto assim. Marcou um horário e foi-se sem demora almoçar na casa da irmã.

O dia tão esperado enfim chegara. Senhor F. pontualmente apareceu à casinha branca tutelada por Morfeu. Dessa vez foi atendido por um homem de face arredondada e de tez escura e brilhante, que, embora se vestisse à moda ocidental, inspirava a sensação de estar-se diante de um jovem guru indiano. Tinha um sotaque um pouco carregado que lhe reforçava a aura misteriosa. Contudo, em ligeira conversa, Senhor F. soube que seu intérprete de sonhos era um paquistanês que vivera bom tempo na Inglaterra.

Mas isso também é outra história.

Vamos ao que realmente importa.

Senhor F. sentou-se à poltrona. Sob a orientação do jovem, relatou o sonho inconveniente e depois relaxou profundamente.

Quando se viu bem relaxado, imagens do passado lhe vieram à mente. 

As cenas foram aparecendo em sequência: a avó materna que tinha um tarô de Marselha e dava consulta a vizinhos - por isso reconhecera a carta dO Louco. O insetário que ajudara o tio a fazer. Nele se via uma linda borboleta de azas azuis - foi quando Senhor F., à época um pré-adolescente, decidiu tornar-se biólogo. Por fim, o pai, mostrando-lhe o escritório de advocacia e argumentando por todos os meios que o Senhor F., aos 17 anos, deveria seguir a carreira do Direito. 

Após ouvir o relato do Senhor F., o paquistanês comentou: "Pois é, então seu pai já deu ao senhor logo na primeira rodada da vida uma mão de jogo que, mesmo longe de satisfatória, pareceu-lhe segura, não é mesmo? Então apareceu o cachorrinho perseguindo a borboleta, ou seja, o pequeno Senhor F. e seu desejo de seguir na carreira das Ciências Biológicas. Por fim, o desvairado Louco, o livre Louco, o desbocado Louco, dando-lhe uma piscadela e perguntando em silêncio: Você se lembra de seu ímpeto primeiro que nortearia toda a sua vida para um destino bem diferente do que ele é hoje?"

Queridos leitores, o Senhor F. sentiu um golpe violento de epifania, um golpe aterrador seguido de uma brisa suave que passou a acariciar seu rosto enquanto as lágrimas viam-lhe abundantemente. Fora a última visita do Louco.

O paquistanês ofereceu-lhe um lencinho e água. Deu-lhe um abraço, perguntou se estava suficientemente bem para voltar para casa.

Senhor F. saiu da loja de interpretação de sonhos. Havia mais quatro pessoas na salinha de espera. O negócio prosperava, o negócio era justo, o negócio era bom. 

Senhor F. estava entre desnorteado e aliviado.

O que se conta é que, dias depois, Senhor F. chamou o jovem A. para uma conversa franca de pai para filho.

O rapaz deixou a sala leve e emocionado. O pai voltara atrás a respeito da inscrição da faculdade do filho. A. não precisaria mais fazer Direito. 

Uma frase ouvida por A. naquela noite foi: "filho, cada um tem seu próprio caminho".

E Morfeu brincou com os sonhos do jovem A. levando-o a voar pela cidade iluminada.  O pobre, nos últimos três meses, sonhava frequentemente que cavava uma cova profunda onde ele mesmo deveria deitar-se. 







terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Fábrica-Escola e o Mestre de Máquinas






Desde a Revolução Industrial, instaurou-se nos meios de produção a era da eficiência, uma mentalidade pragmática marcada pela ideia de que cada ser, inanimado ou não, deve possuir uma finalidade, um determinado desempenho e uma durabilidade a serem explorados ao máximo. Assim, operários tornaram-se peças de engrenagem, ou seja, pessoas foram reduzidas à sua capacidade de produção.

Mas quem nos interessa, caríssimos leitores, é uma outra peça, a que chamaremos "mestre de máquinas" e analisaremos em versão mais contemporânea.

O mestre de máquinas tem função estratégica no sistema. Isso porque ele detém perfeita noção acerca dos intentos do dono da fábrica e ao mesmo tempo compreende a complexidade do funcionamento do maquinário, de modo a fazê-lo desempenhar como esperado. No entanto, para isso, ele precisa ter o controle sobre tudo o que ocorre na fábrica, sobre cada operário, sobre cada máquina, sobre cada produto que sai na última esteira para ser empacotado, sobre cada engrenagem da engrenagem... Trabalho duro, trabalho árduo, trabalho essencial em uma fábrica.

Uma vez que traçamos um fraco esboço de quem seria essa peça-chave do sistema, vamos observar um caso peculiar em uma fábrica que trabalha com um produto muito especial e sensível: resultados no vestibular.

Os produtos, portanto, são aprovações e classificações em exames de ingresso em faculdades concorridas. Os operários são de dois tipos: por um lado, os alunos que devem atingir os resultados esperados, por outro, os professores, que devem elevar o desempenho desses alunos ao máximo.

O processo de produção é basicamente todo intelectual. Os testes são todos monitorados ao longo de pelo menos três anos; os resultados de todos os operários são medidos em tabelas para serem avaliados e reavaliados.

Como os leitores podem constatar, referimo-nos a um sistema realmente prodigioso, que permite averiguar os pontos sensíveis do processo para reformulá-los e superá-los.

Apesar do modelo praticamente infalível, há sim desafios. O perfeito desempenho dos operários conta com alguns entraves, como diferenças de aptidões - nem todo aluno responde igualmente ao processo de aprendizagem e provas -, conflito de interesses - nem todo aluno deseja fazer vestibular em instituições de renome -, além da vida particular do aluno, de seu perfil psicológico, de suas aspirações e de tudo aquilo que só diz respeito a ele.

Outra questão relevante são os professores, mas essa é menos desafiadora, já que boa parte desses operários ou concorda com o sistema e o reproduz com prazer, ou consente com o sistema por uma questão de sobrevivência.

Isso posto, vamos ao caso de um mestre de máquinas cuja prática ilustra tantos outros enredos semelhantes.

Esse mestre em questão, a exemplo de seus comuns, possui também sua sala de máquinas. Lá ele vigia todas as salas onde estão os operários.

Tudo o que desfavorece o desempenho intelectual deve ser suprimido; tudo... definitivamente tudo.

A forma aparentemente mais eficaz para isso é produzir a sensação de que todos os operários, um a um, estão sob ininterrupta vigilância. Nesse sentido, a tecnologia é pródiga em contribuições: câmeras coloridas de ótima definição em todas as salas de aula; o controle de todas as câmeras na sala do mestre de máquinas.

Todos na fábrica-escola se sentem sob o olhar do Grande Irmão ou na mira indefensável do Panóptico de Foucault - escolham a metáfora que melhor lhes aprouver - ou ambas.

No que concerne à primeira etapa do controle, ótimo, tudo se vê... mas onisciência envolve saber o que se diz também. 

Embora não haja microfones junto às câmeras, encontrou-se meio mais eficiente de saber o que se fala durante as aulas. Espionagem é seu nome. Operários que servem ao mestre de máquinas, servem-no com prazer. Sentem-se talvez importantes ao fazê-lo, superiores aos demais. Dizem quem fez e quem deixou de fazer, quem falou ou deixou de falar, quem está namorando quem, quem terminou com quem, quem gosta de morango, quem gosta de chocolate, que professor falou palavrão, qual palavrão e em qual circunstância.

Os informantes com altas chances de desempenhar no vestibular têm ainda um bônus: podem sugerir o que deveria mudar em determinadas aulas - didática, conteúdo, performance...

Assim, mesmo que não haja microfones nas salas, muitos operários creem que  tais mecanismos estejam lá, pois certas vezes são chamados à presença do mestre de máquinas e confrontados com aquilo que disseram ou fizeram em uma ocasião ou outra.

O mestre de máquinas pensa ser saudável à fábrica que os operários sejam perturbados com essa crença.

A pessoa da Sala de Máquinas tem suas crenças também. Para ele, esse sistema é o mais adequado, o menos falível. Pela inegável eficiência disciplinar que esses métodos permitem, ele não vê problemas morais no processo de produção dos resultados dessa fábrica. Os fins justificam, sem a menor dúvida, os meios - quaisquer que sejam eles. Todos agem conforme o dever - agir por dever não é o que importa.

O panóptico do mestre de máquinas ainda tem uma extensão para além dos muros da fábrica. Chama-se rede social. Estalqueiam-se todos os operários - investigar ou monitorar seriam palavras muito pesadas. Aquilo que for relevante para a fábrica certamente não passará em branco. 

Desse modo, na Sala de Máquinas desenvolve-se conhecida paranoia pelo controle, pelo resultado, pela onisciência, pela onipresença, pela onipotência.

O mestre de máquinas brinca de Deus em seu sistema perfeito, mas diferente Deste - que criou todos os seres e os conhece -, o mestre de máquinas não conhece verdadeiramente seus operários. Possivelmente ignora que eles se sentem inseguros, sem autonomia e têm medo de falar algo que possa chegar à temida sala do mestre. Ignora que alguns passam a acreditar que são mensuráveis como pessoa a partir de seu desempenho nas provas, resumindo sua autoimagem em operários nota 6,0, nota 4,5, nota 8,0 nota 9,5. Desconhece que nesse sistema existem operários que acreditam que por serem pouco relevantes em suas notas nem são dignos de serem conhecidos pelos demais operários. Ignora que os operários não estão se tornando seres morais, mas condicionados à moral de um sistema.

O que o mestre de máquinas precisa saber e nenhuma câmera, informante ou perfil de rede social vai lhe revelar é que seus operários estão adoecendo pelo simples fato de que escola não é lugar de operários, escola não é fábrica de resultados e que fábrica-escola é uma crença que se confirma excelente para vestibular, mas tacanha demais para a realidade complexa que é formar de fato seres humanos prontos a questionar e modificar um meio cheio de injustiças engendradas e consolidadas por sistemas, a exemplo desse tão ao gosto do mestre de máquinas.

Entretanto, esses dados não se colocam em gráficos, esses dados são complicadores em sistemas que exigem resultados. E de mais a mais, o que se pode contra uma crença confirmada por estatísticas?

Sim, senhoras e senhores, o mestre de máquinas tem uma crença inabalável, confirmada por estatísticas, confirmada pela ação e palavras de seus operários mais devotos, confirmada pelas expectativas dos pais dos operários. O mestre de máquinas, acima de tudo e contra todos os argumentos, tem Razão...

As emoções e a subjetividade que fazem o ser um ente complexo, verdadeiro e único? Elas que fiquem para outro departamento.