domingo, 14 de agosto de 2011

Ensaio da confissão

"Ocorreram muitas coisas impossíveis de serem canceladas.
Algumas poderiam ter sido diferentes, se eu mesmo tivesse sido diferente. Assim, pois, as coisas foram o que tinham de ser, pois foram o que foram por eu ser como sou. Muitas coisas, muitas circunstâncias foram provocadas intencionalmente, mas nem sempre representaram vantagem para mim..."
                                                - Carl Gustav Jung (Memórias, Sonhos e Reflexões)

Creio que pesa sobre cada um de nós o véu do mistério da própria existência. Ignorá-lo é loucura ou insensatez; agir na vida como se ele simplesmente não existisse é conduzir-se por um caminho perigoso e incerto.  Em nossa condição de completa ignorância quanto à real essência de nós mesmos, limitamo-nos a buscar a satisfação de nossos desejos, sem, contudo, sabermos o que é desejar bem. Deixamo-nos arrastar por nossos instintos e acreditamos sermos senhores de nós. Surgem, no entanto, as consequências de nossas ações e o véu do mistério revela a primeira lei oculta: "não existe acaso!". Percebemos, então, que agir conforme nossas vontades, e ter essa possibilidade de forma plena, não é o suficiente para responder a nossos anseios de felicidade e plenitude. Quando já cansados de ignorar essa lei, dobrados em nosso orgulho e sendo obrigados a nos confessarmos frágeis e ignorantes diante da vida, é que nos voltamos aflitos para o Invísivel Presente que permeia o universo, buscando compreendê-lo para agirmos conforme sua lei, evitando consequências infelizes de ações imprevidentes. 
Uma vida é muito pouco diante da existência!
Há fúria e beleza no mundo porque há fúria e beleza no ser humano. Mas a fúria só é bela na poesia. Suas consequências no mundo real, assim como as do orgulho, ganância, inveja, ciúme, crueldade, intemperança, teimosia, egoísmo e perversidade, são vorazes e causam infelicidade tanto em seus responsáveis quanto em suas vítimas. Existe, entretanto, o Amor. Não a sensualidade a quem chamam amor, tampouco o apego, o ciúme ou o egoísmo de afeto. Existe o Amor que não sabemos ainda viver de forma plena, pois, para que ele seja pleno, é preciso que todos os males deixem livre o espírito humano. O Amor faz parte desse véu de mistério que cobre a existência de todos os seres animados e inanimados.
Uma vida é pouco para compreendê-lo!
Estamos em um mundo de dor, ela está à nossa volta e respira conosco, porque ela é nossa e são as muitas e infinitas dores que materializam a dor do mundo. Isso talvez porque ignoremos que para sermos felizes é também importante abrirmos mão de nossos desejos de satisfação pura e simples. É importante que aprendamos a saber desejar. Para isso, antes de mais nada, precisamos buscar compreender quem somos. Dessa compreensão advirá a compreensão do resto.
Uma vida ainda é pouco!
Nesta curta vida, já dobrei meus joelhos diante do véu do mistério. Esta atitude me recompensou com um estranho alívio, uma forte resignação, uma extrema esperança e uma infinita consolação. Mas a lei de causa e efeito não deixa de atuar sobre os que estão sob sua tutela só porque escolheram mudar sua postura ao conduzir suas vidas. Há muitas consequências ainda a se apresentar.
Uma vida ainda não é o bastante!
Ajoelhar-me diante do desconhecido e confessar-me ignorante não me tornou perfeito. Estou em um mundo em que sou chamado constantemente a agir. Minhas ações são marcadas ainda por minhas imperfeições.
 Entretanto vibro com uma indestrutível certeza: estou a caminho de construir uma verdadeira felicidade, para qual nem uma vida nem muitas serão o suficiente!
Vislumbrar a felicidade futura é experimentá-la em parte!
Sabê-la existente é crer em Deus!
Em meio a dor, lembrar-se de Deus é ser feliz!

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